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O que o filme tem de mais surpreendente é a forma de deixar os crimes numa opacidade absoluta, sem nenhuma tentativa de explicação, sobretudo no fato de não dramatizá-los: as cenas dos assassinatos são impressionantes porque não há efeitos de encenação. Como essa forma se impôs?

A partir do momento em que eu me aventurava pela sombra desse grande fato real, o preço a pagar era filmar os assassinatos. Era complicado, nesse tipo de narração, evocar a série – ao passo que não é complicado para John Woo. Era preciso que houvesse ao menos repetição, fria e não-explicada. Cheguei à solução dos dois assassinatos para evocar a série. Como não podemos escapar dessas cenas, também não podemos mascarar os assassinatos atrás da porta, sob a mesa, num canto; é preciso que eles sejam filmados em campo inteiro. Ao mesmo tempo, essas cenas proíbem a montagem, é preciso filmá-las num único plano. Senão, é nojento ou não é muito moral, porque o crime fica enfeitado. Com os assassinatos, foi um trabalho de encenação à parte, é preciso perguntar-se como se vai filmar a morte. É por isso que eu gosto muito dos filmes de John Woo, porque é uma verdadeira reflexão sobre a imagem da morte.

[Claire Denis em entrevista feita por Thierry Jousse e Frédéric Strauss, Cahiers du Cinéma 479-80, maio de 1994]

Filmes

Boxing gym, Frederick Wiseman (4/5)

The invention of lying, Ricky Gervais (3/5)

Peixe grande*, Tim Burton (3.5/5)

Public speaking, Martin Scorsese (3/5)

Cemetery junction, Ricky Gervais (2.5/5)

Inside job, Charles Ferguson (2.5/5)

Two-lane blacktop, Monte Hellman (5/5)

Freakonomics, Heidi Ewing (1/5)

Old joy, Kelly Reichardt (4.5/5)

Tokyo, Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho (3.5/5)

Hobo with a shotgun, Jason Eisener (3/5)

A suprema felicidade, Arnaldo Jabor (1.5/5)

Attenberg, Athina Rachel Tsangari (3.5/5)

A falta que me faz, Marília Rocha (4/5)

Cildo, Gustavo Moura (3/5)

O veredito, Sidney Lumet (5/5)

Peças

estudohamlet.com, Cacá Carvalho (1/5)

A lua vem da Ásia, Moacir Chaves (3/5)

A casa amarela, Gero Camilo (3/5)

Fragmentos de O jardim**, Leonardo Moreira (SA)

Livros

Como funciona a ficção, James Wood (4/5)

Notas sobre o cinematógrafo*, Robert Bresson (3/5)

De veludo cotelê e jeans, David Sedaris (3/5)

Ravelstein, Saul Bellow (5/5)

* Revistos/relidos

** Sem avaliação

|Onde jaz o teu sorriso?| São coincidências: um quarto, uma sala, pequenos gestos, uma pequena insistência em tornar grandioso o quarto. É um bocado como a Vanda: ao princípio, certezas absolutas; no fim do confronto, seja entre os dois, seja entre a Vanda e os outros, aquilo tudo vacila. Isso ocorre na cena em que a Danièle diz que o ator tem um sorriso nos olhos. No fim, durante toda a discussão, de frente para trás, é a própria Danièle que diz que não há nada nos olhos, não há sorriso nenhum, há talvez qualquer coisa…

(Comentário de Pedro Costa)

Cure (4.5/5)

Quando menor, tentava hipnotizar pequenos insetos; tinha receio de aplicar hipnose a cachorros ou gatos. Já crescido, tentei auto-hipnose (pensava que dessa maneira poderia reconfigurar meus estados de ânimo). Nos dois casos, sem sucesso. Todavia Kiyoshi Kurosawa reavivou meu interesse. Não por auto-hipnose (passo por fase agradável agora) ou mesmo hipnose, mas pela metáfora. Kurosawa faz um filme policial que é na verdade um ensaio acerca do que somos. Ao falar de fenômenos de indução e assassinato está a repetir a pergunta essencial: o que é um homem?

Sem resposta, sem resposta. Mas Kurosawa arrisca: um homem é aquele que age. Sem sentido, sem sentido, mas que age.

Algum Lugar Entre Aqui e Agora (1.5/5)

É algo a meio caminho entre Cassavetes (perdoe-me Cassavetes), os irmãos Safdie (perdoem-me irmãos Safdie) e todos os filmes espertinhos do verão norte-americano (perdoem-me os filmes espertinhos do verão norte-americano).

A câmera em busca da imagem “verdadeira”. E a história, Lucas, e a história? A história é a história de todos os filmes indie com rótulo indie. Estamos perdidos. O que faremos? Ainda é possível nos relacionarmos?

Soma-se a isso a incapacidade dos atores de dizer os diálogos sem parecer que estão dizendo os diálogos.

|Casa de Lava| Ligar as cruzes do cemitério do Tarrafal à cama do hospital em Lisboa e perceber a cadeia que leva da morte do campo de concentração à morte dos cabo-verdianos nos andaimes, esse é o trabalho de qualquer cineasta; além de tentar ser o mais exaustivo nessa cadeia de morte política sucessiva. Esse era, para mim, a maneira mais correta de ver Portugal. Penso que a política é um subterrrâneo de prisões, campos de concentração, algemas. É quase mise-en-scène: como é que pomos uma atriz a tatear entre o Tarrafal e um operário de hoje?

(Comentário de Pedro Costa)

Voice-over não funciona. Voice-over é recurso pra quem na verdade não sabe filmar.

Cinema é imagem, ponto.

Sei, sei. Afirmações categóricas desse tipo aí me deixam mais desanimado com a evolução humana.

Cinema não é só imagem, ponto. Voice-over é, sim, recurso pra quem na verdade sabe filmar.

Exemplos? Pois vamos a eles. Woody Allen. E aí você vai dizer pra mim ah, não, Woody Allen, Woody Allen é… é… é… É cinema, cara. É voice-over usada de maneira inteligente, em função daquilo que se quer contar.

Mais exemplos?

Alan Resnais, Cris Marker, Marguerite Duras, Bertolucci, Scorsese. No Brasil, Domingos  Oliveira e Jorge Furtado. Na Argentina, Burman (e vale lembrar o franco-argentino Gaspar Noé, que fez Sozinho Contra Todos, que é uma verdadeira ode à voice-over).

Etc. Etc.

Poderia, facilmente, listar mais uns vintes nomes, mas paro por aqui. E acrescento: voice-over é um elemento narrativo como qualquer outro. Se usado a serviço da história, com parcimônia e inteligência, é uma delícia. Se usado em excesso, didaticamente e sem critério, é um horror. Enfim.

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (3/5) é voice-over. De um extremo a outro. Por vezes desnecessária, sobremaneira. No entanto, é através desse recurso que o filme se move (literalmente).

A imagem está ali, pois. Um borrão, uma fotografia dum quarto de motel, a estrada (sempre) e a rota a ser percorrida. Há também o plot mínimo e mais direto, portanto  desnecessário: um homem distante de quem ama e choramingando por saudade. Mais: a insistência pela legitimação do real¹, ou da necessidade contemporânea por aproximar documentário de ficção e vice-versa.

Mas é fato que não existiria filme não fosse a presença do narrador. Que acaba, algumas vezes, por nos irritar. O didatismo da coisa. Porque há coisas que não precisam ser ditas, mas ele insiste em dizê-las, com tamanha ingenuidade que, por fim, aceitamos.

Taí: é um filme um tanto ingênuo (no bom sentido) em seu discurso, mas de uma radicalidade frontal se tomarmos o cinema brasileiro recente como paradigma. E algo me diz que a dupla (Marcelo Gomes e Karim Aïnouz) anda às voltas com o cinema de Portugal (Pedro Costa, sobretudo) e da Argentina (estou pensando em Lisandro Alonso), o que só me deixa feliz.

Guardadas as devidas diferenças com os autores citados acima (que não são poucas), estamos a caminhar numa trilha que até pouco tempo atrás não parecia existir.

(1) Comentário necessário: é incrível notar como as pessoas salivam ao lerem em letras garrafais baseado em fatos reais. Como se a ficção dependesse exclusivamente/realmente  da factualidade para se manter de pé. Perdoai-os, perdoai-os.