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Estou lendo um livro de crônicas do Lobo Antunes, As coisas da vida. Acho que não preciso dizer que é um livro necessário.

Hoje estava capaz de me ir embora. (…) Sem espalhafato, sem conversas, sem explicações, sem essa espiadela de passagem que damos sempre a nós mesmos verificando se o cabelo está certo. Quando eu era um médico muito novo, tratei de uma senhora de idade que estava a morrer. A meio da tarde perguntou-me:

- Não me acha um bocadinho cansada?

e na manhã seguinte vieram os homens da agência e colocaram-na no caixão. A filha contou-me depois da pergunta

- Não me acha um bocadinho cansada?

a senhora de idade pediu um cálice de vinho do Porto às escondidas de mim. Metade derramou-se no pescoço mas a metade que engoliu animou-a. Era viúva há que tempos e não esperava grande coisa de ninguém. (…) Ligo a televisão. Não entendo o que se passa no écran mas continuo a ver. Uma criança sorri-me do aparelho. Infelizmente o sorriso dura pouco tempo. Se calhar nem sequer um sorriso. Se calhar sou apenas eu que necessito de um sorriso. Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no caixilho.

No filme Win win, Stephen Vigman, um dos treinadores de wrestling de uma escola norte-americana, logo após ver Kyle (o novo aluno e nosso protagonista) imobilizar um de seus treinandos, diz naturalmente: “Acho que a gente não pode ensinar nada pra ele”.

Eu conservo essa constatação comigo há alguns anos. As pessoas aprendem coisas o tempo todo, não há dúvidas quanto a isso. Eu e você aprendemos um bocado de coisas com os outros. A questão aqui é de outra ordem. Qualquer área apresenta um conjunto de habilidades básicas que você deve dominar se quiser fazer parte dela. Se quiser ser professor, por exemplo, domine o currículo e fale bem alto (e jamais use calças apertadas). Se quiser ser músico, aprenda a ler partituras (mentira) ou fique próximo à caixa de som nas festas (verdade). Se quiser ser um atleta basta conhecer outros atletas. Acredite em mim, não é preciso muito esforço se aquilo realmente faz algum sentido pra você. As pessoas costumam dizer que aquilo precisa “estar em você”. Em parte isso é verdade. A parte verdadeira desse aparente lugar-comum reside no fato de que se você não sentir qualquer tipo de interesse atávico por isso ou aquilo, todo o resto fica mais difícil. Eu diria, abertamente, que fica insuportável. Portanto, pergunte-se: é isso mesmo que eu quero pra mim? Se você fez essa pergunta assim, com cara de neurastênico, desista o quanto antes. Se você fez essa pergunta sinceramente, desista agora mesmo. Se isso está em você isso está em você e as perguntas estão todas aí, mas não essa pergunta.

Pois bem. Duas garotas (desconhecidas pra mim) conversavam animadamente numa fila de teatro enquanto eu as escutava conversar. O bom de se ir sozinho ao teatro é que você pode participar da conversa dos outros sem ter de participar da conversa dos outros. Essas duas garotas, avidamente curiosas pelo “fazer teatral”, notei rapidamente, afinal ambas tinham olhinhos que brilhavam sem parar enquanto elencavam o sem-número de “vivências teatrais” a que foram submetidas nos últimos meses, semanas, dias, horas, minutos. Enfim. Uma delas, a mais baixinha e opinativa, disse que no teatro os atores vivem a personagem e na tevê os atores interpretam. Ela fez questão de dar um contorno prosódico à palavra vivem em contraste à palavra interpretam. A outra, mais calada, disse o seguinte: “Eu notei que a gente já tá pronta pra fazer teatro. Nos últimos dois anos só o que a gente fez foi curso, um atrás do outro. Faz três anos já que a gente fez cênicas. Sinto que eu já tenho tudo aqui, em mim, só falta colocar em prática”. A mais opinativa foi dura com a colega e disse que não, que ainda faltava muito, que elas precisavam de mais ferramentas antes de fazer qualquer coisa. Ela usou expressões do tipo “salto artístico” e “impulso criativo”. Eu acho que lá no fundo eu sei o que ela queria dizer com isso. Lá no fundo. Insisto: o bacana de participar da conversa dos outros é que você não precisa participar da conversa. Ouvir basta. Pensar basta. Falar é ruim. Falar limita a gente de tal forma. A gente sempre acaba dizendo bobagem. Eu, ultimamente, quando sou instado a falar, fico só na expressão labial. Biquinho de estudante de línguas. As pessoas que não me conhecem acabam estranhando, acreditam que eu tenho algum tipo raro de paralisia facial. Nada disso. É só uma forma mais sofisticada de dizer as coisas com o mínimo de recursos.

A verdade é que eu senti uma vontadezinha (nelsonrodriguiana) de dizer algumas coisas, cuspir no pastel delas. Não disse nada, claro. Digo agora: uma boa formação é algo incontornável. Estar com os que fazem é importante, te dá confiança. Participar de cursos e oficinas e tal abre umas portas pra você, faz com que você note que não há nada de muito genial por aí, além de fornecer material técnico. E só, tá. O que a garota disse é verdade: “Sinto que eu já tenho tudo aqui, em mim, só falta colocar em prática” é uma outra maneira de dizer às pessoas que elas devem parar com essa bobagem de acreditar que falta algo, e que esse algo vai ser locupletado por essa ou aquela oficina, por essa ou aquela pessoa, por esse ou aquele evento imersivo. Em algum momento você precisa começar a agir como se não houvesse mais nada que alguém possa te ensinar que você não possa aprender sozinho. Há coisas que você só encontra por si mesmo.

Estar pronto não é estar completo. Ninguém, em momento algum de sua reduzida vidinha, estará completo (fico ruborizado por ter de dizer algo tão aparente). Estar pronto é tomar consciência de que o momento é esse, e é com essas fichas que você vai apostar.

Procrastinar é uma virtude. Eu observo procrastinadores profissionais com um tipo de inveja indecente, e salivo. Eu tentei ser um. Eu tentei pra valer. Não é pra todo mundo. É um clube restrito, e eles não aceitam mais inscrições.

Disse que procrastinar é uma virtude? Menti. Procrastinar é uma arte. Procrastinadores são instalações vivas. Eles permitem que você circule por entre eles, que você os veja, que você os toque. É como se dissessem a você: “É assim que eu vivo. Vá embora. Isso aqui não é pra você”.

Um procrastinador iniciado cria seu próprio tempo-espaço. Eles não estão no mundo; eles são o próprio mundo. Procrastinar é deixar a configuração padrão cumulatória de lado. Os maiores procrastinadores concebem um campo moral particular, isento de julgamentos. Procrastinar não é deixar de fazer, adiar. Procrastinar é fingir estar fazendo enquanto os outros fazem. Já disse: não é pra todo mundo. Você precisa estar à frente de todo mundo pra não fazer nada. É assim que as coisas funcionam. Você precisa ler as entrelinhas das embalagens da vida padrão antes dos outros pra que os outros sejam os outros e você o procrastinador.

Eu tentei, repito. Eu tento, insisto. Algo em mim faz com que eu faça as coisas ao invés de fingir estar fazendo as coisas. Papai foi um grande procrastinador. Ele costumava me aconselhar. “Começar algo não é bom. Terminar é bom. Começar, não.”

Além de papai, alguém. Alguém próximo. Ela dorme ao meu lado todas as noites. Ela, mais do que papai e os procrastinadores profissionais, desenvolveu um método. Coisa fina mesmo. Coisa de quem estuda o sistema e conhece suas falhas, desvãos. Ela conhece todos os intervalos. Pra ser um procrastinador na vida real e não só no campo filosófico (assim como eu) é preciso conhecer os intervalos. Um procrastinador sabe muito bem que um intervalo é aquela camada de tempo livre, ocioso. O que um procrastinador faz é trabalhar com essas fissuras de tempo de maneira que elas ganhem um corpo mais espesso, um caldo mais grosso. Em outras palavras, um procrastinador faz com que o intervalo não seja somente um intervalo mas uma cadeia deles, em sucessões vertiginosas. Fazer isso sem que todos notem é não só a comprovação de genialidade assombrosa como também um atestado de proficiência no que diz respeito aos modos de vida e existência.

A mim resta observar, sorrateiramente. Ela elevou a procrastinação a patamares nunca antes alcançados. Ela concedeu à procrastinação valor de mercado e prestígio social. Ela faz capital sem capital. Ela viu antes. Ela viu além. Ela viu mais. Ela viu o quadro todo, de trás pra frente e de cima pra baixo.

Um procrastinador habitual arrisca uma fatia da sua vida útil. Ela, não. Ela arrisca tudo. Ela não tá nem aí. Ela tá cagando. Ela diz que “procrastinar não é algo que se faz impunemente”. E continua: “Procrastinar não é uma maneira de dizer ao mundo que você não está de acordo com ele. Não. Procrastinar não tem nada a ver com ser rebelde, contra o sistema. Procrastinar não tem nada a ver com atitude política. Procrastinar é só mais uma forma refinada de dizer aos outros que você prefere ficar de fora. Procrastinar foi o jeito que eu encontrei pra fazer alguma coisa sem que eu precise fazer alguma coisa”.

E ainda existem pessoas que me perguntam a razão de eu ter escolhido essa mulher. Essa mulher, amigos, me escolheu. Simples assim.

Não estranhe o motivo de mais uma carta. Janet Malcolm costuma dizer que “cartas são fósseis dos sentimentos”. É por aí. Embora não tenha qualquer intenção de travar um diálogo virtual com você, eis que estou de volta, saltitante.

Você conhece bem minhas idiossincrasias, e uma carta aberta é algo um tanto afetado, quase um choro infantil (prestem atenção em mim!), uma birra qualquer. Mas o motivo é nobre. Nos conhecemos através do teatro. Ficamos amigos por conta dele. Toda vez que nos encontramos, o assunto gira em torno da mesma obsessão, o teatro, sempre ele. Há uma razão aparente e outra subterrânea pra nossa amizade. A aparente é o teatro e as cadeias todas de afinidades. A subterrânea é que tanto eu quanto você descobrimos o segredo por trás da cortina. O teatro não nos modificou ou melhorou como pessoas. Continuamos sem saber o que fazer das nossas vidas. O teatro simplesmente aliviou (e alivia) o peso da nossa existência. Ele nos fornece algum sentido para além da banalidade que é estar vivo. Ambos acreditamos que o teatro, quando acontece (essa é uma palavra muito importante pra nós) pra valer, restitui um pouco, ao menos um pouco, da nossa humanidade (quando foi que a perdemos?). É como se através dele pudéssemos nos sentir mais vivos, menos anestesiados. Eu não diria que é o nosso estimulante porque estimulantes têm uma ação imediata e uma sensação momentânea. O teatro é mais cancerígeno e longevo que qualquer vício.

Não sei a quantas anda a sua vida teatral por aí. Sei que por aí há peças aos borbotões (corre pra ver o Ricardo III com o Kevin Spacey, taí do seu ladinho, menina). “Atores ingleses são os melhores do mundo”, segundo o João e a Nádia (ok, o Kevin não é inglês, apesar do plantel todo ser). Eu discordo deles com todas as forças, mas deixe estar.

Imagino que você esteja indo pouco ao teatro. Não sei o motivo. Penso que você ainda esteja presa geograficamente nesse fim de mundo aqui. Toca pra frente que a vida é ridiculamente pequena e aborrecida pra ficar estagnada num lugar em que a gente não está. Você deve ter visto Meia-noite em Paris, que fala disso à sua maneira. Se não viu, vai ver logo, né. Não gostando, já sabe o que fazer (tá lembrada do recadinho em Opening night? Pois é). O mutismo seletivo deveria ser um tipo de religião, com direito a um livro sagrado particular. Sei que divago. Sei.

A Rafa cresceu alguns bons centímetros. Cresceu também a sua verve e seu estojo de maquiagem. Dia desses ela perguntou da moça da casa espanhola. Minto, obviamente. A verdade é que ela não se recorda mais de você (não estou mentindo dessa vez). Um ano na vida de uma criança equivale a, no mínimo, quinze anos da vida de um adulto feliz, obeso de satisfação. O bom de se ter a idade da Rafa é que tudo o que existe é o agora. O passado pra eles é ontem e o futuro amanhã. Se a gente pudesse, ao menos de vez em quando, agir dessa maneira, o que não faríamos de nós, não é mesmo?

A Jaq se mantém incrivelmente bêbada e linda. Ela insiste em me fazer crer que tudo está nos genes, e que os meus sofrem espasmos frequentes de melancolia e tédio, e que isso, a longo prazo, fará com que eu me torne um suicida em potencial e um fracassado em tempo integral. Há como discordar de alguém tão otimista? Acredito que não. Pra Jaq a vida deve ser encarada em duas frentes. Álcool e amor. “O amor nunca antes do álcool, e o álcool nunca antes do amor”, ela cantarola, e me faz sorrir.

O motivo da carta, volto a dizer, é nobre. Vi La omisión de la familia Coleman e fiquei preso ao assento. A estória fala de uma família que dissolve seu mobiliário afetivo. A estória, em suma, é simples. A forma com que a estória nos é contada é a coisa. Tipo Sarah Kane. Tipo Jon Fosse. Tipo Michel Vinaver. Tipo o cinema romeno contemporâneo. Tipo “As chaves”, sabe. Sei que sabe. Você melhor do que ninguém sabe do que eu estou falando.

Sei que as duas melhores montagens que vi nesse primeiro semestre são argentinas. Sei também que é uma idiotice comparar o teatro de lá com o de cá sem ter em conta um conjunto maior de encenações. O intercâmbio, sabemos, é feito diante dos melhores resultados. Essas duas peças – Espía una mujer que se mata e La omisión de la familia Coleman – são de um despojamento que dificilmente eu noto por aqui. É um teatro pobre em sua estrutura, mas que foca o ator, sua autoralidade, sua personalidade, seu impulso criativo. É daquelas montagens que eu sei que você gostaria de estar como atriz, viver a experiência, enfim, ser um pouco o que você não é e muito do que você é.

Taí o porquê da carta. Taí a necessidade do relato e tal. Taí a sentimentalidade toda de algodão-doce sem palito, que fica lambuzando a gente, pedindo pra gente comer escondido, longe de todo mundo, longe das outras crianças que deixaram de brincar faz tempo porque o tempo de brincar passou e elas não querem mostrar que um dia brincaram disso também, assim, tipo inocentes, tipo pequenas, tipo por brincar, tipo como se a vida fosse um pique-esconde contra os adultos.

Crescer é como passar do banco do passageiro pro do motorista sem saber como trocar as marchas. Parece que a gente tá sempre dando ré. Às vezes eu me pergunto, baixinho, quando foi que deixamos de fazer o que queríamos fazer e nos tornamos o que todos os outros esperavam que nos tornássemos.

Devemos querer pouco. Devemos querer menos. Devemos viver a vida que planejamos, e só. Viver é tão frágil que não suporta esperar. É pra já. É agora. Foi. É.

Fica bem, baby.

Repetidamente, após uma discussão ou durante ou mesmo antes dela, minha esposa é categórica: “A diferença essencial entre as pessoas é que algumas foram beneficiadas pelos ganhos genéticos, e outras não. É simples assim. Eu me incluo na primeira categoria. E você não entraria sequer na segunda, reservada aos outros”, ela diz olhando fixamente nos meus olhos e salivando. “Talvez você entre numa categoria alternativa, restrita aos que a gente sente compaixão e uma pontinha de alívio, uma pontinha catártica, do tipo graças a Deus que o meu código genético não me deixou na mão, do contrário eu teria de compensar a falta de beleza com proteínas e estudos, e, pior, teria de ser agradável, sorridente e passiva. Se você é feio, aceite: você tem de se adaptar ao mundo. No meu caso, o mundo que se adapte.”

Em momentos como esse, espirituosos, eu tenho total convicção de ter feito a escolha certa.

Enquanto assistia A última noite (1/5), entre bocejos e cochilos, pensei no casamento. Não no meu, evidente. Papai diz que se o casamento se torna algo a se pensar o casamento soçobrou. Por isso não penso. Penso no casamento dos que se casam como se o casamento fosse o momento em que duas almas singulares se encontram para dividir uma vida singular. Almas singulares não se encontram. Almas singulares se repelem. Se você casou, aceite: a singularidade morreu. Pessoas singulares não casam. Pessoas singulares vivem. E depois morrem. Não como nós, os que se casam. Nós compramos uma casa e adquirimos plano de saúde e temos as prestações do carro. Nós não vivemos. Nós só estamos aqui. E por pouco tempo.

Nesse A última noite o moralismo carola vence. O casal trai e sente o pecado original a corroer-lhe as entranhas. A mulher (Keira Knightley) não chega a morder a maçã, mas sente o azedume. O homem (Sam Worthington) come a maçã, e cai em desgraça. Desgraça existencial, que é a pior das desgraças.

O desfecho é risível e eu só me mantive realmente acordado porque lá estava Keira Knightley. Só mesmo o fato de Keira Knightley viver uma possível adúltera vale o sacrifício clerical. E como um padre eu permaneci desperto às investidas mundanas de um roteiro esquemático e de mensagem esquemática.

A mensagem: o casamento passa por altos e baixos, mas ao final o casamento, a instituição, sobrevive, inabalável. A verdade: o casamento não passa por altos e baixos. O casamento não passa por crises intermitentes. O casamento é uma crise. Você não administra uma crise. Você finge que ela não existe. Não pensa nela. Não a vive. Fingir é sempre melhor e dói menos.

Para mim, o maior mistério da ciência ainda é que um homem possa ser pai de seis filhos que não compartilham absolutamente nenhum de seus interesses. Certamente expressávamos entusiasmo pelos passatempos da mamãe, do fumo e do cochilo aos escritos de Sydney Sheldon. (Pergunte à minha mãe como funciona o rádio e a resposta será simples: “Ligue e puxe a droga da antena”.) Uma vez visitei o escritório do meu pai e saí de lá reconfortado por descobrir que, ao menos por ali, ele tinha uns poucos com quem conversar.

[David Sedaris, Eu falar bonito um dia]