
Algumas pessoas me mandam perguntas. Algumas pessoas acreditam que eu tenha respostas para estas perguntas. A última pergunta era sucinta e trágica.
“Estou pra morrer. Já fiz de tudo e não aprendo nada em cursos de teatro. O que eu devo fazer?”
A minha resposta: “Morra”.
Não se aprende teatro em cursos de teatro. Menos ainda em oficinas de teatro. Esses lugares só nos ensinam o que não podemos (devemos) fazer. “Fazer teatro” não comporta transmissão. Nenhuma arte comporta. Se alguém disser o contrário está mentindo. Terrivelmente. Tenha vergonha na cara e não engane mais garotinhos rosados atrás de sonhos caramelados, seu safado teatral.
A verdade é que estamos irremediavelmente sós. Para aprender teatro é preciso estar nas trincheiras. Notar como as engrenagens não funcionam (cursos e oficinas só mostram como as coisas, aparentemente, funcionam). O defeito (a precariedade) é o que nos forma, o que nos faz ver mais e melhor. É no defeito (na imperfeição, no ruído dissonante) que encontramos o traço original, por assim dizer. Não há romantismo algum aqui, que fique bem claro.
Ver teatro é mais importante do que fazer. É preciso ver antes. E ver novamente. Ver pra valer. Não ver pra discutir em roda, em posição de lótus, mascando chiclete (fazendo bolinha) e dizendo que adorou o jeito como aquele ali, sabe, interrompia o fluxo discursivo. Ou como aquela lá, ó, sabia respirar corretamente mas movia-se como uma bailarina acima do peso e acometida por escoliose.
Ver teatro é ato individual, íntimo, pessoal. Ver teatro não é sair do teatro dizendo é bom ou ruim, ou qual a mensagem daquilo tudo, assim, de uma vez. Ver teatro silencia a gente de tal forma que o que fica conosco não fica aparente. Daí a impossibilidade de tornar o visto discurso e tal (num primeiro momento). A gente sabe que viu o que viu mas não sabe como tornar aquilo algo dizível. O teatro é isso. Ou não é nada.
Se você aí quer realmente aprender teatro, rapaz, esteja disposto a entrar nas trincheiras e por lá permanecer. Reflita mais sobre e fale menos (melhor: não fale). Encontre aqueles que o farão ver algo que nenhuma escola é capaz de mostrar. Eles estão aí.
A casa amarela (3/5) é um Gero Camilo ainda mais pessoal (como se isso fosse possível) do que de costume. Ele faz Van Gogh. Melhor seria dizer que Van Gogh faz Gero Camilo. Aí está, rapaz: o que Gero faz não há escola (ou professor) que ensine. Ele estudou teatro, você dirá pra mim. Sim, estudou. Mas: não foi isso que o moldou. Isso, atirando longe, o instrumentalizou (é isso que escolas fazem: instrumentalizam). Só. O resto (o essencial) só se aprende lá, sujando as botas, indo de encontro aos que fazem. Observar, observar, observar.
Ao observar Gero Camilo eu dizia baixinho, pra não quebrar o estado de graça e tal: aí está o que distingue o impulso verdadeiro da impostura. Alguém que faz o que faz porque precisa fazer. Repito: é um monólogo pessoal. Mais do que descrever ou acompanhar os passos de Van Gogh, o que importa a Gero é a cartografia dum artista. O que é que motiva alguém a optar (como se opção houvesse) por narrar ao invés de viver? O que faz com que alguém viva através do que faz e não do que vive? Em outras palavras: o que é um artista?
Na outra ponta, também um monólogo, Chico Diaz aparece com Campos de Carvalho (você ainda não leu Campos de Carvalho; leia) e seu A lua vem da Ásia (3/5). Poderia estender facilmente o que disse de Gero a Chico Diaz, com um acréscimo. A dramaturgia aqui é dinamite pura. De início, fogo pálido. Chico testa o canal. Testa os destinatários. Daí pra frente é solavanco. Declives. Aclives. Tudo a nos dizer, desesperadamente, que viver é ato contínuo de mutilação, desamparo, solidão. A lua vem da Ásia é o nosso Memórias do subsolo. E Chico Diaz (Campos de Carvalho) o nosso homem do subsolo.
Pois é, rapaz. Eles estão aí. Suje as botas.
