Posts marcados contos

Para mim, o maior mistério da ciência ainda é que um homem possa ser pai de seis filhos que não compartilham absolutamente nenhum de seus interesses. Certamente expressávamos entusiasmo pelos passatempos da mamãe, do fumo e do cochilo aos escritos de Sydney Sheldon. (Pergunte à minha mãe como funciona o rádio e a resposta será simples: “Ligue e puxe a droga da antena”.) Uma vez visitei o escritório do meu pai e saí de lá reconfortado por descobrir que, ao menos por ali, ele tinha uns poucos com quem conversar.

[David Sedaris, Eu falar bonito um dia]

1961

Levanto às 6h30 para tomar café – de bom humor, acho, mas enquanto faço a barba Mary também levanta, me olha feio, tosse e emite pequenos grunhidos de dor até que eu fale em tom agressivo: “Além de cair morto, tem alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar?” Não tomo café da manhã porque ele não me é oferecido – olhe só para nós, a essa altura da vida e a essa hora do dia, reencenando as brigas horríveis e amarguradas dos nossos pais, girando com ódio em volta da torradeira e do espremedor de laranja como gladiadores encolhidos e desdentados, exalando veneno, bile, maldade e petulância na cara do outro! “Posso torrar o meu pão?” “Se importa de esperar até que eu termine de torrar o meu?” Minha mãe finalmente tirando seu prato de café da mesa e comendo no guarda-louça, de costas para a mesa, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Meu pai sentado à mesa, perguntando: “Pelo amor de Deus, o que foi que eu fiz para merecer isso?” “Me deixe em paz, apenas me deixe em paz, é tudo que peço”, ela diz. “A única coisa que eu quero”, ele diz, “é um ovo cozido. Será que é pedir demais?” “Bom, então cozinhe o seu próprio ovo”, ela grita; e essa é a voz plena da tragédia, o canto do bode. “Cozinhe o seu próprio ovo, então, mas me deixe em paz.” “Mas diabo, como é que eu vou cozinhar um ovo”, ele berra, “se você não me deixa usar a panela?” “Eu deixaria você usar a panela”, ela grita, “se você não a deixasse imunda depois. Não sei como consegue, mas tudo que você toca fica imundo.” “Eu comprei a panela”, ele ruge, “o sabão, os ovos. Pago a água e a conta do gás, e estou na minha própria casa sem conseguir cozinhar um ovo. Morrendo de fome.” “Tome”, ela diz, “coma o meu. Não consigo mais. Você acabou com o meu apetite. Destruiu o meu dia.” Ela empurra o prato para cima dele e o larga sobre a mesa. “Mas eu não quero o seu prato”, ele diz. “Não gosto de ovos fritos. Detesto ovos fritos. Por que eu deveria comer o seu café da manhã?” “Porque eu não consigo mais comer”, ela grita. “Eu não consigo comer nada nesse ambiente. Coma o meu café da manhã. Coma e faça bom proveito, mas cale a boca e me deixe em paz.” Ele afasta o prato e afunda o rosto entre as mãos. Ela pega o prato e joga os ovos fritos no lixo, soluçando terrivelmente. Ela sobe para o quarto. As crianças, que foram acordadas por esse diálogo calamitoso e heroico, tentam entender por que esse bom dia criado pelo Senhor precisa ser essa calamidade.

Daniel Galera, abençoado seja vosso nome, traduziu fragmentos do diário de John Cheever (não sabe quem é? Pesquise) para a Revista Piauí. Leia.

Nos anos 90 tivemos Antes do amanhecer. Nos anos 2000 tivemos Antes do pôr-do-sol. Richard Linklater nos lembrou que uma história é conteúdo, e só. Um homem e uma mulher caminhando e falando acerca de si, e portanto do mundo. Nada mais simples. Nada mais direto. Nada mais humano.

Blue valentine (4.5/5) me fez pensar em Viagem à Itália. Esteticamente falando eles não têm nada em comum. Comparar Rossellini a Derek Cianfrance é um ato até mesmo radical. Mas há algo que os liga intimamente: o desejo pessoal de fazer de um casal o retrato do seu tempo.

Sem imposturas, sem expectativas: apenas duas pessoas que se encontraram em dado momento de suas vidas. Tal como Minnie e Moskowitz, Alvy Singer e Annie Hall, Robert e Francesca.

Em Blue valentine temos o presente e o passado. O ponto onde um casal ainda não é casal e o ponto onde um casal se percebe como casal. Sem qualquer lastro de pieguice ou arroubos melodramáticos, Cianfrance nos dá sete anos da vida de Dean (Ryan Gosling, irrepreensível) e Cindy (Michelle Williams, irreconhecível). Sobretudo nos oferece uma questão incontornável: onde foi que erramos?

Sem resposta. Dean amava Cindi. Cindi amava Dean. Mas algo aconteceu (sempre acontece). Nos contos de Raymond Carver há uma suspensão, uma inconclusão, uma estagnação dos sentimentos. O fim não parece o fim e o início não se assemelha a um início. É difícil precisar o momento em que uma relação acaba, em que um sentimento deixa de existir, em que alguém se torna outro alguém. E mais difícil ainda é admitir que realmente acabou.

A verdade é que como Blue valentine expõe melancolicamente, nunca saberemos onde foi que erramos, e se erramos. É preferível ficar com a belíssima (tristíssima, quando vista em retrospecto) cena em que Dean interpreta You always hurt the ones you love em frente a uma loja de roupas, enquanto Cindy dança. Porque no final a única coisa que resta são as lembranças (mesmo as terríveis).

Há um conto de Raymond Carver que se chama Gordo e que fala de uma garçonete que conta a outra sobre um gordo que aparece no restaurante. Aparentemente banal, de uma banalidade à Carver, eu fui para cama essa noite pensando nele (no conto).

Esse gordo é a pessoa mais gorda que eu já vi na vida, mas tem uma boa aparência e se veste muito bem. Tudo nele é grande. Mas é dos dedos que eu me lembro mais. Quando paro a uma mesa perto da mesa dele para cuidar do casal de velhos, a primeira coisa que noto são os dedos. Parecem ter três vezes o tamanho dos dedos de uma pessoa normal – compridos, grossos, gordurosos.

A descrição aí também é prosaica e não há desfecho epifânico ou coisa que o valha. E daí eu noto que o conto me tirou o sono (poucas coisas me tiram o sono) por duas razões nada ocultas: durante a leitura do conto eu senti algo como uma fome dantesca, e comecei a imaginar o sofrimento de pessoas gordas como o gordo e como ele tentava disfarçar a fome tecendo comentários do tipo Pois é, está muito bom, e não estamos falando por falar. Não é todo dia que podemos comer um pão assim.

Esse é o tipo de comentário digressivo mais babaca do mundo porque obviamente seu interlocutor sabe muito bem que você, na verdade, está tentando desviar o assunto central que é o quanto mais esse gordo será capaz de engolir.

Ok. Mas não é aí que reside o problema: a minha insônia foi ativada pela fome sem precedentes (razão 1) e por duas sentenças (razão 2).

Minha vida vai mudar. Sinto isso.

Sentenças banais? Sim, concordo, banais.

O gordo, portanto, desvia nossa atenção do ponto nevrálgico do conto: a garçonete era um pessoa de uma melancolia assaz presente e de uma crença inalienável no rumo futuro de sua vida.

Ela tinha convicção de que sua vida mudaria dali em diante. O gordo, de alguma maneira, a fez ver isso. E aí vocês dirão que isso é, objetivamente, um momento de revelação (epifânico, pois) da personagem. E eu digo o inverso: ela não viu nada no gordo além do sobrepeso e da gordura ali instalada. O gordo não passava de um gordo qualquer, maior do que outros gordos que ela já tinha visto, mas ainda assim apenas um gordo.

A garçonete acredita que sua vida irá mudar porque não poderia ficar pior. É uma esperança à revelia da esperança. É, sobretudo, uma epifania antiepifânica.

Minha vida vai mudar. Sinto isso.

Duas sentenças banais como essas (e a fome patológica) me fizeram rolar de um lado para o outro na cama, por horas. Elas devem dizer mais sobre mim do que eu imagino.