[Ariane Mnouchkine e o Teatro de Soleil, SescTV, 20h]
Postas da Categoria Tevê
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não nasci com nenhum dom especial, apenas sou bunduda.
Eu acho tão bonito quando a pessoa sabe de que material é feito. Essa resposta aí da Ellen Roche é o equivalente a um curso de filosofia aplicada. Dá pra contar nos cinco dedos de uma mão pessoas próximas a mim com tamanho senso de localização existencial.
Ellen Roche agora é tipo Kierkegaard, gente.
Filmes, peças e livros de fevereiro
Filmes
Caça às bruxas, Dominic Sena (0/5)
It’s kind of a funny story, Anna Boden e Ryan Fleck (2.5/5)
Catfish, Henry Joost e Ariel Schulman (3/5)
Ervas daninhas*, Alain Resnais (5/5)
Filme socialismo, Jean-Luc Godard (5/5)
Histórias de amor duram apenas 90 minutos, Paulo Halm (2/5)
Stella, Sylvie Verheyde (2.5/5)
Badlands, Terrence Malick (4/5)
Days of heaven, Terrence Malick (4/5)
O mundo odeia-me, Ida Lupino (4/5)
Rede de intrigas, Sidney Lumet (5/5)
Quando você viu seu pai pela última vez, Anand Tucker (2/5)
Jack goes boating, Philip Seymour Hoffman (2/5)
O sentido da vida*, Terry Jones (3.5/5)
Breves entrevistas com homens hediondos, John Krasinski (0/5)
O discurso do rei, Tom Hooper (2.5/5)
Blue valentine*, Derek Cianfrance (4/5)
Directed by John Ford, Peter Bogdanovich (3/5)
Ricardo III – um ensaio*, Al Pacino (3/5)
Procedimento operacional padrão*, Errol Morris (2/5)
Bonequinha de luxo*, Blake Edwards (4/5)
127 horas, Danny Boyle (2/5)
O espantalho, Jerry Schatzberg (5/5)
Vengeance, Johnnie To (4/5)
A erva do rato*, Júlio Bressane (3/5)
Peças
Anticlássico, Alessandra Colasanti (3/5)
À meia-noite um solo de sax na minha cabeça, Mário Bortolotto (3/5)
Livros
Diálogos, Gilles Deleuze (4/5)
The zoo story, Edward Albee (5/5)
Cachalote, Daniel Galera e Rafael Coutinho (3/5)
* Revistos/relidos
Naturalismo/vaudeville/histrionismo
Dizem que na tevê brasileira as novelas, as minisséries, os programas de auditório e quetais são naturalistas. Isso quer dizer, penso, que há um estilo verista de interpretação (apresentação), do tipo que mimetiza a vida como ela é. Posso rir? Não há naturalismo na tevê. Minto: quando erram, ao vivo, há (às vezes, às vezes). Do contrário é vaudeville (vaudeville da pior qualidade, que fique claro).
Digo isso apoiado em fatos. Digo isso porque assisto tevê. Digo isso porque fico cada vez mais triste com a tevê. Digo isso, sobretudo, porque acompanho novelas (randomicamente), nas mais variadas emissoras, e porque ao acompanhá-las, e se deter nos atores, noto, entristecidamente, que o histrionismo venceu.
Não há acústica capaz de amortecer os gritos dos atores. Não existem babadores para tantas lágrimas. Estão em busca do “sentimento verdadeiro”, dizem, e daí vale tudo: o exagero é consequência, o grito verdade e o choro evidência.
Enganam-se, enganam a nós, pobres mortais, presos a uma só vida. Os atores da tevê podem ser muitos, viver várias vidas. Nós, por outro lado, temos apenas uma. E monótona. Tediosa. Repleta de tempos mortos. Mas real. Plena de naturalismo e desesperança, digamos.
Semana passada, por razões ainda ocultas até mesmo para mim, acompanhei todos os capítulos de Insensato Coração. Não me julguem. Já me sinto culpado. Embora tenha algo em minha defesa: queria verificar, empiricamente, os rumores a respeito do personagem de Lázaro Ramos. Estarrecido, ao final do capítulo, entendi os rumores. Verti duas lágrimas breves e calei-me.
O público tem razão. Lázaro foi cooptado pela tevê. De ator visceral a galã negro global e pegador de ocasião. E o problema não reside em termos um negro pegador e bem-sucedido na novela das oito, nada disso. Isso é bom, na verdade (subverte o padrão). O que acontece é que o personagem de Lázaro “não convence”. E isso não tem nada a ver com ele ser negro e galã e pegador e bem-sucedido. Há personagens que cabem e personagens que não cabem. Atores não aceitam esse truísmo. Preparadores de elenco (sim, eles existem) repudiam essa verdade inequívoca.
Nem todos os atores são talhados para esse ou aquele personagem. Lázaro poderia usar o estereótipo a seu favor, e fazer de um personagem tipificado um ser de tintas mais precisas, humanas. Mas ele escolheu adequar-se ao papel que lhe foi encomendado, pois.
E se alguém ainda insistir em repetir que a tevê brasileira é naturalista, realista, “fátimatolediana”, exija provas. A única escola naturalista atualmente tem sede na Romênia. Ao invés de atores e diretores solicitarem a dama do cachorrinho, deveriam fazer um intensivo de cinema romeno, e compreender de uma vez por todas que naturalismo nada tem a ver com pedir um café sem demonstrar que está pedindo um café.
LFC ou Afinal, o que querem as mulheres?
LFC eu conheci ainda garoto, nas novelas da Globo. Rei do Gado eu lembro de ter assistido de ponta a ponta. Mas aí LFC deixou as novelas de lado e foi tratar de coisas mais sérias. Fez Os Maias, Hoje é Dia de Maria, A Pedra do Reino e Capitu. Isso só na tevê e se formos aqui traçar uma linha de relevância (há coisas e coisas que ele fez para a tevê e outros meios e que eu nem imaginava antes de fazer uma busca). Vi todas as suas minisséries ou microsséries, e posso assegurar que não há na tevê ninguém mais interessante. No cinema ele fez Lavoura Arcaica (adaptado do livro do Raduan), e então eu acabei me apaixonando (isso, ria à vontade). Sei que há excessos no filme, mas seu barroquismo alegado é intrínseco à maneira LFC. Ademais é claro que adaptar Raduan é ato masoquista, mas se existia alguém apto por aqui a adaptá-lo esse alguém era (ainda é) LFC. E eu, se colocado contra a parede e questionado, afirmo, sem titubear: Lavoura Arcaica é um dos dez melhores filmes brasileiros dessa década. E ponto final, ok. Ponto final.
E daí que a razão de eu rascunhar algumas linhas aqui acerca de LFC é por conta da nova microssérie (apenas 6 episódios) que estreia hoje, na Globo. Afinal, o que querem as mulheres? é declaradamente metalinguístico e pop e algo mais palatável ao gosto médio dos telespectadores habituais da tevê do que as investidas anteriores e fracassadas de LFC no que tange à audiência, não à estética.
E no mais há Rodrigo Santoro fazendo Rodrigo Santoro, o que por si só pede a nossa adesão inequívoca. E ao que tudo indica Paola Oliveira fará uma personagem mesmo e não a Paola Oliveira, a celebridade que dança. E há um ator/escritor de teatro, Michel Melamed, que também fez Capitu, e que é um grande ator mesmo, e que LFC incorporou definitivamente à sua trupe.
No que diz respeito à dramaturgia LFC está bem assessorado: Cuenca, Giannetti e Melamed. Então faz o seguinte: hoje, depois de Passione, depois de A Grande Família, depois de Clandestinos (desligue a tevê nesse ínterim, feche os olhos e descanse; Clandestinos é uma fusão entre Malhação e Ídolos para um nicho bem específico: atores que procuram o teatro como escada para a tevê, aquele tipo bem conhecido nosso, que é capaz de chorar em 15 segundos e rir em 3, afinal um ator de verdade tem o controle total dos seus sentimentos, né), por volta das 23h30, fique próximo à caixa preta e não se arrependerás!




