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CP: Você se sente célebre e clandestino? Você gosta dessa noção de clandestinidade.

GD: Gosto, mas não me sinto célebre. Não me sinto clandestino. Gostaria de ser imperceptível. Muita gente gostaria. Isso não significa que eu não o seja. Ser imperceptível é bom porque podemos… Mas essas são questões quase pessoais. O que eu quero é fazer meu trabalho, que não me perturbem e não me façam perder tempo. Ao mesmo tempo, ver pessoas. Sou como todo mundo. Gosto das pessoas, de um pequeno número de pessoas. Gosto de vê-las, mas, quando as vejo, não quero que seja um problema. Relações imperceptíveis com pessoas imperceptíveis é o que há de mais bonito no mundo. Todos nós somos moléculas. Uma molécula numa rede, uma rede molecular.

Não quis ser actor no início. Tenho 60 anos. Sou obrigado a ganhar a vida. Encontro um realizador que me diz “coloca-te à esquerda”. “Não, André, sofre. Não, sofre melhor, meu caro, com intensidade.” No teatro, ao menos todas as noites podemos inventar. No cinema a maior parte dos cineastas não são propriamente génios. Somos obrigados a trabalhar com medíocres. (…) O cinema fez-me ganhar a vida. Fiz pequenos papéis. Poucos papéis principais. Mas não se ganha mal. E o teatro que faço também nunca me permitiu ganhar muito. O “métier” de actor é estranho. Estamos dependentes do desejo dos outros. O outro problema é que somos obrigados a cuidar de nós, há um grande narcisismo. À medida que envelhecemos temos de nos confrontar com o corpo, com a nossa carne, com os dentes que perdemos, é desagradável. Quando filmamos uma cena de amor uma maquilhadora maquilha-nos o cu. É de doidos. É a grandeza e decadência dos actores. Mas há coisas formidáveis. Christopher Walken é um gênio.

[André Wilms, via Malone meurt]

GABE KLINGER: Can you think of a formative experience that led you to do what you do?

HONG SANG-SOO: It was an accident. I met this guy, he was drunk. He said that I might be good for the theater. I didn’t have any plan at that moment. I returned to my room that night and thought seriously about it. So I prepared, got into the university… But when I got there, and I joined the theater department, I didn’t like the senior students. They always asked me to do things I didn’t want to do. I looked around and I saw cinema students, they were quiet, more independent in spirit… and they didn’t have to work all together like in the theater department. So I switched to cinema.

Aqui.

Como você descreveria Louise Bourgeois?

Denise Stoklos - Ela cultivava apreciações que fogem dos terrenos da obviedade. Uma vez, eu a ouvi escutando um poeta italiano por horas, e ela não falava italiano. Aprendi mais do amor naquele momento.

Por que ela sugeriu que o espetáculo fosse nomeado de Faço, Desfaço, Refaço? 

Denise Stoklos - Louise Bourgeois tinha feito uma exposição em Londres com esse título. E eu dizia que, se a peça não ficasse boa, eu não apresentaria. Ela dizia: “Por que não faz como eu? Se não fica bom, eu desfaço e refaço e assim continuo”.

Muito feliz, nunca, eu acho. Porque o que você precisa, envelhecendo… Acho que se me dessem um monte de dinheiro para gastar – eu adoraria isso – eu me daria a chance  de me aposentar e sumir, então não teria que trabalhar e poderia ficar observando os outros. A felicidade seria ficar sozinho, no litoral, e ser deixado em paz. E comer muito pouco; sim. Quase nada. Uma vela. Eu viveria sem eletricidade e sem outras coisas. Uma vela! Uma vela e assim eu leria jornais. Vejo as outras pessoas agitadas, sobretudo excitadas por ambição; a vida delas é um show, os ricos vivem trocando convites para que a performance continue. Já vi isso, já vivi entre as pessoas da sociedade – “Escute, Gontram, ouça o que ele disse para você; Oh, Gaston, você realmente estava em forma ontem, hein! Mostrou a ele como é que era, hein! Ele me falou sobre isso ontem à noite, de novo! Sua esposa estava dizendo: Oh, Gaston nos surpreendeu!”. É uma comédia. Eles gastam o tempo deles com esse tipo de coisa. Cada um caçando o outro, encontrando-se nos mesmos clubes de golfe, nos mesmos restaurantes.

[Louis-Ferdinand Céline, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

Acabei de ler o livrinho do Franck Maubert (Conversas com Francis Bacon) sobre o Francis Bacon. É um livro-entrevista (acrescido de dois ensaios) dos mais deliciosos. Leia esses trechos aí:

Franck Maubert: No entanto o senhor foi decorador…

Francis Bacon: O que fazer quando somos jovens? Quando somos jovens, avançamos e não sabemos muito aonde vamos. Então, por que não a decoração…? Mas não fiz nada de original.

Franck Maubert: Poderia esclarecer esse termo (pintura “clínica”), por favor?

Francis Bacon: Em inglês, dizemos “clinical”. Então, quando emprego a palavra “clínico, quero dizer o realismo mais radical. Do jeito que o mundo vai, é impossível de definir, impossível de falar sobre.

Franck Maubert: Clínico é frio, distante?

Francis Bacon: Uma espécie de realismo, mas não necessariamente frio. Ser “clínico” não é ser frio, é uma atitude, é como decidir alguma coisa. Mas é verdade que em tudo isso há frieza e distância. A priori, não há sentimentos. E, paradoxalmente, pode provocar um enorme sentimento. “Clínico” é estar o mais próximo possível do realismo, no mais recôndito de si. Alguma coisa de exato e afiado. O realismo é uma coisa perturbadora…

Franck Maubert: Uma relação direta com sua vida e sua pintura, talvez?

Francis Bacon: Sim, sem dúvida alguma. É sobre nós mesmos que devemos trabalhar em primeiro lugar… Eu queria alcançar uma pintura clínica” no sentido em que Macbeth é clínico. Os grandes poetas são formidáveis disparadores de imagens. Suas palavras são indispensáveis para mim, me estimulam, me abrem as portas do imaginário.

Franck Maubert: Então o verdadeiro clique foi o quê?

Francis Bacon: Mais tarde, em Londres, tive outro “clique”, como você diz, diante da bancada do setor “açougue” nas lojas Harrods. Não sabemos por que determinadas coisas nos tocam. É verdade, adoro os vermelhos, os azuis, os amarelos, a gordura da carne. Somos carne, não é mesmo? Quando vou ao açougue, acho sempre surpreendente não estar ali, no lugar dos nacos de carne. E depois há um verso de Ésquilo que me obceca: “O cheiro do sangue humano não desgruda seus olhos de mim”…

Franck Maubert: O senhor aprendeu a pintar?

Francis Bacon: De forma alguma. Nunca sei como fazer uma tela. A coisa vem – ou não vem – com o trabalho. Sabe, se pinto, é um pouco por acaso. Aprendi sozinho e nunca pensei que fossem se interessar pela minha pintura. O fato de viver isso é uma sorte. Nunca pensei em fazer, como se diz, uma carreira. Tenho horror a essa palavra, não tem nada a ver comigo. Eu trabalhei, trabalhei. Durante dez anos, eu destruía tudo. E às vezes ainda me acontece de pensar que deveria ter continuado a destruir tudo!

Franck Maubert: O senhor é autodidata e aprimorou técnicas que o senhor mesmo criou…

Francis Bacon: Não sei como fazer uma tela. Descobri alguns truques trabalhando. Por exemplo, preparo minhas telas no avesso da tela. É preciso técnica, mas, para pintar, é preciso antes que músculos e pincéis se harmonizem. Um dia, me diverti muito com dois especialistas da Tate Gallery que se interrogavam diante de um dos meus quadros, o retrato de Eric Hall, que o museu acabava de de adquirir. Eles não compreendiam como eu reproduzira nessa tela o material de um casaco de lã, imitando flanela. Estavam convencidos de que era pastel: ficaram brancos quando lhes expliquei que eu simplesmente mergulhara meu indicador e um pano na crosta de poeira que recobre o chão do meu ateliê. O que há de melhor que a poeira para uma roupa cinza? É ideal e há toneladas aqui. Depois, fixei-o como um pastel, sobre uma leve aquarela cinza. Você não aprende esse tipo de coisa nas Belas-Artes.

Então, é verdade, não aprendi nada numa escola de arte. Mas quando olhamos ao nosso redor quem saiu de uma… É um desastre. Não me arrependo de nada. Sim, me arrependo de não ter aprendido grego antigo. Disso, sim, me arrependo. Dessa forma eu poderia ter lido meus autores no original. Infelizmente, por falta de cultura, fiquei restrito à tradução. É um pouco frustrante.