Arquivo de março, 2011

(Minha esposa e filha em foto tirada no Sesc Pompéia em fevereiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“Suponho que minhas superstições podem ser consideradas idiossincrasias. Tenho que somar todos os números: há pessoas para as quais nunca telefono porque o somatório de seus números dá um total funesto. Ou eu não aceitaria um quarto de hotel, pela mesma razão. Não tolero a presença de rosas amarelas – o que é triste, porque é minha flor preferida. Não posso admitir três pontas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajo num mesmo avião com duas freiras. Não começo nada às sextas-feiras. São infinitas as coisas que não posso fazer ou jamais faria. Mas obedecer a esses conceitos primitivos me dá um curioso conforto.”

[Truman Capote, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

No último ano, In on it conseguiu o milagre de ser comercial sem ser vazia. Ingressos esgotados, Faap e Eva Herz. Público e crítica de braços dados, sorrindo (sei que a imagem parece assustadora, mas aceitem).

E como isso se deu? Simples: conteúdo. Um texto, dois atores e um diretor. Ao final, crítica e público querem a mesma coisa: uma estória com conteúdo. Uma experiência que os assombre ou comova ou entretenha. Não nessa ordem, necessariamente, mas com essa finalidade. Não quero estender a questão do que seria conteúdo aqui, o texto ficaria adiposo demais, embora queira que você realmente pense nisso com carinho e dedicação (com carinho, ao menos). E não levante esse dedinho médio pra mim antes de refletir sobre o que você realmente quer quando vai ao teatro, ok. Reflita.

Pterodátilos (3.5/5) é o mais recente In on it. Um texto, quatro atores e um diretor. Parece fácil. Parece simples. É e não é. O tripé só se estabelece se todas as partes forem fortes. Daí a dificuldade da coisa. Não é preciso ir muito longe: A senhora de Dubuque é um tripé apoiado apenas por uma das pernas, o texto do Albee. Por isso a inconsistência do conjunto, a falta de centro etc. e tal.

Mas eu falava de Pterodátilos. De como a coisa toda funciona de maneira harmoniosa e de como Felipe Hirsch consegue ser comercial sem ser vazio e grave sem ser pesado. E é isso aí: saiu o resultado do Shell lá no RJ, e o Nanini e a Mariana Lima acabaram ganhando mesmo.

Pois: findo o espetáculo, já em casa, lembro de ter dito à minha esposa, ocupada em recortar figuras com a palavra E para finalidades onomásticas, que se ambos não abocanhassem o prêmio eu iria me tornar um artista da fome, e viveria assim, pra jejuar e ser observado pela massa. Bendito júri, que ainda fez o favor de reconhecer o talento que é o Jô Bilac.

Lygia Fagundes Telles se referia a Caio F. como “Escritor da paixão”. Essa informação fica assim, na nossa cara, quando recebemos o programa da peça Lixo e purpurina (0/5). Escritor da paixão, eu repito, e penso (e logo deixo de pensar). Lygia, suponho, devia estar tomando chá e reescrevendo Venha ver o pôr-do-sol para figurar numa nova antologia de contos quando foi instada a dar seu parecer acerca da escritura do Caio; ou: foi pega de surpresa numa dessas entrevistas em que jornalistas culturais assaz despreparados vasculham o mobiliário íntimo de seus entrevistados à cata de revelações domésticas. A platitude (“Escritor da paixão”), portanto, tem uma razão de ser. Dizemos qualquer coisa quando recebemos a visita de jornalistas culturais. Imagino a cena: “E como a senhora definiria Caio Fernando Abreu, um de seus contemporâneos?”, o jornalista cultural pergunta, e sorri. “Bota aí ‘Escritor da paixão’ e por favor fecha a porta antes de sair.”

Taí: um lugar-comum se estabelece quando alguém é impelido a dar respostas para perguntas genéricas. Um punhado de imbecis, não leitores, colhe esses lugares-comuns e os transforma em truísmos.

Escritor da paixão? Que merda de expressão é essa? Ele é apaixonado? Ele escreve com paixão? Não respondam. Tenho alunos das mais variadas idades. Tenho alunos que mal escrevem. Tenho alunos que mal existem, mas nem um deles, mesmo em seus piores momentos, atinge tamanha escassez lexical.

Explico: apoiado por esse lugar-comum pinçado (e descontextualizado) não sei de onde, a peça se propõe, igualmente, a ser um “exercício de paixão”. De devoção. De entrega. E só. Meninos e meninas: paixão, tão-somente, não basta. Sentimentos à flor da pele, tampouco (só de pensar que fui obrigado a escrever “sentimentos à flor da pele”, afinal quero me manter fiel ao material da montagem, sinto-me um tantinho diminuído, como se ainda estivesse aprisionado no período de latência). Decerto é preciso que essas coisas estejam envolvidas no processo, mas insisto: paixão, no teatro, é nota de rodapé. E ilegível ainda por cima. Se alguém ainda sonha (sonha?) em fazer teatro, esqueça a paixão (vai estudar, vai). Arte é território que exige mediação, olhar do artista sobre, do contrário é filistinismo ou pose ou masturbação (no geral, tudo junto). Pense em palavras como tenacidade, inteligência e sensibilidade (papai Antunes).

Pois: teatro é a arte da repetição (lugar-comum) somado à sensibilidade (lugar-comum) mais desapego (lugar-comum desconhecido por 95% da classe artística; ao pronunciar classe artística você sente engulho). Vaidade no teatro não dá pé. Mas divago.

Davi Kinski, seguramente, leu e releu Caio F. (como a maioria de nós, quando ainda adolescentes). Mas falta técnica (sim, Davi, técnica é importante). Davi acredita, precisamente, que entende o que está sendo dito ali, naquele espaço. Nem de longe (mais: não há senso dramatúrgico algum na colagem proposta por Kiko Rieser). Não é possível criar qualquer tipo de identificação com o que Davi diz porque no teatro dizer implica em sentir (ou fingir; e pra fingir é preciso técnica, coisa que Davi não tem), e tudo que Davi sente é análogo ao que sentimos quando somos elogiados, bajulados, queridos. O rapaz está embevecido. Davi está demasiadamente orgulhoso de ocupar o proscênio e parece esquecer (e em momento algum se dá conta) que o texto, a cena, o sentido, o sentimento, a presença e todo o resto se cria ali, naquele exato instante, e não dentro dele. O problema da paixão é que ela não é palpável. O teatro é.

(Foto tirada no Sesc Pompéia em fevereiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“O que eu chamo de minha filosofia de ensino é, de fato, uma filosofia de aprendizado. É de Platão, modificada. Antes que o verdadeiro aprendizado possa ocorrer, eu acredito, tem de haver no coração do estudante um certo anseio pela verdade, um certo fogo. O verdadeiro estudante arde de desejo de aprender. No professor, ele reconhece, ou percebe, a pessoa que chegou mais perto da verdade do que ele próprio. Tanto ele deseja a verdade incorporada no professor, que está preparado a queimar sua antiga identidade para obter a verdade. De sua parte, o professor identifica e encoraja o fogo do estudante e reage a ele queimando com uma luz mais intensa. Assim, os dois juntos atingem um âmbito superior. Por assim dizer.”

[J.M.Coetzee, Verão]

Para mim, o maior mistério da ciência ainda é que um homem possa ser pai de seis filhos que não compartilham absolutamente nenhum de seus interesses. Certamente expressávamos entusiasmo pelos passatempos da mamãe, do fumo e do cochilo aos escritos de Sydney Sheldon. (Pergunte à minha mãe como funciona o rádio e a resposta será simples: “Ligue e puxe a droga da antena”.) Uma vez visitei o escritório do meu pai e saí de lá reconfortado por descobrir que, ao menos por ali, ele tinha uns poucos com quem conversar.

[David Sedaris, Eu falar bonito um dia]

Filmes

Caça às bruxas, Dominic Sena (0/5)

It’s kind of a funny story, Anna Boden e Ryan Fleck (2.5/5)

Catfish, Henry Joost e Ariel Schulman (3/5)

Ervas daninhas*, Alain Resnais (5/5)

Filme socialismo, Jean-Luc Godard (5/5)

Histórias de amor duram apenas 90 minutos, Paulo Halm (2/5)

Stella, Sylvie Verheyde (2.5/5)

Badlands, Terrence Malick (4/5)

Days of heaven, Terrence Malick (4/5)

O mundo odeia-me, Ida Lupino (4/5)

Rede de intrigas, Sidney Lumet (5/5)

Quando você viu seu pai pela última vez, Anand Tucker (2/5)

Jack goes boating, Philip Seymour Hoffman (2/5)

O sentido da vida*, Terry Jones (3.5/5)

Breves entrevistas com homens hediondos, John Krasinski (0/5)

O discurso do rei, Tom Hooper (2.5/5)

Blue valentine*, Derek Cianfrance (4/5)

Directed by John Ford, Peter Bogdanovich (3/5)

Ricardo III – um ensaio*, Al Pacino (3/5)

Procedimento operacional padrão*, Errol Morris (2/5)

Bonequinha de luxo*, Blake Edwards (4/5)

127 horas, Danny Boyle (2/5)

O espantalho, Jerry Schatzberg (5/5)

Vengeance, Johnnie To (4/5)

A erva do rato*, Júlio Bressane (3/5)

Peças

Anticlássico, Alessandra Colasanti (3/5)

À meia-noite um solo de sax na minha cabeça, Mário Bortolotto (3/5)

Livros

Diálogos, Gilles Deleuze (4/5)

The zoo story, Edward Albee (5/5)

Cachalote, Daniel Galera e Rafael Coutinho (3/5)

* Revistos/relidos