Posts marcados atores

Filmes

Paper man, Kieran Mulroney Michele Mulroney (2/5)

Another year, Mike Leigh (4/5)

The sunset limited, Tommy Lee Jones (2/5)

A loja da esquina, Ernest Lubitsch (5/5)

Barfly*, Barbet Schroeder (4/5)

Reencontrando a felicidade, John Cameron Mitchell (2/5)

Bellamy, Claude Chabrol (2.5/5)

A casa do diabo, Ti West (3.5/5)

O último tango em Paris*, Bernardo Bertolucci (5/5)

Noites brancas*, Luchino Visconti (4/5)

Esboços de Frank Gehry, Sydney Pollack (3/5)

Como você sabe, James L. Brooks (3/5)

Tuesday, after Christmas, Radu Muntean (4/5)

A lula e a baleia*, Noah Baumbach (5/5)

Essential killing, Jerzy Skolimowski (4/5)

O sonho de Cassandra*, Woody Allen (3.5/5)

Rota de colisão, Stuart Gordon (2.5/5)

Gata em teto de zinco quente, Richard Brooks (4/5)

Mãe e filho*, Aleksandr Sokúrov (4/5)

Conto de inverno, Eric Rohmer (4/5)

Notre jour viendra, Romain Gavras (3/5)

Andarilhos, Cao Guimarães (3/5)

Peças

Devassa, Nehle Franke (2.5/5)

Antes da coisa toda começar, Paulo de Moraes (2.5/5)

Pterodátilos, Felipe Hirsch (3.5/5)

Peças, Luiz Päetow (5/5)

Ex-máquinas**, Luiz Päetow (SA)

Lixo e purpurina, Chico Ribas (0/5)

Savana Glacial, Renato Carrera (3/5)

Livros

Eu falar bonito um dia, David Sedaris (3.5/5)

Invisível, Paul Auster (2.5/5)

Tempo passado (cultura da memória e guinada subjetiva), Beatriz Sarlo (4/5)

Pigmaleão, George Bernard Shaw (4/5)

Fama e anonimato, Gay Talese (5/5)

* Revistos/relidos

** Sem avaliação (isso não quer dizer que a coisa seja ruim; nem de longe)

Um Lugar Qualquer (4/5) é uma variação de Encontros e Desencontros. Antes do filme, uma rápida digressão: depois de emprestar Encontros e Desencontros a um amigo  (há cerca de 5 anos), e de ter recomendado a ele o filme com certa ânsia infantil (é lindo, cara!), aguardando aflitivamente que ele assistisse ao filme e, assim como eu, achasse ao menos um belo filme acerca do que não sabemos de nós e nunca, talvez, saberemos, eis que ele (o amigo) retorna do mesmo jeito que recebeu o filme. Tudo o que um amigo espera de outro amigo ao emprestar algo que o tocou sobremaneira é que esse amigo tenha o mínimo de cuidado ao comentar, afinal você compartilhou com esse sujeito algo íntimo.

- É bonitinho, viu.

Ele disse isso sem sorrir. Subjetividades particulares, claro. Eu vejo as coisas à minha maneira e ele vê à maneira dele, ok, tudo certo, sem problema. Minto. Tem um problema, sim. Quando você compartilha algo com alguém (insisto nisso: compartilhar coisas que para você fazem todo o sentido é como dizer que essa pessoa é importante e merece aquilo) você espera algo em troca. Você espera uma reação. Uma reação parecida com a que você teve quando viu o filme (um ato egoísta, admito). Você sente inveja porque o seu amigo está vendo aquilo pela primeira vez, e você gostaria de ter essa mesma oportunidade. Então é natural que ao rever seu amigo pós-filme você espere detalhes, impressões, elogios diversos aos atores, à trilha, aos planos, à historia, enfim, você espera que seu amigo, um dos únicos que você ainda é capaz de chamar de amigo, seja um tipo de interlocutor à altura das suas expectativas. Mas ele não é. Suas expectativas nele, e não no filme, são excessivas. E tudo que resta a dizer ao seu amigo, em resposta ao é bonitinho, viu é algo como sim, é bonitinho, né.

Um Lugar Qualquer é a história de um ator sem biografia, digamos. De um ator que tem uma filha e que tem uma ex-mulher e que não sabe muito bem quem é, o que será ou o que foi até agora. Os idiotas dirão que se trata de uma repetição, de um Encontros e Desencontros 2. É o que dizem quando Woody aparece em cartaz. Variação é diferente de repetição, obsessão monotemática é diferente de emulação.

Ao propor o plano inicial Sofia diz a que veio. É um filme circular, rarefeito, letárgico, contemplativo. Georges Braque afirma que jamais soube distinguir um começo de um fim. Sofia, filme a filme, reafirma a posição de Braque.

Machete (3.5/5) saciou a todos meus instintos assassinos, sexuais, escatológicos, bestiais, adolescentes, e ademais provocou a catarse devida, aguardada e alimentada há tempos. Danny Trejo finalmente tem um papel de destaque, e é a primeira vez que  o elenco de apoio num filme de Rodriguez acerta o tom. O fato é que Machete tem os melhores bordões do ano, nunca é politicamente correto, e se antes Rodriguez parecia o único a se divertir, agora ele resolveu compartilhar.

Cure (4.5/5)

Quando menor, tentava hipnotizar pequenos insetos; tinha receio de aplicar hipnose a cachorros ou gatos. Já crescido, tentei auto-hipnose (pensava que dessa maneira poderia reconfigurar meus estados de ânimo). Nos dois casos, sem sucesso. Todavia Kiyoshi Kurosawa reavivou meu interesse. Não por auto-hipnose (passo por fase agradável agora) ou mesmo hipnose, mas pela metáfora. Kurosawa faz um filme policial que é na verdade um ensaio acerca do que somos. Ao falar de fenômenos de indução e assassinato está a repetir a pergunta essencial: o que é um homem?

Sem resposta, sem resposta. Mas Kurosawa arrisca: um homem é aquele que age. Sem sentido, sem sentido, mas que age.

Algum Lugar Entre Aqui e Agora (1.5/5)

É algo a meio caminho entre Cassavetes (perdoe-me Cassavetes), os irmãos Safdie (perdoem-me irmãos Safdie) e todos os filmes espertinhos do verão norte-americano (perdoem-me os filmes espertinhos do verão norte-americano).

A câmera em busca da imagem “verdadeira”. E a história, Lucas, e a história? A história é a história de todos os filmes indie com rótulo indie. Estamos perdidos. O que faremos? Ainda é possível nos relacionarmos?

Soma-se a isso a incapacidade dos atores de dizer os diálogos sem parecer que estão dizendo os diálogos.

Há algo de precário nesse novo trabalho da Companhia Brasileira de Teatro. Precário no sentido de humano. Como havia também em O que eu gostaria de dizer, da mesma companhia. E dizer precário ou humano é generalizar demais. Mas explico. Há peças bem acabadas dramaturgicamente e cenograficamente e musicalmente e que não dizem nada. Você as vê como vê uma campanha publicitária anunciando o dia do otário feliz. Não há sequer otário nessas campanhas (peças) porque a idéia de fracasso (otário) não vende lá muito bem. Não existe o elemento essencial que é o humano. E o humano é um projeto precário e inacabado, isso é fato. E é fato também que a matéria de Vida é essa  precariedade. Mas divago.

Vida (4/5) é uma colagem. Não dos textos de Leminski (referência mais temática que textual), não da vida dos atores (embora aconteça), não de uma vida em particular, mas do que pode ser a vida, a existência, a essência, e coisas assim, sérias. Embora a peça seja de uma leveza e fluência das mais agradáveis. A impressão inicial é que eles estão criando as situações todas de improviso. A impressão posterior é que o improviso ali é uma construção da procura. Da procura de uma dicção, de uma história, de um encontro, de uma vida.

Marcio Abreu instaura um tempo tão particular, rarefeito, próprio da vida, que as personagens em dado momento nos parecem próximas. Não há um início ou um desfecho propriamente, mas histórias. É um ensaio contínuo sem depois. O enredo como pretexto tão-somente. A apresentação como anticlímax.

Poucas montagens nos dizem tanto com tão pouco.

É o segundo filme de Lanthimos (4/5). O primeiro que vejo. Ganhou aqui e ali prêmios importantes. Foi comparado a Haneke, Wes Anderson, Scorsese, Woody Allen. Brinco, obviamente. Mas não sobre os primeiros (Haneke e Wes Anderson). Li algures que era um ambiente hanekiano alimentado por personagens de Anderson. Não ria; falo sério.

Lanthimos também. Lembram-se de Kaspar Hauser? Pois é. É como se tivéssemos uma família Kaspar Hauser encarcerada numa casa burguesa com pais macho alfa e que só querem “salvaguardar” a vida de suas pequenas crias. Os pais sabem que há vida lá fora. Os filhos sequer sabem o que é vida. Entre eles há a linguagem, a construção dela e seus significados. Mais do que um filme acerca da neurose contemporânea por segurança em detrimento da liberdade, temos a linguagem. É ela que nomeia, dá sentido, cerceia e ao mesmo tempo alimenta questões. Afirmo: é um filme sobre a construção da linguagem, da identidade da linguagem e dos valores a ela associados. Mais: é um filme que vai apanhar muito quando entrar no circuito. Não prestem atenção ao barulho. Lanthimos tem algo a dizer. Ter algo a dizer, ultimamente, não é pouco.

Insisto em ver programas na tevê aberta. Aos domingos. Isso quer dizer que ando perdendo parte considerável da minha sensibilidade e discernimento do mundo que nos rodeia (vovô adorava dizer o mundo que nos rodeia antes de explanar acerca do sentido da vida). Ainda há pouco, vendo Entrelinhas, na Cultura, a apresentadora algo loirinha e articulada e irritante (e atriz; e versátil; e loira) indagava atores.

Qual a relação dos atores com a literatura. Qual o sentido desta na vida destes. No geral,  digamos que as respostas iam da boçalidade à banalidade, o que necessariamente não atenta contra a nossa saúde mental já habituada com a superficialidade presente em programas desse tipo. Mas aí algo inusitado acontece. Os atores questionados (atores de proeminência e currículo uspiano) dizem que, bem, ah, sabe, é meio difícil ler uma peça de maneira solitária. E que a peça só tem vida quando lida em grupo ou encenada (atentar para o fato de que uma das atrizes disse que uma peça tem de ser lida em voz alta). E que uma peça é tal qual um roteiro cinematográfico, e por isso um rascunho daquilo que terá corpo e sentido no palco, e que por mais que Shakespeare ou Tchecov tenham algo a dizer, textualmente uma peça não se sustenta como literatura. E um deles (dos atores, dos atores) ainda fez questão de ressaltar que não lia qualquer livro não, que é isso!, nada disso, apenas livros que tinham relação direta com a vida do próprio, afinal livros têm de falar apenas de coisas passíveis no meu mundo, sabe.

Sei não. Sei não.