Há um conto de Raymond Carver que se chama Gordo e que fala de uma garçonete que conta a outra sobre um gordo que aparece no restaurante. Aparentemente banal, de uma banalidade à Carver, eu fui para cama essa noite pensando nele (no conto).
Esse gordo é a pessoa mais gorda que eu já vi na vida, mas tem uma boa aparência e se veste muito bem. Tudo nele é grande. Mas é dos dedos que eu me lembro mais. Quando paro a uma mesa perto da mesa dele para cuidar do casal de velhos, a primeira coisa que noto são os dedos. Parecem ter três vezes o tamanho dos dedos de uma pessoa normal – compridos, grossos, gordurosos.
A descrição aí também é prosaica e não há desfecho epifânico ou coisa que o valha. E daí eu noto que o conto me tirou o sono (poucas coisas me tiram o sono) por duas razões nada ocultas: durante a leitura do conto eu senti algo como uma fome dantesca, e comecei a imaginar o sofrimento de pessoas gordas como o gordo e como ele tentava disfarçar a fome tecendo comentários do tipo Pois é, está muito bom, e não estamos falando por falar. Não é todo dia que podemos comer um pão assim.
Esse é o tipo de comentário digressivo mais babaca do mundo porque obviamente seu interlocutor sabe muito bem que você, na verdade, está tentando desviar o assunto central que é o quanto mais esse gordo será capaz de engolir.
Ok. Mas não é aí que reside o problema: a minha insônia foi ativada pela fome sem precedentes (razão 1) e por duas sentenças (razão 2).
Minha vida vai mudar. Sinto isso.
Sentenças banais? Sim, concordo, banais.
O gordo, portanto, desvia nossa atenção do ponto nevrálgico do conto: a garçonete era um pessoa de uma melancolia assaz presente e de uma crença inalienável no rumo futuro de sua vida.
Ela tinha convicção de que sua vida mudaria dali em diante. O gordo, de alguma maneira, a fez ver isso. E aí vocês dirão que isso é, objetivamente, um momento de revelação (epifânico, pois) da personagem. E eu digo o inverso: ela não viu nada no gordo além do sobrepeso e da gordura ali instalada. O gordo não passava de um gordo qualquer, maior do que outros gordos que ela já tinha visto, mas ainda assim apenas um gordo.
A garçonete acredita que sua vida irá mudar porque não poderia ficar pior. É uma esperança à revelia da esperança. É, sobretudo, uma epifania antiepifânica.
Minha vida vai mudar. Sinto isso.
Duas sentenças banais como essas (e a fome patológica) me fizeram rolar de um lado para o outro na cama, por horas. Elas devem dizer mais sobre mim do que eu imagino.