Não quis ser actor no início. Tenho 60 anos. Sou obrigado a ganhar a vida. Encontro um realizador que me diz “coloca-te à esquerda”. “Não, André, sofre. Não, sofre melhor, meu caro, com intensidade.” No teatro, ao menos todas as noites podemos inventar. No cinema a maior parte dos cineastas não são propriamente génios. Somos obrigados a trabalhar com medíocres. (…) O cinema fez-me ganhar a vida. Fiz pequenos papéis. Poucos papéis principais. Mas não se ganha mal. E o teatro que faço também nunca me permitiu ganhar muito. O “métier” de actor é estranho. Estamos dependentes do desejo dos outros. O outro problema é que somos obrigados a cuidar de nós, há um grande narcisismo. À medida que envelhecemos temos de nos confrontar com o corpo, com a nossa carne, com os dentes que perdemos, é desagradável. Quando filmamos uma cena de amor uma maquilhadora maquilha-nos o cu. É de doidos. É a grandeza e decadência dos actores. Mas há coisas formidáveis. Christopher Walken é um gênio.
[André Wilms, via Malone meurt]
