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As crianças sentem um prazer especial em se esconder. E não para serem descobertas no final. Há, no próprio fato de ficarem escondidas, no ato de se refugiarem na cesta de roupa ou no fundo de um armário, no de se encolherem num canto do sótão até quase desaparecer, uma alegria incomparável, uma palpitação especial, a que não estão dispostas a renunciar por nenhum motivo. É dessa palpitação infantil que provêm tanto a volúpia com que Walser garante as condições de sua ilegibilidade (os microgramas) como o desejo obstinado de Benjamin de não ser reconhecido. Eles são os guardas da glória solitária, que sua toca um dia revelou à criança. De fato, o poeta celebra seu triunfo no não reconhecimento, exatamente como a criança que se descobre trepidando como o genius loci de seu esconderijo.

[Giorgio Agamben, Profanações]

Minha filha brinca com animais mortos no quintal. Ela os alimenta, ansiosa pra que voltem a respirar. Os animais, na verdade, são insetos (sua mãe os aniquila com requintes de crueldade). O alimento, como ela diz, se compõe de diferentes tipos de salgadinho e uma porção de bolachas recheadas, acrescidas de molho de tomate. Ela insiste em dizer que as bolachas recheadas têm mais nutrientes que às demais, secas e planas. Uma vez ou outra um inseto é carregado por formigas, e minha filha urra de felicidade, satisfeita por ter injetado alguma vida em algo morto.

“Esses bichinhos não morrem, eles só são preguiçosos e dormem muito, né, pai?”, ela pergunta enquanto enfia uma rodela de bolacha na boca de um tatu que mais parece um disco de pizza. E ficamos por ali, alimentando a fábula.

(Minha esposa e filha em foto tirada no Sesc Pompéia em fevereiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“Suponho que minhas superstições podem ser consideradas idiossincrasias. Tenho que somar todos os números: há pessoas para as quais nunca telefono porque o somatório de seus números dá um total funesto. Ou eu não aceitaria um quarto de hotel, pela mesma razão. Não tolero a presença de rosas amarelas – o que é triste, porque é minha flor preferida. Não posso admitir três pontas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajo num mesmo avião com duas freiras. Não começo nada às sextas-feiras. São infinitas as coisas que não posso fazer ou jamais faria. Mas obedecer a esses conceitos primitivos me dá um curioso conforto.”

[Truman Capote, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

No geral, por assim dizer, a alma é algo insondável mesmo. Eu não canso de me surpreender com a capacidade polimórfica de algumas pessoas. Com a variedade que alternam disso para aquilo e desse para aquele.

A minha esposa, noites atrás, lia Dostoiévski com a empolgação de uma adolescente num show do The Killers. Sei que a comparação parece um tanto absurda, descabida até, mas pude observar, olhos marejados, que a estória de Noites brancas foi capaz de deixá-la imersa num tipo de experiência estética, ou orgástica, se preferirem, sem precedentes. Engano meu: algo semelhante ocorre quando ela escuta palavras como Lemmy ou Motörhead. Não estou aqui cotejando Motörhead com Doistoiévski, nada disso. Estou simplesmente afirmando que não há como investigar a alma humana apoiando-se em um ou mais dados. É preciso observar de maneira mais detida. É preciso uma certa constância. É preciso conviver com essa alma instável para traçar uma linha coerente.

Há dez anos eu acompanho a alma desnorteada e temperamental da minha esposa. Há dez anos eu conservo dúvidas. Há dez anos eu procuro rascunhar um perfil dela. Sem sucesso. Repito: noites atrás ela lia Dostoiévski. Noites anteriores ela me sacudia, fazendo com que acordasse e fosse até à sala para formar uma palavra num desses jogos televisivos apresentados por loiras anoréxicas que fizeram aula de canto parcialmente e ficaram restritas aos agudos.

Insistia de maneira violenta: “Acerta essa daí, ó. Vai, acerta, quero vê!”, e sorria diabolicamente. “Eu realmente não sei, Jaq”, disse ainda não refeito do susto de ser acordado no meio da noite e, mais, de ser levado a participar de algo que eu, dotado das minhas faculdades mentais, não participaria.

“A palavra é beija-flor, tonto. Vai dormir, vai.”

Eu pensei em dizer alguma coisa antes de voltar pra cama, mas ela estava num nível de felicidade inatingível para alguém como eu. Um dos segredos da Jaq é saber rir disso tudo. E talvez aí é que resida a graça de estar vivo.