Arquivo de fevereiro, 2012

Não quis ser actor no início. Tenho 60 anos. Sou obrigado a ganhar a vida. Encontro um realizador que me diz “coloca-te à esquerda”. “Não, André, sofre. Não, sofre melhor, meu caro, com intensidade.” No teatro, ao menos todas as noites podemos inventar. No cinema a maior parte dos cineastas não são propriamente génios. Somos obrigados a trabalhar com medíocres. (…) O cinema fez-me ganhar a vida. Fiz pequenos papéis. Poucos papéis principais. Mas não se ganha mal. E o teatro que faço também nunca me permitiu ganhar muito. O “métier” de actor é estranho. Estamos dependentes do desejo dos outros. O outro problema é que somos obrigados a cuidar de nós, há um grande narcisismo. À medida que envelhecemos temos de nos confrontar com o corpo, com a nossa carne, com os dentes que perdemos, é desagradável. Quando filmamos uma cena de amor uma maquilhadora maquilha-nos o cu. É de doidos. É a grandeza e decadência dos actores. Mas há coisas formidáveis. Christopher Walken é um gênio.

[André Wilms, via Malone meurt]

Nunca te pedi nada, não costumo pedir nada. O fato é que estou pra fazer trinta anos nos próximos dias, um acontecimento terrível e deveras repulsivo pra ser festejado e mesmo lembrado. Mas, apesar disso, apesar da miserabilidade da ocasião, apesar de ser um dia de todo desprezível e insípido, resta uma pequena satisfação. A satisfação de ser presenteado. Qual a real utilidade de um aniversário sem presentes? Utilidade alguma. Por isso te peço, insisto: presenteie-me adequadamente. Eis a lista, pra que você não formule desculpas.

Entrevistas com Francis Bacon, David Sylvester (Cosac & Naify)

Rock ‘n’ roll e outras peças, Tom Stoppard (Companhia das Letras)

Escritos sobre o teatro, Roland Barthes (Martins Fontes)

O aberto, o homem e o animal, Giorgio Agamben (Edições 70 – Brasil)

O teatro de Sabbath, Philip Roth (Companhia das Letras)

Cinefilia, Antoine de Baecque (Cosac & Naify)

«Eles têm inveja do nosso casamento». Ouvi-os garantir isto e não disse nada, não sei quem «eles» são, tenho uma vaga ideia acerca do casamento em causa, e desconheço se há motivos plausíveis de inveja. Parece-me, aliás, que «invejar um casamento» é, como quase toda a inveja, um caso de informação deficiente. Inveja-se uma imagem que temos, e que até tornamos mais gloriosa só para a podermos querer para nós, e não para os outros, obviamente indignos dela. Além de que, com franqueza, quantos casamentos invejáveis há no mundo? Posso invejar a alguém o facto de estar casado com determinada pessoa, na medida em que a quisesse para mim; mas será que invejo o casamento deles? Saberei o suficiente para invejar aquele específico estado de coisas? Conheço bem, acho eu, cinco ou seis «bons casamentos», mas não invejo nenhum deles, não apenas porque não desejo as mulheres em causa mas porque todos esses casamentos assentam em bases que eu não quereria para mim, porque somos pessoas diferentes, e o que agrada a uns não convém a outros. Na vida civil, a inveja é quase sempre dirigida a situações, mais do que as pessoas; mas na vida amorosa, desejar o cônjuge alheio não significa invejar uma situação, porque uma situação é relacional, não-copiável. Seria tão estranho dizer «invejo o teu casamento» como dizer «invejo o amor que ele tem por ti», como se o amor dele fosse comparável com o meu, ou o meu com o dele.

[Pedro Mexia]

Antes de me dar conta de que ela estava com mal de Alzheimer eu me irritava com minha mãe todas as noites por todas as noites me perguntar se meu pai já havia voltado para casa, e me obrigar assim a, todas as noites, durante não sei quantos meses, lhe explicar que ele já tinha morrido havia dez anos. E todas as vezes era como se recebesse a notícia pela primeira vez. Umas cem vezes lhe dei, ao anoitecer, com um contrafeito beijo de boa-noite, a notícia de que seu marido tinha morrido. Cem vezes viúva. Seu marido morreu cem vezes, mas só para ressuscitar no dia seguinte, quando, ao deitar-se, me perguntava se ele já havia voltado para casa.  Cinco anos depois de diagnosticado o caso, eu já estava completamente acostumado com isso e não estranhei quando passei a ser chamado primeiro de irmão, depois de marido, e, nos últimos tempos, pai. Pouco antes da crise que a levou para o hospital, Helena lhe perguntou quantos anos tinha: quinze anos, respondeu. Apesar de morar há cinquenta anos nesta casa da Ilha do Governador, ultimamente acordava de madrugada pedindo para ser levada para sua casa de verdade, no Méier, onde morou quando adolescente. Coloco Quatuor pour la fin du temps, de Olivier Messiaen, e passo a esperar o toque do telefone.*

* O telefone tocou às 11h30.

[Carlito Azevedo, Monodrama]