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O inacabamento deve encontrar uma parte de sua realidade na dolorosa dificuldade de concluir, de acabar ( d’en finir). Com o fim de um texto, é uma dimensão de si que morre: a energia que animava a escritura desaparece com seu fim. Como explicar de outra forma o que preside às ficções de Chantal Akerman, cuja vontade de fragmentação em Toute une nuit deve – ainda por cima – identificar-se a um sonho noturno cuja idéia de acabar esta não suportava conceber? Chantal concebe acabamentos provisórios, embora coerentes em si mesmos, e desvia assim a facilidade metonímica da narrativa cinematográfica clássica. O inacabado é assim o fator de invenção de uma outra tática de aproximação do real, tática (démarche) poética que, mostrando as passarelas invisíveis, encadeando os múltiplos acidentes no seio da vida dos personagens que se desconhecem, propõe uma visão do mundo menos fragmentária do que as aparências permitiriam supor. É bem o inacabamento ficcional destes acidentes que permite em definitivo a possibilidade de interferências entre os fragmentos da narrativa. O Rendez-vous d’Anna não era já – num nível dramático mais do que formal – uma tentativa de mise en scène serial dos elementos da vida de uma personagem cujos múltiplos encontros remetiam sempre a uma fundamental decepção?

[Dominique Païni. Le cinéma, un art moderne, 1997. Tradução de Luiz Soares Júnior]

Ensaio é imaginação. Se existe alguma informação num ensaio é sempre algo corriqueiro, e, se contém opiniões, não serão necessariamente confiáveis a longo prazo. Um verdadeiro ensaio não serve a propósitos educativos, polêmicos ou sociopolíticos: é o movimento de uma mente livre quando brinca. Embora escrito em prosa, está mais próximo da poesia do que qualquer outro gênero. Como um poema, um verdadeiro ensaio se faz com linguagem, personagem, atmosfera, temperamento, garra e acasos.

[Cynthia Ozick, Serrote #9]

Chamarei literalmente de dispositivo qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes. (…) Na raiz de todo dispositivo está, deste modo, um desejo demasiadamente humano de felicidade, e a captura e a subjetivação deste desejo, numa esfera separada, constituem a potência específica do dispositivo. (…) Aqui se mostra a futilidade daqueles discursos bem intencionados sobre a tecnologia, que afirmam que o problema dos dispositivos se reduz àquele de seu uso correto. Esses discursos parecem ignorar que, se a todo dispositivo corresponde um determinado processo de subjetivação (ou, neste caso, de dessubjetivação), é totalmente impossível que o sujeito do dispositivo o use de “modo correto”. Aqueles que têm discursos similares são, de resto, o resultado do dispositivo midiático no qual estão capturados. 

[Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo? e outros ensaios]

- Tenho a sensação de que Cueto está sempre dizendo que as coisas que parecem diferentes na verdade são a mesma coisa, enquanto eu estou interessado em demonstrar que as coisas que parecem a mesma coisa na verdade são diferentes. Vou ensiná-los a ver as diferenças. Está vendo? – disse. – Isto é um pato, mas se você olha assim, é um coelho. – Desenhou a silhueta do pato-coelho. – O que significa ver uma coisa tal como ela é: não é fácil. – Olhou para o desenho que fizera na toalha. – Um coelho e um pato. 

Tudo corresponde ao que sabemos antes de ver – Renzi não entendia em que direção o comissário queria apontar. – Vemos as coisas de acordo com nossa interpretação. Chamamos isso de previsão: saber antecipadamente, estar previnidos.* No campo, a pessoa segue o rastro de um bezerro, vê as pegadas na terra seca, sabe que o bicho está cansado porque as marcas são leves e se orienta porque os passáros pousam para bicar o rastro.  Não pode sair procurando pistas ao acaso, o rastreador deve primeiro saber o que está perseguindo: homem, cachorro, onça. E depois ver. Eu faço exatamente isso. É preciso ter uma base e em seguida é preciso inferir e deduzir. Então – concluiu – a pessoa vê o que sabe e não consegue ver se não sabe… Descobrir é ver de outro modo o que ninguém percebeu. A questão é essa.

* Suponhamos que eu mostre esta figura a alguém, dizia Croce. A pessoa diz: “É um pato”, e em seguida, de repente: “Não, não, é um coelho”. De modo que reconhece a figura como um coelho. É uma experiência de reconhecimento. O mesmo acontece se alguém me vê na rua e diz: “Ah, é o Croce”. Mas nem sempre temos uma experiência de reconhecimento. A experiência se dá no momento de mudar de pato para coelho e vice-versa. Chamo esse método de ver-como, e seu objetivo é trocar o aspecto sob o qual se veem certas coisas. Esse ver-como não faz parte da percepção. Por um lado, é como ver e também não é como ver.

[Ricardo Piglia, Alvo noturno]

Assisti Meia-noite em Paris (4/5) ao lado de duas senhoras praticamente cegas, que mascavam pipoca (imagine alguém mascando fumo) e faziam a sucção dos seus refrigerantes intermináveis. Perceba: eu fiquei entre as duas (não ria). As duas trocavam impressões num tom elevado (eufemisticamente falando, porque na verdade elas eram evidentemente surdas) durante o correr do filme (todo ele). Findo o filme, ainda mascando pipoca, ambas tinham comentários a fazer.

“Eu não entendi nada. Não gostei, não.”

“Eu entendi tudo, mas não gostei de nada.”

É mais ou menos assim que se divide o público dos filmes do Woody. Quando entendem, não gostam. Quando não entendem, gostam menos. Quando entendem e, aparentemente, gostam, dizem que ele se repete, que o bom Woody pertence ao passado.

Esse filme é uma resposta para essas pessoas. O passado só é bom quando não estamos nele, porque do contrário ele é o presente, e o presente é sempre ruim e tedioso. O presente nos lembra do que somos feitos. Nos lembra que fracassamos, que estamos fracassando miseravelmente.

Portanto: não digam que o melhor Woody pertence ao passado. Voltem aos filmes e notem o seguinte: eles não são necessariamente melhores, ou piores do que os da nova safra (isso só fará sentido se você realmente, verdadeiramente, sentou para ver a filmografia completa; eu duvido muito). São filmes do Woody, simplesmente. Pequenas e vibrantes variações. Todos os seus filmes se parecem porque ele habita um mundo particular. O seu mundo, pois. Há uma assinatura em cada um dos seus filmes. Os imbecis, apressados, não notam essa assinatura. Os tolos fazem comparações. Os idiotas insistem: mais do mesmo. E há ainda os outros, que preferem nem ver. Eles sempre dizem: “Eu pulo esse novo Woody; talvez numa próxima vez”.

Espero que não haja uma próxima vez. Espero que vocês continuem vendo os filmes de sempre. Há tempos eu cansei de convencer os demais do quanto Woody é singular e agudo. Do quanto é trágico e cômico, por vezes numa única frase, situação. Expliquei, em diversas ocasiões, a depuração elíptica dos seus roteiros. De nada adiantou. As pessoas riem. De mim, claro. Elas acham engraçado minha devoção e fé no homenzinho de tweed. Eu tendo a recorrer, em meu socorro,  a uma resposta do Auden. O entrevistador pergunta ao Auden se no início dos anos 30 ele escrevia para certos leitores, a fim de dar uma chacoalhada neles. Auden, como sempre, é espirituoso:

Não, apenas tento me expressar e espero que alguém vá ler o que escrevo. Me perguntam: “Para quem o senhor escreve?”. Respondo: “Você é meu leitor?”. Se dizem que sim, emendo: “E gosta do que escrevo?”. Se respondem que não, então digo: “Não escrevo para leitores como você”.

E dessa mesma maneira passei a responder aos que não conseguem ver nada nos filmes do Woody. Certamente ele não faz filmes para você, meu caro.

Daqui a alguns anos esses filmes tidos como “menores” serão “maiores”. Daqui a alguns anos não teremos mais os filmes do Woody, nem suas trilhas, nem suas idiossincrasias, nem sua melancolia, nem o seu mundo inimitável e titubeante e mágico. Decerto o cinema será mais triste. Indubitavelmente eu também serei. Mas: terei os filmes. Terei o passado. A nostalgia é um mal necessário para podermos seguir em frente.

Para mim, o maior mistério da ciência ainda é que um homem possa ser pai de seis filhos que não compartilham absolutamente nenhum de seus interesses. Certamente expressávamos entusiasmo pelos passatempos da mamãe, do fumo e do cochilo aos escritos de Sydney Sheldon. (Pergunte à minha mãe como funciona o rádio e a resposta será simples: “Ligue e puxe a droga da antena”.) Uma vez visitei o escritório do meu pai e saí de lá reconfortado por descobrir que, ao menos por ali, ele tinha uns poucos com quem conversar.

[David Sedaris, Eu falar bonito um dia]