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Filmes

Malu de bicicleta, Flávio R. Tambellini (2/5)

Passe livre, Bobby Farrelly e Peter Farrelly (3/5)

Potiche, François Ozon (2.5/5)

Singularidades de uma rapariga loura, Manoel de Oliveira (5/5)

Chantal Akerman, de cá, Gustavo Beck e Leonardo Ferreira (3.5/5)

Adolescentes em fúria, Johannes Roberts (0/5)

Stake land, Jim Mickle (3/5)

Reflexões de um liquidificador, André Klotzel (3/5)

Meia-noite em Paris, Woody Allen (4/5)

Belair, Noa Bressane e Bruno Safadi (3.5/5)

Red, white and blue, Simon Rumley (3/5)

Toute une nuit, Chantal Akerman (5/5)

Na companhia de homens, Neil LaBute (3/5)

Pequeno príncipe, Stanley Donen (3/5)

Três homens numa noite fria, Mika Kaurismäki (2.5/5)

Les rendez-vous d’Anna, Chantal Akerman (5/5)

A casa, Gustavo Hernández (2.5/5)

Peças

Navalha na carne, Rubens Camelo (3/5)

Luis Antônio – Gabriela, Nelson Baskerville (3/5)

Otro, Enrique Diaz e Cristina Moura (3/5)

Sem Pensar, Luiz Villaça (0/5)

Psychopathia Sexualis, Roberto Alvim (2.5/5)

Depressões, Juliana Galdino (3/5)

Trilhas sonoras de amor perdidas, Felipe Hirsch (3/5)

Pterodátilos*, Felipe Hirsch (3.5/5)

La omisión de la família Coleman, Claudio Tolcachir (5/5)

Livros

Mitologias, Roland Barthes (5/5)

O código dos códigos, Northrop Frye (4/5)

Que horas são?, Roberto Schwarz (3.5/5)

* Revistos/relidos


Leonardo Luiz - Na maioria de seus filmes, você gosta de utilizar um quadro dentro do quadro (algo mais vívido em A Prisioneira) composto por uma parede, porta, janela e corredores, que criam planos simétricos. Fale um pouco sobre a sua composição de imagem.

Chantal Akerman - É um segredo (risos). Eu não estou interessada em naturalismo e quando você é muito frontal e simétrica está fora do naturalismo; você já tem assim a sua própria estilização. Quando estava fazendo Jeanne Dielman e uma menina que estava fazendo o frame me perguntou: por que você não disse logo que era simétrico? E eu respondi que não sabia, que estava procurando. E quando sinto que é bom, é bom. Eu tento não fazer e penso comigo mesma: eu farei isso a minha vida toda? Às vezes até me forço a não fazer, entretanto fico triste. É uma satisfação. A relação com porta, parede, etc dá estrutura para dentro do plano e me dá a direção da mise-en-scène, que sempre preciso. Por exemplo, em Um Divã em Nova York eu tinha um corredor branco e sem portas. Então, pensei: como vou trabalhar com isso? Eu sempre falo que preciso de um corredor e de uma porta, pois de outro jeito não consigo trabalhar. Isso constrói a minha mise-en-scène.

Assisti Meia-noite em Paris (4/5) ao lado de duas senhoras praticamente cegas, que mascavam pipoca (imagine alguém mascando fumo) e faziam a sucção dos seus refrigerantes intermináveis. Perceba: eu fiquei entre as duas (não ria). As duas trocavam impressões num tom elevado (eufemisticamente falando, porque na verdade elas eram evidentemente surdas) durante o correr do filme (todo ele). Findo o filme, ainda mascando pipoca, ambas tinham comentários a fazer.

“Eu não entendi nada. Não gostei, não.”

“Eu entendi tudo, mas não gostei de nada.”

É mais ou menos assim que se divide o público dos filmes do Woody. Quando entendem, não gostam. Quando não entendem, gostam menos. Quando entendem e, aparentemente, gostam, dizem que ele se repete, que o bom Woody pertence ao passado.

Esse filme é uma resposta para essas pessoas. O passado só é bom quando não estamos nele, porque do contrário ele é o presente, e o presente é sempre ruim e tedioso. O presente nos lembra do que somos feitos. Nos lembra que fracassamos, que estamos fracassando miseravelmente.

Portanto: não digam que o melhor Woody pertence ao passado. Voltem aos filmes e notem o seguinte: eles não são necessariamente melhores, ou piores do que os da nova safra (isso só fará sentido se você realmente, verdadeiramente, sentou para ver a filmografia completa; eu duvido muito). São filmes do Woody, simplesmente. Pequenas e vibrantes variações. Todos os seus filmes se parecem porque ele habita um mundo particular. O seu mundo, pois. Há uma assinatura em cada um dos seus filmes. Os imbecis, apressados, não notam essa assinatura. Os tolos fazem comparações. Os idiotas insistem: mais do mesmo. E há ainda os outros, que preferem nem ver. Eles sempre dizem: “Eu pulo esse novo Woody; talvez numa próxima vez”.

Espero que não haja uma próxima vez. Espero que vocês continuem vendo os filmes de sempre. Há tempos eu cansei de convencer os demais do quanto Woody é singular e agudo. Do quanto é trágico e cômico, por vezes numa única frase, situação. Expliquei, em diversas ocasiões, a depuração elíptica dos seus roteiros. De nada adiantou. As pessoas riem. De mim, claro. Elas acham engraçado minha devoção e fé no homenzinho de tweed. Eu tendo a recorrer, em meu socorro,  a uma resposta do Auden. O entrevistador pergunta ao Auden se no início dos anos 30 ele escrevia para certos leitores, a fim de dar uma chacoalhada neles. Auden, como sempre, é espirituoso:

Não, apenas tento me expressar e espero que alguém vá ler o que escrevo. Me perguntam: “Para quem o senhor escreve?”. Respondo: “Você é meu leitor?”. Se dizem que sim, emendo: “E gosta do que escrevo?”. Se respondem que não, então digo: “Não escrevo para leitores como você”.

E dessa mesma maneira passei a responder aos que não conseguem ver nada nos filmes do Woody. Certamente ele não faz filmes para você, meu caro.

Daqui a alguns anos esses filmes tidos como “menores” serão “maiores”. Daqui a alguns anos não teremos mais os filmes do Woody, nem suas trilhas, nem suas idiossincrasias, nem sua melancolia, nem o seu mundo inimitável e titubeante e mágico. Decerto o cinema será mais triste. Indubitavelmente eu também serei. Mas: terei os filmes. Terei o passado. A nostalgia é um mal necessário para podermos seguir em frente.

|Ossos| É como na Idade Média, tudo se torna uma espécie de território que não começa pelo centro, mas pelo exterior, e começa a avançar por contágio. No filme, há qualquer coisa de muito doente que começa a invadir tudo (…); não há muita diferença entre os negros do bairro e os brancos da média burguesia, é a mesma coisa: os mesmos gostos, as mesmas ambições.

(Comentário de Pedro Costa)

Para além da questão socio-antropológica a perpassar Ossos, há os rostos. Aqui, como em Cassavetes (mas não de maneira análoga, evidente), há o estatuto do corpo, da face, do gesto. Nada é dito que não pela ação desses seres (não mais personagens tão-somente) em suas deambulações (circulares, circulares). A palavra é acessório enquanto o corpo verbo. As coisas começam e ter por fim um devir em suspensão, que só acena, que nos enclausura, que nos fecha a porta e nos deixa assim, a tatear o invisível.