
Voice-over não funciona. Voice-over é recurso pra quem na verdade não sabe filmar.
Cinema é imagem, ponto.
Sei, sei. Afirmações categóricas desse tipo aí me deixam mais desanimado com a evolução humana.
Cinema não é só imagem, ponto. Voice-over é, sim, recurso pra quem na verdade sabe filmar.
Exemplos? Pois vamos a eles. Woody Allen. E aí você vai dizer pra mim ah, não, Woody Allen, Woody Allen é… é… é… É cinema, cara. É voice-over usada de maneira inteligente, em função daquilo que se quer contar.
Mais exemplos?
Alan Resnais, Cris Marker, Marguerite Duras, Bertolucci, Scorsese. No Brasil, Domingos Oliveira e Jorge Furtado. Na Argentina, Burman (e vale lembrar o franco-argentino Gaspar Noé, que fez Sozinho Contra Todos, que é uma verdadeira ode à voice-over).
Etc. Etc.
Poderia, facilmente, listar mais uns vintes nomes, mas paro por aqui. E acrescento: voice-over é um elemento narrativo como qualquer outro. Se usado a serviço da história, com parcimônia e inteligência, é uma delícia. Se usado em excesso, didaticamente e sem critério, é um horror. Enfim.
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (3/5) é voice-over. De um extremo a outro. Por vezes desnecessária, sobremaneira. No entanto, é através desse recurso que o filme se move (literalmente).
A imagem está ali, pois. Um borrão, uma fotografia dum quarto de motel, a estrada (sempre) e a rota a ser percorrida. Há também o plot mínimo e mais direto, portanto desnecessário: um homem distante de quem ama e choramingando por saudade. Mais: a insistência pela legitimação do real¹, ou da necessidade contemporânea por aproximar documentário de ficção e vice-versa.
Mas é fato que não existiria filme não fosse a presença do narrador. Que acaba, algumas vezes, por nos irritar. O didatismo da coisa. Porque há coisas que não precisam ser ditas, mas ele insiste em dizê-las, com tamanha ingenuidade que, por fim, aceitamos.
Taí: é um filme um tanto ingênuo (no bom sentido) em seu discurso, mas de uma radicalidade frontal se tomarmos o cinema brasileiro recente como paradigma. E algo me diz que a dupla (Marcelo Gomes e Karim Aïnouz) anda às voltas com o cinema de Portugal (Pedro Costa, sobretudo) e da Argentina (estou pensando em Lisandro Alonso), o que só me deixa feliz.
Guardadas as devidas diferenças com os autores citados acima (que não são poucas), estamos a caminhar numa trilha que até pouco tempo atrás não parecia existir.
(1) Comentário necessário: é incrível notar como as pessoas salivam ao lerem em letras garrafais baseado em fatos reais. Como se a ficção dependesse exclusivamente/realmente da factualidade para se manter de pé. Perdoai-os, perdoai-os.