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As crianças sentem um prazer especial em se esconder. E não para serem descobertas no final. Há, no próprio fato de ficarem escondidas, no ato de se refugiarem na cesta de roupa ou no fundo de um armário, no de se encolherem num canto do sótão até quase desaparecer, uma alegria incomparável, uma palpitação especial, a que não estão dispostas a renunciar por nenhum motivo. É dessa palpitação infantil que provêm tanto a volúpia com que Walser garante as condições de sua ilegibilidade (os microgramas) como o desejo obstinado de Benjamin de não ser reconhecido. Eles são os guardas da glória solitária, que sua toca um dia revelou à criança. De fato, o poeta celebra seu triunfo no não reconhecimento, exatamente como a criança que se descobre trepidando como o genius loci de seu esconderijo.

[Giorgio Agamben, Profanações]

É minha irmã mais nova, Lisa. Eu não a vejo, porém reconheço sua voz. Ela tem vinte e cinco anos, mas já tem uma voz – rouca de fumaça, quebrantada pela tristeza – que deveria ter levado mais vinte anos para adquirir. É o tipo de voz que, para algumas pessoas, só pode pertencer a quem sabe se divertir.    

[Bill Clegg, Retrato de um viciado quando jovem]

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(Minha esposa e filha em foto tirada no Sesc Pompéia em fevereiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“Suponho que minhas superstições podem ser consideradas idiossincrasias. Tenho que somar todos os números: há pessoas para as quais nunca telefono porque o somatório de seus números dá um total funesto. Ou eu não aceitaria um quarto de hotel, pela mesma razão. Não tolero a presença de rosas amarelas – o que é triste, porque é minha flor preferida. Não posso admitir três pontas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajo num mesmo avião com duas freiras. Não começo nada às sextas-feiras. São infinitas as coisas que não posso fazer ou jamais faria. Mas obedecer a esses conceitos primitivos me dá um curioso conforto.”

[Truman Capote, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

(Foto tirada no Sesc Pompéia em fevereiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“O que eu chamo de minha filosofia de ensino é, de fato, uma filosofia de aprendizado. É de Platão, modificada. Antes que o verdadeiro aprendizado possa ocorrer, eu acredito, tem de haver no coração do estudante um certo anseio pela verdade, um certo fogo. O verdadeiro estudante arde de desejo de aprender. No professor, ele reconhece, ou percebe, a pessoa que chegou mais perto da verdade do que ele próprio. Tanto ele deseja a verdade incorporada no professor, que está preparado a queimar sua antiga identidade para obter a verdade. De sua parte, o professor identifica e encoraja o fogo do estudante e reage a ele queimando com uma luz mais intensa. Assim, os dois juntos atingem um âmbito superior. Por assim dizer.”

[J.M.Coetzee, Verão]

(A casa da minha vó em foto tirada em janeiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“Um homem velho é alguém que não necessita de nada além de si mesmo. Quando chegamos ao que chamamos velhice, estamos apenas velhos. Apenas isso. De alguma maneira nos tornamos mais atentos, pois estamos velhos. Não precisamos seduzir, não precisamos mais dos efeitos.”

[Pedro Costa aludindo a um comentário de Gilles Deleuze]

(Minha avó em foto tirada em janeiro de 2011; clique na imagem para ver em alta)

“Mas agora, em vez de terminar, a coisa continuou; agora não se passava um ano sem que ele fosse hospitalizado. Filho de pais longevos, com um irmão seis anos mais velho que parecia tão saudável quanto no tempo em que jogava no time do colegial, ele estava ainda na casa dos sessenta quando sua saúde começou a ir a pique; seu corpo parecia estar o tempo todo ameaçado. Havia se casado três vezes, tivera amantes, filhos e um emprego interessante em que conhecera o sucesso, mas agora fugir da morte se tornara a ocupação principal de sua vida, e toda sua história se resumia ao processo de decadência do corpo.”

[Philip Roth, Homem Comum]