Não estranhe o motivo de mais uma carta. Janet Malcolm costuma dizer que “cartas são fósseis dos sentimentos”. É por aí. Embora não tenha qualquer intenção de travar um diálogo virtual com você, eis que estou de volta, saltitante.
Você conhece bem minhas idiossincrasias, e uma carta aberta é algo um tanto afetado, quase um choro infantil (prestem atenção em mim!), uma birra qualquer. Mas o motivo é nobre. Nos conhecemos através do teatro. Ficamos amigos por conta dele. Toda vez que nos encontramos, o assunto gira em torno da mesma obsessão, o teatro, sempre ele. Há uma razão aparente e outra subterrânea pra nossa amizade. A aparente é o teatro e as cadeias todas de afinidades. A subterrânea é que tanto eu quanto você descobrimos o segredo por trás da cortina. O teatro não nos modificou ou melhorou como pessoas. Continuamos sem saber o que fazer das nossas vidas. O teatro simplesmente aliviou (e alivia) o peso da nossa existência. Ele nos fornece algum sentido para além da banalidade que é estar vivo. Ambos acreditamos que o teatro, quando acontece (essa é uma palavra muito importante pra nós) pra valer, restitui um pouco, ao menos um pouco, da nossa humanidade (quando foi que a perdemos?). É como se através dele pudéssemos nos sentir mais vivos, menos anestesiados. Eu não diria que é o nosso estimulante porque estimulantes têm uma ação imediata e uma sensação momentânea. O teatro é mais cancerígeno e longevo que qualquer vício.
Não sei a quantas anda a sua vida teatral por aí. Sei que por aí há peças aos borbotões (corre pra ver o Ricardo III com o Kevin Spacey, taí do seu ladinho, menina). “Atores ingleses são os melhores do mundo”, segundo o João e a Nádia (ok, o Kevin não é inglês, apesar do plantel todo ser). Eu discordo deles com todas as forças, mas deixe estar.
Imagino que você esteja indo pouco ao teatro. Não sei o motivo. Penso que você ainda esteja presa geograficamente nesse fim de mundo aqui. Toca pra frente que a vida é ridiculamente pequena e aborrecida pra ficar estagnada num lugar em que a gente não está. Você deve ter visto Meia-noite em Paris, que fala disso à sua maneira. Se não viu, vai ver logo, né. Não gostando, já sabe o que fazer (tá lembrada do recadinho em Opening night? Pois é). O mutismo seletivo deveria ser um tipo de religião, com direito a um livro sagrado particular. Sei que divago. Sei.
A Rafa cresceu alguns bons centímetros. Cresceu também a sua verve e seu estojo de maquiagem. Dia desses ela perguntou da moça da casa espanhola. Minto, obviamente. A verdade é que ela não se recorda mais de você (não estou mentindo dessa vez). Um ano na vida de uma criança equivale a, no mínimo, quinze anos da vida de um adulto feliz, obeso de satisfação. O bom de se ter a idade da Rafa é que tudo o que existe é o agora. O passado pra eles é ontem e o futuro amanhã. Se a gente pudesse, ao menos de vez em quando, agir dessa maneira, o que não faríamos de nós, não é mesmo?
A Jaq se mantém incrivelmente bêbada e linda. Ela insiste em me fazer crer que tudo está nos genes, e que os meus sofrem espasmos frequentes de melancolia e tédio, e que isso, a longo prazo, fará com que eu me torne um suicida em potencial e um fracassado em tempo integral. Há como discordar de alguém tão otimista? Acredito que não. Pra Jaq a vida deve ser encarada em duas frentes. Álcool e amor. “O amor nunca antes do álcool, e o álcool nunca antes do amor”, ela cantarola, e me faz sorrir.
O motivo da carta, volto a dizer, é nobre. Vi La omisión de la familia Coleman e fiquei preso ao assento. A estória fala de uma família que dissolve seu mobiliário afetivo. A estória, em suma, é simples. A forma com que a estória nos é contada é a coisa. Tipo Sarah Kane. Tipo Jon Fosse. Tipo Michel Vinaver. Tipo o cinema romeno contemporâneo. Tipo “As chaves”, sabe. Sei que sabe. Você melhor do que ninguém sabe do que eu estou falando.
Sei que as duas melhores montagens que vi nesse primeiro semestre são argentinas. Sei também que é uma idiotice comparar o teatro de lá com o de cá sem ter em conta um conjunto maior de encenações. O intercâmbio, sabemos, é feito diante dos melhores resultados. Essas duas peças – Espía una mujer que se mata e La omisión de la familia Coleman – são de um despojamento que dificilmente eu noto por aqui. É um teatro pobre em sua estrutura, mas que foca o ator, sua autoralidade, sua personalidade, seu impulso criativo. É daquelas montagens que eu sei que você gostaria de estar como atriz, viver a experiência, enfim, ser um pouco o que você não é e muito do que você é.
Taí o porquê da carta. Taí a necessidade do relato e tal. Taí a sentimentalidade toda de algodão-doce sem palito, que fica lambuzando a gente, pedindo pra gente comer escondido, longe de todo mundo, longe das outras crianças que deixaram de brincar faz tempo porque o tempo de brincar passou e elas não querem mostrar que um dia brincaram disso também, assim, tipo inocentes, tipo pequenas, tipo por brincar, tipo como se a vida fosse um pique-esconde contra os adultos.
Crescer é como passar do banco do passageiro pro do motorista sem saber como trocar as marchas. Parece que a gente tá sempre dando ré. Às vezes eu me pergunto, baixinho, quando foi que deixamos de fazer o que queríamos fazer e nos tornamos o que todos os outros esperavam que nos tornássemos.
Devemos querer pouco. Devemos querer menos. Devemos viver a vida que planejamos, e só. Viver é tão frágil que não suporta esperar. É pra já. É agora. Foi. É.
Fica bem, baby.
