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Deixei o fim para depois e não achei outro. Pensei que os produtores fossem mandar de volta. E não tem início também por isso. Vi que é assim que acontece na vida real, onde nada começa e termina de verdade.

[Abbas Kiarostami, em referência ao seu novo filme, Like someone in love]

Chamarei literalmente de dispositivo qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes. (…) Na raiz de todo dispositivo está, deste modo, um desejo demasiadamente humano de felicidade, e a captura e a subjetivação deste desejo, numa esfera separada, constituem a potência específica do dispositivo. (…) Aqui se mostra a futilidade daqueles discursos bem intencionados sobre a tecnologia, que afirmam que o problema dos dispositivos se reduz àquele de seu uso correto. Esses discursos parecem ignorar que, se a todo dispositivo corresponde um determinado processo de subjetivação (ou, neste caso, de dessubjetivação), é totalmente impossível que o sujeito do dispositivo o use de “modo correto”. Aqueles que têm discursos similares são, de resto, o resultado do dispositivo midiático no qual estão capturados. 

[Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo? e outros ensaios]

Estou lendo Herzog. Titio Bellow sabe das coisas. Esse livro é considerado por muitos (escritores, leitores, críticos) sua magnum opus. Abstenho-me do escrutínio canônico do pequeno catatau que tenho em mãos e parto pra leitura simplesmente. A leitura atenta de Herzog faz cócegas libidinosas em áreas epistemológicas. Noutras palavras,  o prazer da leitura é carnal e cerebral a um só tempo.

As condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados.

Leia novamente: as condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados. A sofisticação, sabemos, cobra caro. Ver o quadro todo é algo doloroso e não salva ninguém do contato com a realidade do cotidiano. Fico pensando no pobre Barthes. Perder a mãe não é fácil pra ninguém. Pra Barthes foi insuportável. Repito: as condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados. Ele literalmente pereceu após a morte da velha. Ver um homem como Barthes, de um refinamento intelectual ruidoso, capitular diante de um acontecimento natural como esse, ainda que terrível, faz a gente pensar um bocado em como lidar com os dejetos da existência.

Olhe, Smithers, eu tenho, sim, uma boa ideia para um novo curso. Seu pessoal da organização precisa de gente como eu. As pessoas que vêm às aulas noturnas estão apenas aparentemente em busca de cultura. Sua grande necessidade, sua grande fome, é de bom senso, clareza, verdade – nem que seja um átomo dela. As pessoas estão morrendo – não é uma metáfora – por carência de algo verdadeiro para levar para casa quando o dia acaba. Veja como elas estão dispostas a aceitar a mais descabelada bobagem. 

A expressão não é nova, claro. Como leitor – e sou mais leitor do que escritor, todos somos, acho – posso apreciar uma boa história, mas num romance, que toma tempo para ser lido, uma boa história não é suficiente para mim. Se fecho um livro e não ficam ecos, é muito frustrante. Gosto de livros que não sejam só espirituosos e hábeis. Prefiro alguma coisa que deixe alguma uma ressonância, uma atmosfera. É o que acontece comigo quando leio Shakespeare e Proust. Há certas iluminações e vislumbres de coisas que proporcionam uma forma completamente diferente de pensar. Estou usando palavras que têm a ver com luz porque, às vezes, e acredito que foi Faulkner quem disse isso, acender um fósforo no meio da noite num descampado não permite ver nada mais claramente, apenas ver com clareza toda a escuridão em volta. A literatura faz isso, mais do que qualquer coisa. Não ilumina, exatamente, mas, como o fósforo, permite enxergar o tamanho da escuridão que existe.

[Javier Marías, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

(Minha esposa e filha em foto tirada no Sesc Pompéia em fevereiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“Suponho que minhas superstições podem ser consideradas idiossincrasias. Tenho que somar todos os números: há pessoas para as quais nunca telefono porque o somatório de seus números dá um total funesto. Ou eu não aceitaria um quarto de hotel, pela mesma razão. Não tolero a presença de rosas amarelas – o que é triste, porque é minha flor preferida. Não posso admitir três pontas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajo num mesmo avião com duas freiras. Não começo nada às sextas-feiras. São infinitas as coisas que não posso fazer ou jamais faria. Mas obedecer a esses conceitos primitivos me dá um curioso conforto.”

[Truman Capote, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

(Foto tirada no Sesc Pompéia em fevereiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“O que eu chamo de minha filosofia de ensino é, de fato, uma filosofia de aprendizado. É de Platão, modificada. Antes que o verdadeiro aprendizado possa ocorrer, eu acredito, tem de haver no coração do estudante um certo anseio pela verdade, um certo fogo. O verdadeiro estudante arde de desejo de aprender. No professor, ele reconhece, ou percebe, a pessoa que chegou mais perto da verdade do que ele próprio. Tanto ele deseja a verdade incorporada no professor, que está preparado a queimar sua antiga identidade para obter a verdade. De sua parte, o professor identifica e encoraja o fogo do estudante e reage a ele queimando com uma luz mais intensa. Assim, os dois juntos atingem um âmbito superior. Por assim dizer.”

[J.M.Coetzee, Verão]

Para mim, o maior mistério da ciência ainda é que um homem possa ser pai de seis filhos que não compartilham absolutamente nenhum de seus interesses. Certamente expressávamos entusiasmo pelos passatempos da mamãe, do fumo e do cochilo aos escritos de Sydney Sheldon. (Pergunte à minha mãe como funciona o rádio e a resposta será simples: “Ligue e puxe a droga da antena”.) Uma vez visitei o escritório do meu pai e saí de lá reconfortado por descobrir que, ao menos por ali, ele tinha uns poucos com quem conversar.

[David Sedaris, Eu falar bonito um dia]