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Há três qualidades em Savana glacial (3.5/5). É bem dirigida. É bem interpretada. É bem escrita. Ainda: é uma peça para adultos. Você leu corretamente. É uma peça para adultos. E não se engane: o que mais se vê no circuito são peças infantis. Não falo do catálogo de peças para crianças, matinê. Falo de peças em horário nobre, entre 20h30 e 21h30. O horário filé. O horário em que pessoas adultas, bem-vestidas, vão ao teatro. Presume-me que essas pessoas, adultas, queiram ver peças adultas, que as tire de sua posição confortável e as questione, ou provoque, de alguma forma. Se eu disser que, no geral, elas querem apenas se distrair, você acredita? Digo: elas querem apenas se distrair. Apenas.

Não as culpo. É algo biológico: um ser vivo que não é estimulado regularmente perde a capacidade de fazer associações das mais simples, e se limita ao básico. Comer, respirar e emitir sons, portanto. Tudo que seja diverso a isso ele repele. E não tente convencê-lo do contrário (já viram um animal acuado? Isso aí). A não ser que você seja do tipo missionário, que acredita que as pessoas são passíveis de mudança após o limiar de suas vidas, a tarefa em si não é reconfortante ou prazerosa. Enfim.

Savana glacial é o que podemos chamar de um peça em pedaços (não vou resumir o enredo e nem dar spoiler pra você, tá). Não disse fragmentos, mas pedaços. É como se houvesse uma interdependência entre as partes. Diferentemente de um processo fragmentário de acumulação, que visa uma totalidade, o que Savana glacial oferece, fartamente, são pedaços, resíduos de memória. A forma, pois, se liga ao conteúdo de maneira exemplar. Alguém não lembra das coisas. Alguém as lembra. Alguém as escreve. Ninguém é alguém, necessariamente. São todos personagens num instante, e de repente não são mais. Há algo essencial nesse jogo, que o autor faz questão de demarcar já de largada. Ele nos diz (cito de cabeça; parafraseio tortamente) que tudo é ficção: o casal, o apartamento, a rua, e tudo mais é falso. Menos a dor. A dor é real.

É uma das sínteses mais bonitas do fazer teatral, do teatro em si. E da ficção certamente. E da criação consequentemente.

A síntese aí, acima, me reaproxima de Opening night, do Cassavetes. Ali também, mais do que em qualquer outro filme já feito, notamos que tudo é ficção (tudo é falso), menos a dor. A dor é real. Esse aparente paradoxo serve como epígrafe para a filmografia do Cassavetes. E corresponde precisamente a todo e qualquer ato criativo feito por adultos para adultos. A dor é um componente básico (comum) da criação.

Tudo é ficção, nós sabemos (sei, sei). Essa é a premissa fundamental ao aceitarmos sermos conduzidos por uma obra. Todavia, a questão que se coloca aqui é de outra ordem: não é só ficção, meu caro (nunca é). Isso aqui só existe porque há um curto-circuito interno, em que o próprio autor, ou ator, está dentro de algo que ele imaginava conhecer, e que seria moleza ir em frente, distanciar-se friamente da coisa e analisá-la de longe, concebendo assim um mundo verossímil e redondinho, ou um personagem crível, no caso da representação.

Mas aí é que está: ao buscar elementos para compor esse mundinho ficcional ele esbarra em algo muito mais colado à vida, e as suas experiências acabam por se tornar as experiências de outrem. Devidamente mediadas e remanufaturadas. O outro sou eu e é o outro. Tudo junto ao mesmo tempo.

No que se refere à representação, dizemos que há uma histeria do intérprete, uma histeria da representação (ele interpreta ou vive?). Na literatura, o abismo é mais profundo. A máscara permanece máscara. A habilidade de um escritor (entre outras coisas) está em manipular estas máscaras  a fim de esconder o que está por detrás delas.

Nesse sentido, Jô Bilac não só manipula habilmente estas máscaras como faz com que elas sejam problematizadas. E ao problematizá-las ele devolve à ficção seu espaço de origem: mentira ou verdade, fato ou invenção, ficção ou realidade? A dúvida persiste (que bom).

E lá pelas tantas isso não importa lá muito, porque afinal estes dispositivos todos estão ali por uma única razão. Fazer com que participemos ativamente da estória. Experimentar mais do que interpretar. Eis a lição de Jô Bilac.

Em 2006-2007 o Tommy Lee foi dirigido pelos Coen num filme baseado num livro do Cormac McCarthy (mestre supremo). Em 2008 o mundo conheceu o vovô Cormac (as pessoas, pobres pessoas, não lêem; as pessoas, pobres pessoas, vão ao cinema). Em 2008 as pessoas ficaram impressionadas com a estória do Chigurh e do xerife Bell (vivido por Tommy Lee) e falaram nossa o Javier Bardem é o novo Marlon Brando de peruca e tal. A estória, pessoas, foi baseada num livro menor do vovô Cormac e no entanto deu pra sacar qual é a do vovô, né. É: eu dizia que o mundo, as pessoas, passaram a falar do vovô como alguém mais próximo, com um tipo de intimidade quase promíscua, sabe, e num nível bem superficial, ao ponto de em filas de supermercado eu ouvir senhoras com a idade da minha mãe dizerem que o Cormac é um pão. Inclusive ele esteve no Oscar no ano em que o mundo, as pessoas, os animais e até mesmo as plantas passaram a pronunciar Cormac McCarthy. Enfim. Tommy Lee apaixonou-se por Cormac e peitou levar um de seus textos (uma peça teatral) pra tevê, numa tentativa, penso, de fazer com que as pessoas, as mesmas que não lêem mas vão ao cinema, e que amam os roteiros da Diablo Cody, pudessem finalmente ver atores interpretando um texto de um autor (maiúsculas) e não uma sequência infindável de joguinhos de palavra e filosofia pop destilada em ironia metafísica, metanarrativa, metalinguística, metabobagem.

O resultado desse telefilme, The sunset limited (2/5), pode ser visto na HBO em março (caça lá os horários). Adianto: o Tommy Lee é um ator e gosta de atores (se você ainda não viu Três enterros, filme dirigido por ele, veja), e talvez aí resida o problema. O texto tá todinho lá (adaptado pelo próprio Cormac), e é uma ousadia mesmo um texto desses ir prum canal de televisão (mesmo fechado), mas como eu tava dizendo: o Tommy Lee gosta sobremaneira dos seus atores e no cinema não dá pra gostar em demasia dos atores, a não ser que você seja o Cassavetes, do contrário fica parecendo teatro filmado, e o cinema pode ser várias coisas, mas nunca teatro filmado. E eu entendo que o Tommy Lee queria mesmo era que o texto (sua carga poética) desse conta da mise-en-scène, e por isso optou por ser o mais simples e direto, deixando portanto que os atores (dois) e o jogo (nada improvisado) seguisse uma suposta naturalidade, e que essa naturalidade, pois, revelasse a essencialidade do que está sendo dito ali, e embora haja momentos em que isso efetivamente ocorra (Tommy Lee em solilóquio derradeiro e pessimista), no geral é como participar de uma leitura dramática sem acepipes.

Nos anos 90 tivemos Antes do amanhecer. Nos anos 2000 tivemos Antes do pôr-do-sol. Richard Linklater nos lembrou que uma história é conteúdo, e só. Um homem e uma mulher caminhando e falando acerca de si, e portanto do mundo. Nada mais simples. Nada mais direto. Nada mais humano.

Blue valentine (4.5/5) me fez pensar em Viagem à Itália. Esteticamente falando eles não têm nada em comum. Comparar Rossellini a Derek Cianfrance é um ato até mesmo radical. Mas há algo que os liga intimamente: o desejo pessoal de fazer de um casal o retrato do seu tempo.

Sem imposturas, sem expectativas: apenas duas pessoas que se encontraram em dado momento de suas vidas. Tal como Minnie e Moskowitz, Alvy Singer e Annie Hall, Robert e Francesca.

Em Blue valentine temos o presente e o passado. O ponto onde um casal ainda não é casal e o ponto onde um casal se percebe como casal. Sem qualquer lastro de pieguice ou arroubos melodramáticos, Cianfrance nos dá sete anos da vida de Dean (Ryan Gosling, irrepreensível) e Cindy (Michelle Williams, irreconhecível). Sobretudo nos oferece uma questão incontornável: onde foi que erramos?

Sem resposta. Dean amava Cindi. Cindi amava Dean. Mas algo aconteceu (sempre acontece). Nos contos de Raymond Carver há uma suspensão, uma inconclusão, uma estagnação dos sentimentos. O fim não parece o fim e o início não se assemelha a um início. É difícil precisar o momento em que uma relação acaba, em que um sentimento deixa de existir, em que alguém se torna outro alguém. E mais difícil ainda é admitir que realmente acabou.

A verdade é que como Blue valentine expõe melancolicamente, nunca saberemos onde foi que erramos, e se erramos. É preferível ficar com a belíssima (tristíssima, quando vista em retrospecto) cena em que Dean interpreta You always hurt the ones you love em frente a uma loja de roupas, enquanto Cindy dança. Porque no final a única coisa que resta são as lembranças (mesmo as terríveis).