Posts marcados Antunes Filho

Pode-se conjecturar que Balaio seja uma resposta performática à convenção dramática de Prêt-à-porter. Pode-se, facilmente, verificar pontos de aproximação entre um e outro (escassez de mobiliário, luz difusa, três cenas breves, pares de atores, à exceção de um trio, autoria e direção das propostas etc.). A aproximação, porém, fica restrita a esse sistema formal. A cena, o processo e o resultado não poderiam ser mais distintos e contrários.

Toda e qualquer performance não se propõe a traçar uma linha, um percurso. Toda e qualquer performance (que interessa) existe e instaura um estado de desterritorialização (instabilidade) e mobilidade (deslocamento). Todo idiota que não sabe o que fazer faz performances (explico: aquilo que o idiota acredita ser uma performance, e que na maior parte do tempo não passa de um idiota sendo idiota). Não há um conceito fechado (nunca em arte) e acabado (pontos de fuga) do que seria uma performance e do que não seria uma performance. O que existe são traços, marcas e signos comuns a uma performance. Dito isso, arrisco um conceito, uma impressão. Performance é tempo e espaço. Minto. Performance é tempo, espaço e gestus. Utilizar-se das outras artes (sobretudo a visual) não define o caráter performático de nada. Repito: performance é tempo e espaço e gestus.

O que fica claro já de início em Balaio é que temos atores em cena. Atores servindo-se de aspectos biográficos, ou não. Atores claramente dotados de técnica e algum talento. Atores estes que têm muito pouco, ou nada a dizer. Em silêncio ou em movimento, nada a dizer.

Hemingway tem uma definição muito sóbria e precisa sobre o caráter dos contos, suas particularidades (parafraseio): Os contos são gerados pela sua própria mudança e o seu próprio movimento, e que mesmo quando um conto parece estático e você não consegue discernir qualquer movimento nele, ele provavelmente está mudando e se movendo mesmo assim, só que sem você ver.

Essa impressão de Hemingway cabe perfeitamente à vida, essa coisa informe e muitas vezes silenciosa. Há movimento mesmo que você não note. Balaio talvez se movimente, se mova. Ainda assim é um movimento circular e represado.

* Balaio faz parte da programação da Virada Cultural.

Sábado último eu sentei numa daquelas poltroninhas (cadeira de pedra; toco de árvore; pense em algo desconfortável) do CCSP pra ver e ouvir, novamente, o titio Antunes abolir a coerência silogística em troca de epifanias aforismáticas, uma seguida da outra, isso pra provar pra gente que se você tem algo a dizer você tem algo a dizer e diz.

“A personagem existe a posteriori, não a priori.”

A maioria dos cursos de teatro não diz isso aos alunos. A maioria dos professores não diz isso aos seus alunos. A maioria dos professores não sabe o que é isso. Livros poderiam ser escritos em torno disso. Cursos de formação de ator valem menos do que esse conceito. A última vez, recordo-me vivamente, que alguém me disse que essa personagem era isso ou aquilo, e por isso deveria ser isso ou aquilo, desse jeito e não daquele outro, e que a gênese e tal apontava para, eu peidei. Peidei legal mesmo. E disse assim: “Eu peidei. Tá fedido”.

“O ator que usa a projeção é um vampiro de ar (…) ele come a última sílaba da palavra, puxa ar e continua dando o texto.”

Poucas vezes eu gargalhei tanto e tão sonoramente.

“O que interessa ao ator é a sensação do sentimento (a superfície), não o sentimento em estado puro, porque se ele entrar no sentimento pra valer ele se afoga.”

Eu já falei que é preciso técnica, né. Falei.

“Ator que sente (faz cara de ator sentindo) tudo não sente é nada.”

“O ator está sempre à beira do abismo (…) o ator pode ser atropelado a qualquer momento, esse é o estado do ator (…) se o ator não estiver arriscando tudo lá ele não está lá.”

“Eu vou no meu limite. É assim que tem de ser.”

                                                                                                                                                                     Foto: Luiz Päetow

1. Rebú

2. O ovo e a Galinha

3. Corte Seco

4. In On It

5. O Ruído Branco da Palavra Noite

6. Side Man

7. Policarpo Quaresma

8. Abracadabra

9. Escuro*

10. Anatomia Frozen*

11. Música para Ninar Dinossauros

Montagens superestimadas: Macbeth; Kastelo; Cinema.

Dramaturgia austera e algo rarefeita, mas sem o peso que acredita ter: H.A.M.L.E.T.

Grandes atores em montagens (e dramaturgias) sofríveis: Simplesmente Eu, Clarice Lispector; Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar; A Grande Volta.

Pois é: há outro punhado de montagens que não figuram em parte alguma (fora as que eu esqueci). E eu até queria ressaltar a importância da adaptação do vovô Dostoiévski (O Idiota – Uma novela teatral) para o palco, mas só tive força e coragem para enfrentar a terceira e última parte, que é bem agradável, decerto.

* Lista do segundo semestre de 2009; lista do primeiro semestre de 2010 (reestréias)

P.S.: Não há ordem classificatória nessa ou nas demais listas, ok? Ok.