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Estou lendo Herzog. Titio Bellow sabe das coisas. Esse livro é considerado por muitos (escritores, leitores, críticos) sua magnum opus. Abstenho-me do escrutínio canônico do pequeno catatau que tenho em mãos e parto pra leitura simplesmente. A leitura atenta de Herzog faz cócegas libidinosas em áreas epistemológicas. Noutras palavras,  o prazer da leitura é carnal e cerebral a um só tempo.

As condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados.

Leia novamente: as condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados. A sofisticação, sabemos, cobra caro. Ver o quadro todo é algo doloroso e não salva ninguém do contato com a realidade do cotidiano. Fico pensando no pobre Barthes. Perder a mãe não é fácil pra ninguém. Pra Barthes foi insuportável. Repito: as condições humanas simples e gerais prevalecem mesmo entre os aparentemente mais sofisticados. Ele literalmente pereceu após a morte da velha. Ver um homem como Barthes, de um refinamento intelectual ruidoso, capitular diante de um acontecimento natural como esse, ainda que terrível, faz a gente pensar um bocado em como lidar com os dejetos da existência.

Olhe, Smithers, eu tenho, sim, uma boa ideia para um novo curso. Seu pessoal da organização precisa de gente como eu. As pessoas que vêm às aulas noturnas estão apenas aparentemente em busca de cultura. Sua grande necessidade, sua grande fome, é de bom senso, clareza, verdade – nem que seja um átomo dela. As pessoas estão morrendo – não é uma metáfora – por carência de algo verdadeiro para levar para casa quando o dia acaba. Veja como elas estão dispostas a aceitar a mais descabelada bobagem. 

Filmes

Boxing gym, Frederick Wiseman (4/5)

The invention of lying, Ricky Gervais (3/5)

Peixe grande*, Tim Burton (3.5/5)

Public speaking, Martin Scorsese (3/5)

Cemetery junction, Ricky Gervais (2.5/5)

Inside job, Charles Ferguson (2.5/5)

Two-lane blacktop, Monte Hellman (5/5)

Freakonomics, Heidi Ewing (1/5)

Old joy, Kelly Reichardt (4.5/5)

Tokyo, Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho (3.5/5)

Hobo with a shotgun, Jason Eisener (3/5)

A suprema felicidade, Arnaldo Jabor (1.5/5)

Attenberg, Athina Rachel Tsangari (3.5/5)

A falta que me faz, Marília Rocha (4/5)

Cildo, Gustavo Moura (3/5)

O veredito, Sidney Lumet (5/5)

Peças

estudohamlet.com, Cacá Carvalho (1/5)

A lua vem da Ásia, Moacir Chaves (3/5)

A casa amarela, Gero Camilo (3/5)

Fragmentos de O jardim**, Leonardo Moreira (SA)

Livros

Como funciona a ficção, James Wood (4/5)

Notas sobre o cinematógrafo*, Robert Bresson (3/5)

De veludo cotelê e jeans, David Sedaris (3/5)

Ravelstein, Saul Bellow (5/5)

* Revistos/relidos

** Sem avaliação

Primo Levi diz que em Auschwitz a morte começa pelos sapatos, e fico imaginando se ele estava se referindo apenas ao tempo no campo ou às décadas depois de calçar o par que conseguiu pegar naqueles cinco segundos decisivos. Primo Levi morreu aos sessenta e oito anos, em Turim, Itália, depois de ter escrito treze livros, boa parte sobre o Holocausto, e ter sido traduzido em várias línguas, e ter retomado sua carreira de químico, e casar e ter filhos, e receber prêmios e virar uma celebridade literária na Europa e no mundo, e fico imaginando se era nesta escolha, um número maior que o pé, um número menor, talvez o número exato por uma sorte rara e invejável entre o milhão e meio de prisioneiros que passaram pelo campo, que ele estava pensando quando abriu a porta do apartamento e caminhou até a escada e nela caiu numa ocorrência que quase nenhum de seus biógrafos julga ter sido acidental. 

[Michel Laub, Diário da queda]

Algumas pessoas me mandam perguntas. Algumas pessoas acreditam que eu tenha respostas para estas perguntas. A última pergunta era sucinta e trágica.

“Estou pra morrer. Já fiz de tudo e não aprendo nada em cursos de teatro. O que eu devo fazer?”

A minha resposta: “Morra”.

Não se aprende teatro em cursos de teatro. Menos ainda em oficinas de teatro. Esses lugares só nos ensinam o que não podemos (devemos) fazer. “Fazer teatro” não comporta transmissão. Nenhuma arte comporta. Se alguém disser o contrário está mentindo. Terrivelmente. Tenha vergonha na cara e não engane mais garotinhos rosados atrás de sonhos caramelados, seu safado teatral.

A verdade é que estamos irremediavelmente sós. Para aprender teatro é preciso estar nas trincheiras. Notar como as engrenagens não funcionam (cursos e oficinas só mostram como as coisas, aparentemente, funcionam). O defeito (a precariedade) é o que nos forma, o que nos faz ver mais e melhor. É no defeito (na imperfeição, no ruído dissonante) que encontramos o traço original, por assim dizer. Não há romantismo algum aqui, que fique bem claro.

Ver teatro é mais importante do que fazer. É preciso ver antes. E ver novamente. Ver pra valer. Não ver pra discutir em roda, em posição de lótus, mascando chiclete (fazendo bolinha) e dizendo que adorou o jeito como aquele ali, sabe, interrompia o fluxo discursivo. Ou como aquela lá, ó, sabia respirar corretamente mas movia-se como uma bailarina acima do peso e acometida por escoliose.

Ver teatro é ato individual, íntimo, pessoal. Ver teatro não é sair do teatro dizendo é bom ou ruim, ou qual a mensagem daquilo tudo, assim, de uma vez. Ver teatro silencia a gente de tal forma que o que fica conosco não fica aparente. Daí a impossibilidade de tornar o visto discurso e tal (num primeiro momento). A gente sabe que viu o que viu mas não sabe como tornar aquilo algo dizível. O teatro é isso. Ou não é nada.

Se você aí quer realmente aprender teatro, rapaz, esteja disposto a entrar nas trincheiras e por lá permanecer. Reflita mais sobre e fale menos (melhor: não fale). Encontre aqueles que o farão ver algo que nenhuma escola é capaz de mostrar. Eles estão aí.

A casa amarela (3/5) é um Gero Camilo ainda mais pessoal (como se isso fosse possível) do que de costume. Ele faz Van Gogh. Melhor seria dizer que Van Gogh faz Gero Camilo. Aí está, rapaz: o que Gero faz não há escola (ou professor) que ensine. Ele estudou teatro, você dirá pra mim. Sim, estudou. Mas: não foi isso que o moldou. Isso, atirando longe, o instrumentalizou (é isso que escolas fazem: instrumentalizam). Só. O resto (o essencial) só se aprende lá, sujando as botas, indo de encontro aos que fazem. Observar, observar, observar.

Ao observar Gero Camilo eu dizia baixinho, pra não quebrar o estado de graça e tal: aí está o que distingue o impulso verdadeiro da impostura. Alguém que faz o que faz porque precisa fazer. Repito: é um monólogo pessoal. Mais do que descrever ou acompanhar os passos de Van Gogh, o que importa a Gero é a cartografia dum artista. O que é que motiva alguém a optar (como se opção houvesse) por narrar ao invés de viver? O que faz com que alguém viva através do que faz e não do que vive? Em outras palavras: o que é um artista?

Na outra ponta, também um monólogo, Chico Diaz aparece com Campos de Carvalho (você ainda não leu Campos de Carvalho; leia) e seu A lua vem da Ásia (3/5). Poderia estender facilmente o que disse de Gero a Chico Diaz, com um acréscimo. A dramaturgia aqui é dinamite pura. De início, fogo pálido. Chico testa o canal. Testa os destinatários. Daí pra frente é solavanco. Declives. Aclives. Tudo a nos dizer, desesperadamente, que viver é ato contínuo de mutilação, desamparo, solidão. A lua vem da Ásia é o nosso Memórias do subsolo. E Chico Diaz (Campos de Carvalho) o nosso homem do subsolo.

Pois é, rapaz. Eles estão aí. Suje as botas.

Num comentário de Pedro Costa acerca do trabalho de Chaplin, sobretudo, ele diz que os grandes artistas, em seus trabalhos derradeiros, alcançam uma linha pura, muito clara, muito japonesa. E sentencia: “Esses filmes (seus últimos trabalhos) falam sobre uma única coisa: a vida”.

Mike Leigh está longe do ocaso da vida (assim espero), não obstante Another year é um desses filmes que Pedro Costa toma como filmes essenciais. Filmes puros, por assim dizer. Filmes em que os efeitos, a sedução ou as alusões engenhosas ficam à margem.

Another year (4/5) é um filme cíclico sem ciclo. Explico: o filme toma como estrutura temporal (e por que não temática) as quatro estações do ano (não se engane: Mike Leigh é argumentista notável, portanto esqueça o paradigma circular aprazível), mas ao invés de voltar ao ponto de origem, no caso a primavera, acaba por fechar o círculo no inverno mesmo, estação nada afeita a bons sentimentos e enganadoramente propícia a bolinhos de chuva.

Furto-me de descrever os pormenores da estória e tudo mais, mas acrescento: é possivelmente o melhor roteiro do ano; o plantel de atores é sóbrio, e as personagens são do tipo em que a gente pode realmente tocar e dizer elas respiram; Lesley Manville é maior, mais viva, mais grave e tocante que Melissa Leo ou que qualquer uma das concorrentes ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, mas ela sequer foi mencionada para a honraria; desde Segredos e mentiras Leigh não era tão preciso e íntimo e verdadeiro quanto agora, em Another year.

O filme abre com uma pergunta para a personagem de Imelda Staunton (pergunta essa estendida a nós): “Você se recorda de algum momento feliz? De algum momento de felicidade?” “Não”, ela diz. De alguma forma Mike Leigh, com Another year, responde a essa pergunta de diferentes maneiras. Nenhuma das respostas esconde (ou encerra) a verdade aterradora da pergunta, o que torna o filme ainda mais agudo.

Há um conto de Raymond Carver que se chama Gordo e que fala de uma garçonete que conta a outra sobre um gordo que aparece no restaurante. Aparentemente banal, de uma banalidade à Carver, eu fui para cama essa noite pensando nele (no conto).

Esse gordo é a pessoa mais gorda que eu já vi na vida, mas tem uma boa aparência e se veste muito bem. Tudo nele é grande. Mas é dos dedos que eu me lembro mais. Quando paro a uma mesa perto da mesa dele para cuidar do casal de velhos, a primeira coisa que noto são os dedos. Parecem ter três vezes o tamanho dos dedos de uma pessoa normal – compridos, grossos, gordurosos.

A descrição aí também é prosaica e não há desfecho epifânico ou coisa que o valha. E daí eu noto que o conto me tirou o sono (poucas coisas me tiram o sono) por duas razões nada ocultas: durante a leitura do conto eu senti algo como uma fome dantesca, e comecei a imaginar o sofrimento de pessoas gordas como o gordo e como ele tentava disfarçar a fome tecendo comentários do tipo Pois é, está muito bom, e não estamos falando por falar. Não é todo dia que podemos comer um pão assim.

Esse é o tipo de comentário digressivo mais babaca do mundo porque obviamente seu interlocutor sabe muito bem que você, na verdade, está tentando desviar o assunto central que é o quanto mais esse gordo será capaz de engolir.

Ok. Mas não é aí que reside o problema: a minha insônia foi ativada pela fome sem precedentes (razão 1) e por duas sentenças (razão 2).

Minha vida vai mudar. Sinto isso.

Sentenças banais? Sim, concordo, banais.

O gordo, portanto, desvia nossa atenção do ponto nevrálgico do conto: a garçonete era um pessoa de uma melancolia assaz presente e de uma crença inalienável no rumo futuro de sua vida.

Ela tinha convicção de que sua vida mudaria dali em diante. O gordo, de alguma maneira, a fez ver isso. E aí vocês dirão que isso é, objetivamente, um momento de revelação (epifânico, pois) da personagem. E eu digo o inverso: ela não viu nada no gordo além do sobrepeso e da gordura ali instalada. O gordo não passava de um gordo qualquer, maior do que outros gordos que ela já tinha visto, mas ainda assim apenas um gordo.

A garçonete acredita que sua vida irá mudar porque não poderia ficar pior. É uma esperança à revelia da esperança. É, sobretudo, uma epifania antiepifânica.

Minha vida vai mudar. Sinto isso.

Duas sentenças banais como essas (e a fome patológica) me fizeram rolar de um lado para o outro na cama, por horas. Elas devem dizer mais sobre mim do que eu imagino.