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O inacabamento deve encontrar uma parte de sua realidade na dolorosa dificuldade de concluir, de acabar ( d’en finir). Com o fim de um texto, é uma dimensão de si que morre: a energia que animava a escritura desaparece com seu fim. Como explicar de outra forma o que preside às ficções de Chantal Akerman, cuja vontade de fragmentação em Toute une nuit deve – ainda por cima – identificar-se a um sonho noturno cuja idéia de acabar esta não suportava conceber? Chantal concebe acabamentos provisórios, embora coerentes em si mesmos, e desvia assim a facilidade metonímica da narrativa cinematográfica clássica. O inacabado é assim o fator de invenção de uma outra tática de aproximação do real, tática (démarche) poética que, mostrando as passarelas invisíveis, encadeando os múltiplos acidentes no seio da vida dos personagens que se desconhecem, propõe uma visão do mundo menos fragmentária do que as aparências permitiriam supor. É bem o inacabamento ficcional destes acidentes que permite em definitivo a possibilidade de interferências entre os fragmentos da narrativa. O Rendez-vous d’Anna não era já – num nível dramático mais do que formal – uma tentativa de mise en scène serial dos elementos da vida de uma personagem cujos múltiplos encontros remetiam sempre a uma fundamental decepção?
[Dominique Païni. Le cinéma, un art moderne, 1997. Tradução de Luiz Soares Júnior]
[Jeanne Dielman, 23, Quai do Commerce, 1080 Bruxelles, de Chantal Akerman]
Filmes, peças e livros de junho
Filmes
Malu de bicicleta, Flávio R. Tambellini (2/5)
Passe livre, Bobby Farrelly e Peter Farrelly (3/5)
Potiche, François Ozon (2.5/5)
Singularidades de uma rapariga loura, Manoel de Oliveira (5/5)
Chantal Akerman, de cá, Gustavo Beck e Leonardo Ferreira (3.5/5)
Adolescentes em fúria, Johannes Roberts (0/5)
Stake land, Jim Mickle (3/5)
Reflexões de um liquidificador, André Klotzel (3/5)
Meia-noite em Paris, Woody Allen (4/5)
Belair, Noa Bressane e Bruno Safadi (3.5/5)
Red, white and blue, Simon Rumley (3/5)
Toute une nuit, Chantal Akerman (5/5)
Na companhia de homens, Neil LaBute (3/5)
Pequeno príncipe, Stanley Donen (3/5)
Três homens numa noite fria, Mika Kaurismäki (2.5/5)
Les rendez-vous d’Anna, Chantal Akerman (5/5)
A casa, Gustavo Hernández (2.5/5)
Peças
Navalha na carne, Rubens Camelo (3/5)
Luis Antônio – Gabriela, Nelson Baskerville (3/5)
Otro, Enrique Diaz e Cristina Moura (3/5)
Sem Pensar, Luiz Villaça (0/5)
Psychopathia Sexualis, Roberto Alvim (2.5/5)
Depressões, Juliana Galdino (3/5)
Trilhas sonoras de amor perdidas, Felipe Hirsch (3/5)
Pterodátilos*, Felipe Hirsch (3.5/5)
La omisión de la família Coleman, Claudio Tolcachir (5/5)
Livros
Mitologias, Roland Barthes (5/5)
O código dos códigos, Northrop Frye (4/5)
Que horas são?, Roberto Schwarz (3.5/5)
* Revistos/relidos
eu sempre falo que preciso de um corredor e de uma porta, pois de outro jeito não consigo trabalhar.
Leonardo Luiz - Na maioria de seus filmes, você gosta de utilizar um quadro dentro do quadro (algo mais vívido em A Prisioneira) composto por uma parede, porta, janela e corredores, que criam planos simétricos. Fale um pouco sobre a sua composição de imagem.
Chantal Akerman - É um segredo (risos). Eu não estou interessada em naturalismo e quando você é muito frontal e simétrica está fora do naturalismo; você já tem assim a sua própria estilização. Quando estava fazendo Jeanne Dielman e uma menina que estava fazendo o frame me perguntou: por que você não disse logo que era simétrico? E eu respondi que não sabia, que estava procurando. E quando sinto que é bom, é bom. Eu tento não fazer e penso comigo mesma: eu farei isso a minha vida toda? Às vezes até me forço a não fazer, entretanto fico triste. É uma satisfação. A relação com porta, parede, etc dá estrutura para dentro do plano e me dá a direção da mise-en-scène, que sempre preciso. Por exemplo, em Um Divã em Nova York eu tinha um corredor branco e sem portas. Então, pensei: como vou trabalhar com isso? Eu sempre falo que preciso de um corredor e de uma porta, pois de outro jeito não consigo trabalhar. Isso constrói a minha mise-en-scène.
Les rendez-vous d’Anna
Vi e revi Les rendez-vous d’Anna, de Chantal Akerman. Fui pego de surpresa com a beleza e a frontalidade e os estados de espírito (estéticos e emocionais) desse filme. Talvez eu acabe escrevendo sobre e tal, quando as coisas ficarem mais assentadas. Por ora, fique aí com um comentário do Deleuze (do livro A imagem-tempo).
A novidade de Chantal está em mostrar assim as atitudes corporais como signo de estados de corpos distintivos da personagem feminina, enquanto os homens apontam para a sociedade, o ambiente, a parte que lhes cabe, o pedaço de história que arrastam consigo (Les rendez-vous d’Anna). Mas, justamente, a cadeia dos estados de corpo feminino não é fechada: descendo da mãe ou remontando até ela, ela serve de revelador aos homens que não fazem mais que se relatar, e mais profundamente ao ambiente, que nada mais faz além de se mostrar ou ser ouvido pela janela de um quarto, pelo vidro de um trem – toda uma arte do som. Parado ou no espaço, o corpo da mulher conquista um estranho nomadismo que lhe faz atravessar idades, situações, lugares (era este o segredo de Virginia Woolf em literatura). Os estados do corpo segregam a lenta cerimônia que religa as atitudes correspondentes, e desenvolvem um gestus feminino que capta a história dos homens e a crise do mundo. É esse gestus que reage sobre o corpo dando-lhe um hieratismo que lembra uma austera teatralização, ou antes, uma “estilização”. O problema que a própria Chantal Akerman se coloca está em saber se é possível evitar o exceso de estilização que tende, apesar de tudo, a encerrar o filme e personagem. O gestus pode tornar-se mais burlesco, sem nada abandonar, e transmite ao filme uma leveza, uma irresistível alegria: isso já em Toute une nuit, mas sobretudo no episódio de Paris vu par… 20 ans après, cujo título relança inclusive toda a obra de Akerman, “sinto fome, sinto frio”, estados de corpo que se tornaram burlescos, motores de uma balada.




