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Pedi ao médico que me deixasse a sós com meu pai, ou tão a sós quanto era possível em meio à azáfama da sala de emergência. Sentado ali e observando o seu combate para continuar a viver, tentei me concentrar no que o tumor já lhe causara. Isso não era difícil, porque naquela maca ele parecia ter lutado cem assaltos com Joe Luis. Pensei nos horrores que inevitavelmente viriam pela frente, mesmo supondo que ele pudesse ser mantido vivo num pulmão de aço. Vi tudo, tudo, e mesmo assim tive de continuar sentado lá por um longo tempo antes de chegar o mais perto dele que pude e, com os lábios quase tocando seu rosto encovado e arruinado, finalmente encontrar forças para sussurrar: “Papai, vou ter que deixar você ir embora”. Ele já estava inconsciente havia horas e era incapaz de me ouvir, mas, em choque, aturdido, chorando, repeti aquilo muitas e muitas vezes até eu mesmo acreditar no que eu dizia. 

Depois disso, só me restou seguir sua maca até o quarto onde o puseram e me sentar ao lado da cama. Morrer dá trabalho, e ele era um trabalhador. Morrer é pavoroso, e papai estava morrendo. Peguei sua mão, que ao menos eu ainda sentia como sendo sua mão, afaguei sua testa, que ao menos ainda parecia ser sua testa, e lhe disse todo o tipo de coisas que ele não podia mais registrar. Por sorte, de tudo que eu lhe disse nessa manhã, nada havia que ele já não soubesse. 

[Philip Roth, Patrimônio]

Sullivan é a ideia de liberdade, é alguém sempre em movimento, em fuga… Na verdade, é uma personagem que reenvia a outras personagens masculinas dos meus filmes anteriores… Há uma parte dele que nos escapa, que me escapa – mais facilmente domino Camille. Mas como argumentista e cineasta não tento conseguir no cinema aquilo que não consegui na vida real. Não tento ser omnisciente: aquilo que me escapa na vida quero que me continue a escapar no cinema. Não faço um filme para dominar o que me escapou na vida. Quero restituir esse sentimento [do que escapa]. De outra forma seria desonesto, mentiroso.

[Mia Hansen-Løve]

Estou me tornando um imbecil, um idiota, um filisteu. Notei isso ao olhar o caderninho de filmes, livros e peças, fora as atualizações por aqui e as circunvoluções ao redor de coisas findas (a média caiu muito; eu caí muito). Pode ser que pra você isso não passe de um interesse periférico e até vulgar, mas a verdade real e definitiva é que estou me tornando um perfeito idiota (no sentido intelectual e existencial; e nos demais sentidos). Antes eu tinha idéias, agora tudo que tenho não passa de uma ou outra impressão nanica e desprovida de autenticidade.

A sensação terrível é de que estão sulcando meu cérebro, essa máquina sensível e altamente desenvolvida. Papai me alertou muito cedo acerca dos riscos de um sistema neural limitado. “A raça humana é complexa e multifacetada, dizem por aí. Bobagem. Das grandes. A raça humana sempre foi disposta em duas categorias.” Quando papai tem uma frase de efeito, um pensamento que ele acredita ser original, ele costuma fazer pausas irritantes e prolongadas.

“Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes. O resto é alteridade solidária, convívio social e aceitação das diferenças. Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes, e nada mais. Arrume alguém interessante e tente viver alguma coisa interessante. A vida não é interessante, então arrume alguém interessante.” Por mais que eu insistisse numa definição mais rica e abrangente, papai era inflexível. Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes.

Eu entendo papai. Ele nunca gostou muito de gente. As pessoas interessantes, dentro da sua taxonomia particular, eram todas aquelas que o faziam rir. O restante não passava de seres insuportáveis, gente que ele dizia fazer ruído mesmo em silêncio.

“Se uma pessoa não te faz rir, não faz cócegas em sua caixa de ossos, o que resta a vocês dois? Não se engane, pequeno idiota: isso aí vai acabar, sempre acaba, e se você não puder rir, o que resta a vocês dois?”

Fico envergonhado e visivelmente ruborizado por estar muito mais próximo da categoria que papai sente aversão. Estou provocando ruídos em excesso. Estou altamente desinteressante. Não provoco riso em ninguém. Não rio de nada. Se eu sofresse de afetação, diria algo como eu preciso de alguma coisa urgentemente. Como afetação e disponibilidade irrestrita à vida nunca entraram na agenda, diria que o momento é de ficar ainda mais quieto. Sentado ao invés de pé. Deitado ao invés de sentado.

Tudo isso me faz pensar numa passagem de Deleuze (mais uma). Uma passagem realmente lúcida, necessária em tempos como os nossos, de expressão (excessiva) e ação (ininterrupta) inúteis. Transcrever essa passagem me acalma, me faz sorrir levemente.

Às vezes se age como se as pessoas não pudessem se exprimir. Mas de fato, elas não param de se exprimir. Os casais malditos são aqueles aqueles em que a mulher não pode estar distraída ou cansada sem que o homem diga: “O que você tem? Fala…”, e o homem sem que a mulher… etc. O rádio, a televisão, fizeram o casal transbordar, dispersaram-no por toda a parte, e estamos trespassados de palavras inúteis, de uma quantidade demente de falas e imagens. A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vácuos de solidão e de silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se exprimir, ao contrário, elas a forçam a se exprimir. Suavidade de não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer; pois é a condição para que se forme algo raro ou rarefeito, que merecesse um pouco ser dito. Do que se morre atualmente não é de interferências, mas de proposições que não têm o menor interesse. Ora, o que chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele equivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse… Por isso é tão difícil discutir, por isso não cabe discutir, nunca. Não se vai dizer a alguém: “o que você diz não tem o menor interesse”. Pode-se dizer: “está errado”. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. As noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo. Mesmo em matemática: Poincaré dizia que muitas teorias matemáticas não têm importância alguma, não interessam. Não dizia que eram falsas, era pior.

A coisa é muito simples. Eu fiz trinta anos, e ao invés da crise, da sensação de desolação, do vácuo existencial à Schopenhauer, adquiri um nível de consciência mais largo sobre o modo como devo encarar a outra metade da minha vida. Não se engane: depois dos sessenta é só sofrimento. Antes é só desespero, mas estamos tão preocupados em viver e dar um sentido à vida que acabamos nos esquecendo disso.

Do que se trata essa consciência adquirida, afinal. Essa consciência que parece surgir depois dos trinta. Depois que a maior parte das ilusões acerca das verdades primárias enfim nos força a fazer escolhas. E escolher não é se posicionar diante da vida e inventar uma existência singular, apenas. Escolher é um ato inalienável e que nos corta a todos, sem exceção. A consciência dessas escolhas é o problema.

Parece que depois dos trinta, depois de perder pessoas, depois de perder coisas, depois de perder um tipo muito subjetivo de inocência, parece que de alguma forma as escolhas pesam mais do que antes. A consciência das escolhas.

É como eu disse a uma amiga que não acredita em vida adulta. A vida adulta é um amontoado de perdas e fracassos. A vida adulta é foda.