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Filmes

Boxing gym, Frederick Wiseman (4/5)

The invention of lying, Ricky Gervais (3/5)

Peixe grande*, Tim Burton (3.5/5)

Public speaking, Martin Scorsese (3/5)

Cemetery junction, Ricky Gervais (2.5/5)

Inside job, Charles Ferguson (2.5/5)

Two-lane blacktop, Monte Hellman (5/5)

Freakonomics, Heidi Ewing (1/5)

Old joy, Kelly Reichardt (4.5/5)

Tokyo, Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho (3.5/5)

Hobo with a shotgun, Jason Eisener (3/5)

A suprema felicidade, Arnaldo Jabor (1.5/5)

Attenberg, Athina Rachel Tsangari (3.5/5)

A falta que me faz, Marília Rocha (4/5)

Cildo, Gustavo Moura (3/5)

O veredito, Sidney Lumet (5/5)

Peças

estudohamlet.com, Cacá Carvalho (1/5)

A lua vem da Ásia, Moacir Chaves (3/5)

A casa amarela, Gero Camilo (3/5)

Fragmentos de O jardim**, Leonardo Moreira (SA)

Livros

Como funciona a ficção, James Wood (4/5)

Notas sobre o cinematógrafo*, Robert Bresson (3/5)

De veludo cotelê e jeans, David Sedaris (3/5)

Ravelstein, Saul Bellow (5/5)

* Revistos/relidos

** Sem avaliação

Filmes

Paper man, Kieran Mulroney Michele Mulroney (2/5)

Another year, Mike Leigh (4/5)

The sunset limited, Tommy Lee Jones (2/5)

A loja da esquina, Ernest Lubitsch (5/5)

Barfly*, Barbet Schroeder (4/5)

Reencontrando a felicidade, John Cameron Mitchell (2/5)

Bellamy, Claude Chabrol (2.5/5)

A casa do diabo, Ti West (3.5/5)

O último tango em Paris*, Bernardo Bertolucci (5/5)

Noites brancas*, Luchino Visconti (4/5)

Esboços de Frank Gehry, Sydney Pollack (3/5)

Como você sabe, James L. Brooks (3/5)

Tuesday, after Christmas, Radu Muntean (4/5)

A lula e a baleia*, Noah Baumbach (5/5)

Essential killing, Jerzy Skolimowski (4/5)

O sonho de Cassandra*, Woody Allen (3.5/5)

Rota de colisão, Stuart Gordon (2.5/5)

Gata em teto de zinco quente, Richard Brooks (4/5)

Mãe e filho*, Aleksandr Sokúrov (4/5)

Conto de inverno, Eric Rohmer (4/5)

Notre jour viendra, Romain Gavras (3/5)

Andarilhos, Cao Guimarães (3/5)

Peças

Devassa, Nehle Franke (2.5/5)

Antes da coisa toda começar, Paulo de Moraes (2.5/5)

Pterodátilos, Felipe Hirsch (3.5/5)

Peças, Luiz Päetow (5/5)

Ex-máquinas**, Luiz Päetow (SA)

Lixo e purpurina, Chico Ribas (0/5)

Savana Glacial, Renato Carrera (3/5)

Livros

Eu falar bonito um dia, David Sedaris (3.5/5)

Invisível, Paul Auster (2.5/5)

Tempo passado (cultura da memória e guinada subjetiva), Beatriz Sarlo (4/5)

Pigmaleão, George Bernard Shaw (4/5)

Fama e anonimato, Gay Talese (5/5)

* Revistos/relidos

** Sem avaliação (isso não quer dizer que a coisa seja ruim; nem de longe)

|No quarto da Vanda| Durante as filmagens de Ossos, Vanda não queria falar, ela se recusava a dizer os diálogos que eu tinha escrito. Ela não estava concentrada da maneira que é preciso estar em uma filmagem clássica. Não é esse o tipo de concentração que eu quero hoje em uma filmagem, mas na gravação de Ossos, essa atitude me parecia assustadora. Em vez de dizer “bom dia”, ela dizia “boa noite”. Ao invés de rir, ela chorava. Em vez de entrar em um ambiente, ela não entrava. Ela fazia muitas perguntas e não tinha vontade de dizer a frase certa no momento solicitado. Não era nem que ela achasse o roteiro bobo, ela simplesmente não tinha vontade. Ela dizia: “como não sou atriz, não posso mentir”. Então, era um problema para mim e para a equipe. Eu sempre tive problemas em forçar as pessoas a fazerem o que elas não querem. Contaram-me que um dia Rossellini teve uma crise de riso enquanto dirigia uma cena de um de seus últimos clássicos – tipo Viagem à Itália – em que dois atores deveriam dizer “eu te amo”, ele teve esse acesso louco de riso. É preciso ser muito forte e, no fundo, um pouco idiota, como dizia Truffaut, para acreditar em tudo isso. Eu não posso fazer oito semanas de “eu te amo, eu não te amo”. Ossos tinha a ver com isso. Desses problemas, dessa confrontação com Vanda, nasceu No quarto da Vanda.

(Comentário de Pedro Costa)

Qualquer diletante conhece a teoria do iceberg de Hemingway. Aprendi a teoria quando tinha exatos sete anos. Papai veio me visitar, trouxe presentes, beijou-me a testa e disse: O essencial deve ficar escondido. Achei a frase estranha à época. Ainda hoje acho que a citação estava fora de contexto, mas papai sempre foi assim.

Pois então: leio com a devida cautela Conversas entre Escritores (entrevistas da Believer). E lá reencontro papai. Reencontro Hemingway. Reencontro o iceberg. Diria que reencontro a infância, mas não quero soar nostálgico.

Como qualquer diletante, sei do que trata a teoria do iceberg aplicada ao conto. Sei que o essencial fica escamoteado enquanto vemos apenas a superfície. Embora nunca tivesse lido ipsis litteris a formulação de Hemingway. Li há pouco. Ei-la:

Era uma história muito simples chamada Fora da Estação e eu omiti o verdadeiro final dela, em que o velho se enforcava. Isso foi omitido baseado na minha nova teoria de que você poderia excluir qualquer coisa desde que saiba o que está deixando de fora e a parte omitida fortaleceria a história e faria as pessoas perceberem algo além daquilo que entenderam.

Anotei no moleskini e voltei ao velho beberrão. Hemingway era batuta mesmo, hein.

Li as críticas. Impressas e virtuais. Uma vergonha, dizia uma delas. Um fracasso total, dizia uma outra. Quando não atacavam diretamente o autor, ficavam nas preliminares. Adjetivos e mais adjetivos. Li o romance (novela) praticamente duas vezes. Procurei os defeitos, o fracasso, a vergonha. Não estão lá (a não ser que tomemos o personagem como exemplo).

Philip Roth mantém a excelência de sempre (isso até soa redundante). E se a densidade de Homem Comum ou os desdobramentos de Indignação (para ficarmos nos mais recentes) não fazem parte de A humilhação, é mais uma escolha do que uma incapacidade do autor.

Explico: Simon Axler é um ator respeitado, e sua biografia o coloca entre os maiores intérpretes de sua geração. Contudo, como num passe de mágica, perde a capacidade de atuar. Isso mesmo: o talento morreu. Ou: o talento nunca existiu.

Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia se comunicar com a platéia. Seu talento havia morrido.

Esse é o primeiro parágrafo. E, como num conto convencional, o início é uma isca (o livro é dividido em três partes, como os três sinais característicos antes do início de uma peça; como os três atos de outra). O que teria acontecido a Simom Axler? Quem é Simom Axler na verdade? Diante dessas indagações, Roth continua a dissecar a velhice sem complacência ou afago, mas vai além.

Nada é duradouro o bastante para nos fazer feliz e a qualquer momento podemos perder tudo. Não se engane, diz Roth: substituições não substituem nada, e quando alguma coisa acaba ela acaba, e só.

A onipotência do acaso, dirá Simon Axler adiante, como se tentasse explicar a si mesmo a razão dos pesares recentes. Poderia dizer, num exercício pobre de síntese, que A humilhação é a resposta ao mal-estar de existir. De existir sem certezas. O acaso é Deus. Daí o desespero, a angústia e o desamparo de Axler. Se nem mesmo o talento e a biografia  (as marcas que dizem quem fomos e somos) são construções sólidas, o que nos resta?

A humilhação. A humilhação de estar vivo.