No geral, por assim dizer, a alma é algo insondável mesmo. Eu não canso de me surpreender com a capacidade polimórfica de algumas pessoas. Com a variedade que alternam disso para aquilo e desse para aquele.
A minha esposa, noites atrás, lia Dostoiévski com a empolgação de uma adolescente num show do The Killers. Sei que a comparação parece um tanto absurda, descabida até, mas pude observar, olhos marejados, que a estória de Noites brancas foi capaz de deixá-la imersa num tipo de experiência estética, ou orgástica, se preferirem, sem precedentes. Engano meu: algo semelhante ocorre quando ela escuta palavras como Lemmy ou Motörhead. Não estou aqui cotejando Motörhead com Doistoiévski, nada disso. Estou simplesmente afirmando que não há como investigar a alma humana apoiando-se em um ou mais dados. É preciso observar de maneira mais detida. É preciso uma certa constância. É preciso conviver com essa alma instável para traçar uma linha coerente.
Há dez anos eu acompanho a alma desnorteada e temperamental da minha esposa. Há dez anos eu conservo dúvidas. Há dez anos eu procuro rascunhar um perfil dela. Sem sucesso. Repito: noites atrás ela lia Dostoiévski. Noites anteriores ela me sacudia, fazendo com que acordasse e fosse até à sala para formar uma palavra num desses jogos televisivos apresentados por loiras anoréxicas que fizeram aula de canto parcialmente e ficaram restritas aos agudos.
Insistia de maneira violenta: “Acerta essa daí, ó. Vai, acerta, quero vê!”, e sorria diabolicamente. “Eu realmente não sei, Jaq”, disse ainda não refeito do susto de ser acordado no meio da noite e, mais, de ser levado a participar de algo que eu, dotado das minhas faculdades mentais, não participaria.
“A palavra é beija-flor, tonto. Vai dormir, vai.”
Eu pensei em dizer alguma coisa antes de voltar pra cama, mas ela estava num nível de felicidade inatingível para alguém como eu. Um dos segredos da Jaq é saber rir disso tudo. E talvez aí é que resida a graça de estar vivo.