Posts marcados Companhia das letras

Estou lendo Herzog. Titio Bellow sabe das coisas. Esse livro é considerado por muitos (escritores, leitores, críticos) sua magnum opus. Abstenho-me do escrutínio canônico do pequeno catatau que tenho em mãos e parto pra leitura simplesmente. A leitura atenta de Herzog faz cócegas libidinosas em áreas epistemológicas. Noutras palavras,  o prazer da leitura é carnal e cerebral a um só tempo.

As condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados.

Leia novamente: as condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados. A sofisticação, sabemos, cobra caro. Ver o quadro todo é algo doloroso e não salva ninguém do contato com a realidade do cotidiano. Fico pensando no pobre Barthes. Perder a mãe não é fácil pra ninguém. Pra Barthes foi insuportável. Repito: as condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados. Ele literalmente pereceu após a morte da velha. Ver um homem como Barthes, de um refinamento intelectual ruidoso, capitular diante de um acontecimento natural como esse, ainda que terrível, faz a gente pensar um bocado em como lidar com os dejetos da existência.

Olhe, Smithers, eu tenho, sim, uma boa ideia para um novo curso. Seu pessoal da organização precisa de gente como eu. As pessoas que vêm às aulas noturnas estão apenas aparentemente em busca de cultura. Sua grande necessidade, sua grande fome, é de bom senso, clareza, verdade – nem que seja um átomo dela. As pessoas estão morrendo – não é uma metáfora – por carência de algo verdadeiro para levar para casa quando o dia acaba. Veja como elas estão dispostas a aceitar a mais descabelada bobagem. 

Muito feliz, nunca, eu acho. Porque o que você precisa, envelhecendo… Acho que se me dessem um monte de dinheiro para gastar – eu adoraria isso – eu me daria a chance  de me aposentar e sumir, então não teria que trabalhar e poderia ficar observando os outros. A felicidade seria ficar sozinho, no litoral, e ser deixado em paz. E comer muito pouco; sim. Quase nada. Uma vela. Eu viveria sem eletricidade e sem outras coisas. Uma vela! Uma vela e assim eu leria jornais. Vejo as outras pessoas agitadas, sobretudo excitadas por ambição; a vida delas é um show, os ricos vivem trocando convites para que a performance continue. Já vi isso, já vivi entre as pessoas da sociedade – “Escute, Gontram, ouça o que ele disse para você; Oh, Gaston, você realmente estava em forma ontem, hein! Mostrou a ele como é que era, hein! Ele me falou sobre isso ontem à noite, de novo! Sua esposa estava dizendo: Oh, Gaston nos surpreendeu!”. É uma comédia. Eles gastam o tempo deles com esse tipo de coisa. Cada um caçando o outro, encontrando-se nos mesmos clubes de golfe, nos mesmos restaurantes.

[Louis-Ferdinand Céline, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

A arte tampouco tem a ver com ambiente; não faz diferença para ela onde estiver. Se você se refere a mim, o melhor emprego que me ofereceram foi o de gerente de um bordel. Na minha opinião, é o meio perfeito para um artista trabalhar. Dá a ele perfeita liberdade econômica; ele se livra do medo e da fome; tem um teto sobre a cabeça e nada para fazer a não ser controlar algumas contas simples e ir uma vez por mês pagar a polícia local. O lugar é tranquilo durante o dia, que é a melhor hora do dia para trabalhar. Há vida social suficiente à noite, se ele quiser participar, para evitar que ele se entedie; ele ganha certa proeminência na sua sociedade; não tem nada pra fazer, porque a madame cuida do livro-caixa; todos os habitantes da casa são do sexo feminino e vão obedecer a ele, chamando de “senhor”. Todos os contrabandistas de bebida da área o chamarão de “senhor”. E ele poderá chamar os policiais pelos seus primeiros nomes.

Portanto, o único meio ambiente de que o artista necessita é qualquer paz, qualquer solidão, e qualquer prazer que ele consiga obter a um preço não muito alto. Tudo o que um ambiente errado fará é aumentar sua pressão sanguínea; ele passará mais tempo sentindo-se frustado ou ultrajado. Segundo a minha própria experiência, as ferramentas de que preciso para o meu negócio são papel, fumo, comida e um pouco de uísque.

[William Faulkner, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

Há um conto de Raymond Carver que se chama Gordo e que fala de uma garçonete que conta a outra sobre um gordo que aparece no restaurante. Aparentemente banal, de uma banalidade à Carver, eu fui para cama essa noite pensando nele (no conto).

Esse gordo é a pessoa mais gorda que eu já vi na vida, mas tem uma boa aparência e se veste muito bem. Tudo nele é grande. Mas é dos dedos que eu me lembro mais. Quando paro a uma mesa perto da mesa dele para cuidar do casal de velhos, a primeira coisa que noto são os dedos. Parecem ter três vezes o tamanho dos dedos de uma pessoa normal – compridos, grossos, gordurosos.

A descrição aí também é prosaica e não há desfecho epifânico ou coisa que o valha. E daí eu noto que o conto me tirou o sono (poucas coisas me tiram o sono) por duas razões nada ocultas: durante a leitura do conto eu senti algo como uma fome dantesca, e comecei a imaginar o sofrimento de pessoas gordas como o gordo e como ele tentava disfarçar a fome tecendo comentários do tipo Pois é, está muito bom, e não estamos falando por falar. Não é todo dia que podemos comer um pão assim.

Esse é o tipo de comentário digressivo mais babaca do mundo porque obviamente seu interlocutor sabe muito bem que você, na verdade, está tentando desviar o assunto central que é o quanto mais esse gordo será capaz de engolir.

Ok. Mas não é aí que reside o problema: a minha insônia foi ativada pela fome sem precedentes (razão 1) e por duas sentenças (razão 2).

Minha vida vai mudar. Sinto isso.

Sentenças banais? Sim, concordo, banais.

O gordo, portanto, desvia nossa atenção do ponto nevrálgico do conto: a garçonete era um pessoa de uma melancolia assaz presente e de uma crença inalienável no rumo futuro de sua vida.

Ela tinha convicção de que sua vida mudaria dali em diante. O gordo, de alguma maneira, a fez ver isso. E aí vocês dirão que isso é, objetivamente, um momento de revelação (epifânico, pois) da personagem. E eu digo o inverso: ela não viu nada no gordo além do sobrepeso e da gordura ali instalada. O gordo não passava de um gordo qualquer, maior do que outros gordos que ela já tinha visto, mas ainda assim apenas um gordo.

A garçonete acredita que sua vida irá mudar porque não poderia ficar pior. É uma esperança à revelia da esperança. É, sobretudo, uma epifania antiepifânica.

Minha vida vai mudar. Sinto isso.

Duas sentenças banais como essas (e a fome patológica) me fizeram rolar de um lado para o outro na cama, por horas. Elas devem dizer mais sobre mim do que eu imagino.