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Repare. Toda vez que estiver no cinema e as luzes se acenderem, indicando que é o momento de ir pra casa, que o filme acabou, que você voltou a existir, repare nas pessoas que ficam, que não aceitam levantar e sair dali. Adianto: é uma visão triste. É uma visão funesta e das mais desagradáveis. Eu mesmo, certa feita, fiquei. Recusei sair. Recusei voltar à vida. A recusa nada tinha a ver com minha indisposição natural ao excesso de realidade que nos aguarda do lado de cá. A recusa, em linhas gerais, recaía sobre uma passagem de um dos escritos de Foucault, no qual ele insiste em nos fazer ver que “a única maneira de evitar a morte e a loucura é fazermos da existência um modo de viver, uma arte”. Eu, àquela época, acreditava que ficando ali conseguiria preservar a minha existência e fazer dela alguma coisa, algo em que as pessoas poderiam se inspirar futuramente (não ria, você já fez coisas piores). Eu sei que depositar a existência na tentativa de ser uma instalação viva e restrita a um assento de uma sala de cinema é um ato absurdo, irrelevante, ingênuo, banal, que seja. Eu não dispunha de recursos intelectuais pra fazer algo além disso. E ainda que tivesse não faria muito mais do que fiz. Sei, afinal, que Foucault está certo. A única forma de viver é fazendo da existência um processo de subjetivação.

A subjetividade não é de modo algum uma formação de saber ou uma função de poder que Foucault não teria visto anteriormente; a subjetivação é uma operação artista que se distingue do saber e do poder, e não tem lugar no interior deles. A esse respeito Foucault é nietzschiano, e descobre um querer-artista sobre a linha última. Não se deve acreditar que a subjetivação, isto é, a operação que consiste em dobrar a linha do fora, seja simplesmente uma maneira de se proteger, de se abrigar. Ao contrário, é a única maneira de enfrentar a linha e de cavalgá-la: talvez se vá à morte, ao suicídio, mas, como diz Foucault numa estranha conversa com Schroeter, o suicídio tornou-se então uma arte que toma toda a vida.

O personagem vivido por William Holden em Rede de intrigas diz ter dúvidas primárias. Tomas Ericsson em Luz de inverno conserva as mesmas dúvidas, primárias. Kris Kelvin, em Solaris, está imerso em dúvidas primárias. Eu, dia após dia, repiso as mesmas dúvidas. E que dúvidas são estas? As mesmas de sempre.

Aonde vamos? Há sentido nisso tudo? Deus é alguém ou só uma fruta esquecida no armário? Depois da morte existe vida ou é só uma vez mesmo, por isso dói tanto? Uma vida ética e moral será recompensada ou o sacrifício vale tanto quanto a quimioterapia na cura do câncer? Viver com alguém é uma maneira de dar sentido à falta de sentido da vida e amortece o tédio ou devemos nos separar após os dois primeiros meses de anulações mútuas? A existência é uma coisa ou só um conceito? Por que existem pessoas bonitas e feias? Por que a inteligência é triste e a ignorância dá pulinhos de alegria? O suicídio é uma saída mais digna ou só um vazamento? A felicidade acontece na vida real ou é só uma invenção ficcional? Pynchon existe mesmo? Devo escovar os dentes três vezes ao dia ou só à noite? A hipertrofia do cérebro é um fato ou uma mentira da medicina? No futuro haverá ansiolíticos pra todos ou devemos estocar desde já? Se o trabalho realmente enobrece o homem por que ele nunca pode comprar um novo par de sapatos? Por que há penetras em passeatas já que é um evento aberto? Se você deve aproveitar cada segundo da sua vida por que não há fogos de artifício estourando a todo momento pra te lembrar que você está vivo? Por que a cultura é superestimada se só os imbecis vencem? Por que não reprisam anualmente Anos incríveis? Se a juventude é uma fase por que a velhice é o fim? Podemos engasgar dormindo e sufocar até a morte? A falta de sexo é nociva e provoca mudanças anatômicas ou é só um exercício como praticar natação? Se vamos todos morrer ainda assim precisamos sorrir em filas de supermercado? Por que os calvos não aceitam a calvície de uma vez por todas ao invés de irem atrás de uma segunda opinião? Se a vida é mesmo curta por que simplesmente não solicitamos um prazo maior?

Tenho fraquezas. Fraquezas juvenis. É difícil ser uma rocha em tempo integral. Sei que as pessoas precisam de mim. Poucas, é verdade, mas precisam. E o que fazer se você também tem fraquezas?

Mostre as fraquezas. Sim: mostre as feridas. As cicatrizes. As marcas de espinha e tudo mais que possa tocar seus corações gelados. Mostre que você gostava de coisas ridículas quando era um garotinho ranhento.

Mas seja prudente: não mostre tudo. As pessoas gostam de pessoas que são feitas da mesma matéria que elas, mas não exagere. Frouxidão é diferente de fraqueza. Ninguém aceita frouxidão.

Eu sei que isso aqui está parecendo autoajuda travestida de texto nostálgico, mas explico.

Preciso mostrar uma fraqueza juvenil e precisava fazer com que você aí se sentisse irmanado a mim. Em outras palavras: preciso da sua complacência.

A coisa acontecia da seguinte maneira: apanhava na escola quase que semanalmente. Na verdade, diariamente. Papai e mamãe não sabiam. Havia um cronograma inflexível e de austeridade exemplar afixado no fundo falso de uma das mesas; sabíamos o dia a hora e o local onde seríamos pegos, e fugir de seu destino era um ato edipiano um tanto ridículo, afinal acabaríamos de olhos furados e vertendo sangue mesmo, portanto ninguém corria ou se escondia (hoje vejo que se havia algum tipo de dignidade ela estava em não correr).

Enfim.

Sofria do chamado bullying anos oitenta, que não se tratava de carinhos verbais apenas, mas de carinhos físicos, se é que você me entende (eu sei que você me entende). Dia sim, dia sim, corredor polonês. Dia sim, dia não, lanche roubado. Era difícil ser garoto nos anos oitenta. Principalmente se você fosse magricela e gostasse de videogame e filmes açucarados. E usasse camisetas da Minnie. Pois é: eu usava.

Um garoto nos anos oitenta precisava de um modelo pra poder seguir em frente. Pra poder encarar o corredor sem titubear. Pra poder comer sossegado no intervalo. Pra estar no local e hora corretos, e apanhar mastigando as lágrimas.

Eu era só um garoto nos anos oitenta e escolhi um modelo. Ele atendia pelo nome de Rocky Balboa. Era fácil pra um garoto dos anos oitenta se identificar com alguém como Balboa. Ele sabia usar os punhos. As pessoas gostavam dele. Ele era desengonçado mas tinha força. E além dos músculos havia o coração, porque Balboa é sobretudo coração.

Um garoto como eu precisava de um Balboa por perto. E eu tratei de me tornar Balboa.

Treinamentos diários. Agasalhos acinzentados. Corridas circulares à cata de galinhas. Saltitar utilizando um barbante improvisado como corda. Subir e descer escadas em ritmos alternados. Um treinador mais velho (geralmente o dono da mercearia perto de casa). E nós (os que apanhavam) levávamos tudo isso muito a sério. Me refiro aos treinamentos. E ao Balboa também (na época assisti ao filme umas quinze vezes).

Mas faltava uma coisa. Faltava a Adrian.

Nenhum de nós havia amado alguém senão os nossos pais. Talvez alguns (como eu) amavam Samus Aran, a heroína do jogo Metroid; e outros (eu novamente) amavam Winnie, do seriado Anos Incríveis. Mas insisto: ninguém sabia o que era amar no sentido romântico da coisa. Nenhum de nós ainda havia se dado conta da existência do sexo oposto.

Éramos apenas garotos tentando não apanhar dos garotos que sabiam bater. Éramos pequenos para a nossa idade. Éramos introspectivos. Éramos feios. Éramos sujos (mas nunca malvados). Éramos tímidos e atrapalhados. Éramos viciados em Caverna do Dragão. Gostávamos de Hank mas éramos medrosos como Eric. As garotas riam de nós e nós ríamos delas, afinal nenhuma das partes tinha qualquer interesse pela outra.

O primeiro amor de um garoto fora do círculo familiar é outro garoto, seu amigo, daí a inexistência das garotas em nossas vidas. Até que apareceu Mariana.

Mariana sorria de maneira diferente das outras garotas. Mariana sabia estralar os dedos. Mariana tinha sardas acentuadas em áreas estratégicas. Mariana se movimentava com a mesma leveza de uma patinadora no gelo. Mariana usava brinco. Mariana tinha busto enquanto as outras garotas tinham sutiã. Mariana usava aparelho e isso fazia com que sua dicção adquirisse singularidade e sobretudo certa graça. Mariana nos deixava gagos. Mariana habitava nossos sonhos. Mariana fazia comerciais na tevê. Mariana tinha ascendência francesa. Mariana era tão misteriosa quanto a vida sexual do Batman.

Mariana só tinha um problema: era uma garota.

Nós (os que apanhavam) não sabíamos lidar com elas. As garotas riam de caras como nós. Nós precisávamos de duas coisas agora: tornar-se Balboa e ao mesmo tempo conquistar Adrian. Em resumo: precisávamos bater ao invés de apanhar e precisávamos que Mariana assistisse.

Algo em nós dizia que se Mariana assistisse à luta, e se dela saíssemos vencedores e não vencidos, o seu coração seria o prêmio.

No dia, local e hora marcados, estávamos lá. Metade da escola estava lá. Mariana estava lá.

Os que apanhavam contra os que batiam. Cartazes feitos à mão foram espalhados. Amigos de amigos de amigos souberam e avisaram outros amigos. Ninguém queria perder o genocídio. Havia uma bolsa de apostas. Os únicos que apostaram em nós fomos nós. Isso por si só era a evidência factual de que o melhor que tínhamos a fazer era fugir. Mas não foi o que fizemos.

Nós lutamos. Até o fim. E apanhamos como nunca havíamos apanhado antes. Porque algumas coisas não mudam. Nós éramos os que apanhavam e eles os que batiam. Mas alguma coisa nesse dia fez com que tudo mudasse. A maneira que apanhamos. Nós, pela primeira vez, os enfrentamos. Éramos Balboa. Apanhamos e perdemos, e mesmo assim havíamos nos tornado Balboa. Tal como Balboa ao final de Rockyum lutador, nós ganhamos mais do que se tivéssemos efetivamente ganho. Nós tínhamos fraquezas, e as mostramos. Nós tínhamos feridas, e as mostramos. E mostramos que dali em diante não poderiam simplesmente bater em nós. Haveria sempre uma luta, independente de qual lado saísse vencedor. Não éramos mais frouxos.

Balboa nos ensinou que no final é tudo coração, ou não é nada. Mariana nos ensinou que seríamos sempre os perdedores, e que as garotas escolhem apenas os vencedores.

Há meses (anos) que não vou a uma danceteria (é assim que se chamam ainda?). Perdi a conta de quantos convites para escapadas noturnas eu acabei declinando. Os amigos foram escasseando. Notívagos inveterados, desistiram de mim. Não os culpo. Eles tentaram. Eu tentei. A juventude que ainda vivia em mim tentou. Sem sucesso.

Minha esposa, meses atrás, foi incisiva: “Você vive para as suas coisas. Sair à noite e falar e falar e falar não é uma das suas coisas. O problema real é que você precisa ver algum sentido nas coisas e sair à noite não tem qualquer sentido que não o de sair à noite”.

Ela disse isso enquanto passava rímel. É preciso respeitar mulheres que usam rímel. E ela está certa: eu vivo para as minhas coisas. Sair à noite e confraternizar não é uma delas.

Em algum momento você percebe que algo mudou. Você deixa de usar camisetas amarelas e meias coloridas. Você não acha mais graça nas piadas que sempre achou graça. Você esquece o futebol às quartas-feiras. Você olha para o rosto da sua mãe e nota que ela agora tem rugas expressivas em lugares expressivos. Você não tem mais o telefone de ninguém de três anos atrás. Você agora tem uma filha. Você já esqueceu como era ser um filho. As intensidades mudaram. A imobilidade agora é mais prazerosa do que a mobilidade.

Alguma coisa realmente mudou e você ainda não sabe. Alguma coisa realmente mudou e você não quer saber.