De alguma forma, de todas as formas, estou bem. Há urgência em mim. Mais do que antes, sinto que preciso fazer alguma coisa de mim. Alguma coisa que eu sempre soube que deveria fazer e, no entanto, não fiz. Sei que ainda é possível e sei como fazer.
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percebo que estou cada vez mais cansado. procuro não fazer quase nada pra que eu me canse menos.
Percebo que estou cada vez mais cansado. Procuro não fazer quase nada pra que eu me canse menos.
Comer sempre foi um sofrimento pra mim, de modo que ultimamente como menos do que antes. Comer menos ajuda.
Falar também é ruim. Eu tento evitar. Se não desse aulas, caso não fosse obrigado a falar, evitaria.
Observo algumas pessoas em roupas pretas e justas se exercitando em via pública. Da última vez em que fiz exercícios num local aberto, as pessoas riram.
Somos todos ridiculamente sozinhos. Alguns disfarçam melhor.
Mais disciplina. Menos seriedade.
É preciso ficar muito tempo em silêncio antes de dizer alguma coisa.
Se eu parar agora eu sei que nunca mais.
Esgotar todas as possibilidades de um impulso.
É a primeira vez. É a última vez. É pra sempre. É assim.
Mais discrição. Menos intensidade.
Antes do fim de qualquer coisa há sempre um grito. Abafar um grito é como prender a respiração. Em algum momento você precisa voltar a respirar.
Não é o frio. É a vida.
No fim, tudo parece se resumir a estar ou não feliz. Entre a felicidade e a não felicidade existe tanta coisa mais importante. Decerto felicidade é algo que nunca me interessou.
Percebo que estou cada vez mais cansado. Procuro não fazer quase nada pra que eu me canse menos.
relações imperceptíveis com pessoas imperceptíveis.
CP: Você se sente célebre e clandestino? Você gosta dessa noção de clandestinidade.
GD: Gosto, mas não me sinto célebre. Não me sinto clandestino. Gostaria de ser imperceptível. Muita gente gostaria. Isso não significa que eu não o seja. Ser imperceptível é bom porque podemos… Mas essas são questões quase pessoais. O que eu quero é fazer meu trabalho, que não me perturbem e não me façam perder tempo. Ao mesmo tempo, ver pessoas. Sou como todo mundo. Gosto das pessoas, de um pequeno número de pessoas. Gosto de vê-las, mas, quando as vejo, não quero que seja um problema. Relações imperceptíveis com pessoas imperceptíveis é o que há de mais bonito no mundo. Todos nós somos moléculas. Uma molécula numa rede, uma rede molecular.
Três irmãs
morrer dá trabalho, e ele era um trabalhador.
Pedi ao médico que me deixasse a sós com meu pai, ou tão a sós quanto era possível em meio à azáfama da sala de emergência. Sentado ali e observando o seu combate para continuar a viver, tentei me concentrar no que o tumor já lhe causara. Isso não era difícil, porque naquela maca ele parecia ter lutado cem assaltos com Joe Luis. Pensei nos horrores que inevitavelmente viriam pela frente, mesmo supondo que ele pudesse ser mantido vivo num pulmão de aço. Vi tudo, tudo, e mesmo assim tive de continuar sentado lá por um longo tempo antes de chegar o mais perto dele que pude e, com os lábios quase tocando seu rosto encovado e arruinado, finalmente encontrar forças para sussurrar: “Papai, vou ter que deixar você ir embora”. Ele já estava inconsciente havia horas e era incapaz de me ouvir, mas, em choque, aturdido, chorando, repeti aquilo muitas e muitas vezes até eu mesmo acreditar no que eu dizia.
Depois disso, só me restou seguir sua maca até o quarto onde o puseram e me sentar ao lado da cama. Morrer dá trabalho, e ele era um trabalhador. Morrer é pavoroso, e papai estava morrendo. Peguei sua mão, que ao menos eu ainda sentia como sendo sua mão, afaguei sua testa, que ao menos ainda parecia ser sua testa, e lhe disse todo o tipo de coisas que ele não podia mais registrar. Por sorte, de tudo que eu lhe disse nessa manhã, nada havia que ele já não soubesse.
[Philip Roth, Patrimônio]
feliz aniversário, amor.
Para Jaq, com carinho
É seu aniversário. Mais um. Ano passado te dei Dorothy Parker. Esse ano fica por minha conta.
Antes de mais nada, fique sabendo que não há mais baganas por aqui. Acabei com todas. É isso aí mesmo: acabei com todas. Pois bem, agora você já sabe (não ria).
É seu aniversário. Mais um. Você está radiante hoje. Eu sei. Você gosta de aniversários. Eu sei. Vinte e cinco anos é uma data determinante. Todos os anos são determinantes quando se sabe o que fazer com eles. Eu não sei se você sempre soube o que fazer com eles, mas sei que, decididamente, você sempre soube o que fazer pra não se arrepender deles.
Sobretudo eu queria te dizer que depois dos vinte e cinco a coisa tende a piorar consideravelmente. Antes é só ruim. Depois é que fica insuportável. Anote aí: depois dos vinte e cinco o melhor que se pode fazer é suportar.
Eu deveria escrever algo edificante aqui, decerto. Algo que te fizesse acreditar ainda mais nas pessoas e nas coisas. É o seu dia. É um dia, dizem por aí, aos gritos, especial. É o dia em que você é levado a comemorar mesmo que tudo mais diga que não há nada pra se comemorar. Enfim. É seu aniversário. Mais um. Ele se repete e vai voltar a se repetir outras vezes. O mais desolador disso tudo não é o ato repetitivo, a banalidade do acontecimento, a sensação intensamente vazia de satisfação. O mais insuportável disso tudo é que ainda não acabou.
Feliz aniversário. Pra valer, viu.

