
Tenho fraquezas. Fraquezas juvenis. É difícil ser uma rocha em tempo integral. Sei que as pessoas precisam de mim. Poucas, é verdade, mas precisam. E o que fazer se você também tem fraquezas?
Mostre as fraquezas. Sim: mostre as feridas. As cicatrizes. As marcas de espinha e tudo mais que possa tocar seus corações gelados. Mostre que você gostava de coisas ridículas quando era um garotinho ranhento.
Mas seja prudente: não mostre tudo. As pessoas gostam de pessoas que são feitas da mesma matéria que elas, mas não exagere. Frouxidão é diferente de fraqueza. Ninguém aceita frouxidão.
Eu sei que isso aqui está parecendo autoajuda travestida de texto nostálgico, mas explico.
Preciso mostrar uma fraqueza juvenil e precisava fazer com que você aí se sentisse irmanado a mim. Em outras palavras: preciso da sua complacência.
A coisa acontecia da seguinte maneira: apanhava na escola quase que semanalmente. Na verdade, diariamente. Papai e mamãe não sabiam. Havia um cronograma inflexível e de austeridade exemplar afixado no fundo falso de uma das mesas; sabíamos o dia a hora e o local onde seríamos pegos, e fugir de seu destino era um ato edipiano um tanto ridículo, afinal acabaríamos de olhos furados e vertendo sangue mesmo, portanto ninguém corria ou se escondia (hoje vejo que se havia algum tipo de dignidade ela estava em não correr).
Enfim.
Sofria do chamado bullying anos oitenta, que não se tratava de carinhos verbais apenas, mas de carinhos físicos, se é que você me entende (eu sei que você me entende). Dia sim, dia sim, corredor polonês. Dia sim, dia não, lanche roubado. Era difícil ser garoto nos anos oitenta. Principalmente se você fosse magricela e gostasse de videogame e filmes açucarados. E usasse camisetas da Minnie. Pois é: eu usava.
Um garoto nos anos oitenta precisava de um modelo pra poder seguir em frente. Pra poder encarar o corredor sem titubear. Pra poder comer sossegado no intervalo. Pra estar no local e hora corretos, e apanhar mastigando as lágrimas.
Eu era só um garoto nos anos oitenta e escolhi um modelo. Ele atendia pelo nome de Rocky Balboa. Era fácil pra um garoto dos anos oitenta se identificar com alguém como Balboa. Ele sabia usar os punhos. As pessoas gostavam dele. Ele era desengonçado mas tinha força. E além dos músculos havia o coração, porque Balboa é sobretudo coração.
Um garoto como eu precisava de um Balboa por perto. E eu tratei de me tornar Balboa.
Treinamentos diários. Agasalhos acinzentados. Corridas circulares à cata de galinhas. Saltitar utilizando um barbante improvisado como corda. Subir e descer escadas em ritmos alternados. Um treinador mais velho (geralmente o dono da mercearia perto de casa). E nós (os que apanhavam) levávamos tudo isso muito a sério. Me refiro aos treinamentos. E ao Balboa também (na época assisti ao filme umas quinze vezes).
Mas faltava uma coisa. Faltava a Adrian.
Nenhum de nós havia amado alguém senão os nossos pais. Talvez alguns (como eu) amavam Samus Aran, a heroína do jogo Metroid; e outros (eu novamente) amavam Winnie, do seriado Anos Incríveis. Mas insisto: ninguém sabia o que era amar no sentido romântico da coisa. Nenhum de nós ainda havia se dado conta da existência do sexo oposto.
Éramos apenas garotos tentando não apanhar dos garotos que sabiam bater. Éramos pequenos para a nossa idade. Éramos introspectivos. Éramos feios. Éramos sujos (mas nunca malvados). Éramos tímidos e atrapalhados. Éramos viciados em Caverna do Dragão. Gostávamos de Hank mas éramos medrosos como Eric. As garotas riam de nós e nós ríamos delas, afinal nenhuma das partes tinha qualquer interesse pela outra.
O primeiro amor de um garoto fora do círculo familiar é outro garoto, seu amigo, daí a inexistência das garotas em nossas vidas. Até que apareceu Mariana.
Mariana sorria de maneira diferente das outras garotas. Mariana sabia estralar os dedos. Mariana tinha sardas acentuadas em áreas estratégicas. Mariana se movimentava com a mesma leveza de uma patinadora no gelo. Mariana usava brinco. Mariana tinha busto enquanto as outras garotas tinham sutiã. Mariana usava aparelho e isso fazia com que sua dicção adquirisse singularidade e sobretudo certa graça. Mariana nos deixava gagos. Mariana habitava nossos sonhos. Mariana fazia comerciais na tevê. Mariana tinha ascendência francesa. Mariana era tão misteriosa quanto a vida sexual do Batman.
Mariana só tinha um problema: era uma garota.
Nós (os que apanhavam) não sabíamos lidar com elas. As garotas riam de caras como nós. Nós precisávamos de duas coisas agora: tornar-se Balboa e ao mesmo tempo conquistar Adrian. Em resumo: precisávamos bater ao invés de apanhar e precisávamos que Mariana assistisse.
Algo em nós dizia que se Mariana assistisse à luta, e se dela saíssemos vencedores e não vencidos, o seu coração seria o prêmio.
No dia, local e hora marcados, estávamos lá. Metade da escola estava lá. Mariana estava lá.
Os que apanhavam contra os que batiam. Cartazes feitos à mão foram espalhados. Amigos de amigos de amigos souberam e avisaram outros amigos. Ninguém queria perder o genocídio. Havia uma bolsa de apostas. Os únicos que apostaram em nós fomos nós. Isso por si só era a evidência factual de que o melhor que tínhamos a fazer era fugir. Mas não foi o que fizemos.
Nós lutamos. Até o fim. E apanhamos como nunca havíamos apanhado antes. Porque algumas coisas não mudam. Nós éramos os que apanhavam e eles os que batiam. Mas alguma coisa nesse dia fez com que tudo mudasse. A maneira que apanhamos. Nós, pela primeira vez, os enfrentamos. Éramos Balboa. Apanhamos e perdemos, e mesmo assim havíamos nos tornado Balboa. Tal como Balboa ao final de Rocky, um lutador, nós ganhamos mais do que se tivéssemos efetivamente ganho. Nós tínhamos fraquezas, e as mostramos. Nós tínhamos feridas, e as mostramos. E mostramos que dali em diante não poderiam simplesmente bater em nós. Haveria sempre uma luta, independente de qual lado saísse vencedor. Não éramos mais frouxos.
Balboa nos ensinou que no final é tudo coração, ou não é nada. Mariana nos ensinou que seríamos sempre os perdedores, e que as garotas escolhem apenas os vencedores.