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CP: Você se sente célebre e clandestino? Você gosta dessa noção de clandestinidade.

GD: Gosto, mas não me sinto célebre. Não me sinto clandestino. Gostaria de ser imperceptível. Muita gente gostaria. Isso não significa que eu não o seja. Ser imperceptível é bom porque podemos… Mas essas são questões quase pessoais. O que eu quero é fazer meu trabalho, que não me perturbem e não me façam perder tempo. Ao mesmo tempo, ver pessoas. Sou como todo mundo. Gosto das pessoas, de um pequeno número de pessoas. Gosto de vê-las, mas, quando as vejo, não quero que seja um problema. Relações imperceptíveis com pessoas imperceptíveis é o que há de mais bonito no mundo. Todos nós somos moléculas. Uma molécula numa rede, uma rede molecular.

Um pai que fuma, uma mãe que esquece, um filho que vai embora, uma filha que fica grávida, uma mãe que se separa, os filhos que não estão nem aí, um pai que morre, uma filha que morre, uma mãe que fica, uma mãe que decide morrer, um filho que volta, um filho que se lembra, os cachorros que estão por ali, o tempo que passa, as pessoas de quem lembramos, o lugar para onde queremos ir e o lugar de onde nunca saímos. 

O interessante nunca é a maneira pela qual alguém começa ou termina. O interessante é o meio, o que se passa no meio. Não é por acaso que a maior velocidade está no meio. As pessoas sonham frequentemente em começar ou recomeçar do zero, e também têm medo do lugar aonde vão chegar, de seu ponto de queda. Pensam em termos de futuro ou de passado, mas o passado, e até mesmo o futuro, é história. O que conta, ao contrário, é o devir: devir-revolucionário, e não o futuro ou o passado da revolução. “Não chegarei a lugar nenhum, não quero chegar a lugar nenhum. Não há chegadas. Não me interessa aonde uma pessoa chega. Um homem pode também chegar à loucura. O que isto quer dizer? “É no meio que há o devir, o movimento, a velocidade, o turbilhão. O meio não é uma média, e sim, ao contrário, um excesso. É pelo meio que as coisas crescem. Era a ideia de Virginia Woolf. Ora, o meio não quer dizer abolutamente estar dentro de seu tempo, ser de seu tempo, ser histórico; ao contrário: é por meio do qual os tempos mais diferentes se comunicam. Não é nem o histórico nem o eterno, mas o intempestivo. E um autor menor é justamente isso: sem futuro nem passado, ele só tem um devir, um meio pelo qual se comunica com outros tempos, outros espaços. 

[Gilles Deleuze, Sobre o teatro]

Filmes

Caça às bruxas, Dominic Sena (0/5)

It’s kind of a funny story, Anna Boden e Ryan Fleck (2.5/5)

Catfish, Henry Joost e Ariel Schulman (3/5)

Ervas daninhas*, Alain Resnais (5/5)

Filme socialismo, Jean-Luc Godard (5/5)

Histórias de amor duram apenas 90 minutos, Paulo Halm (2/5)

Stella, Sylvie Verheyde (2.5/5)

Badlands, Terrence Malick (4/5)

Days of heaven, Terrence Malick (4/5)

O mundo odeia-me, Ida Lupino (4/5)

Rede de intrigas, Sidney Lumet (5/5)

Quando você viu seu pai pela última vez, Anand Tucker (2/5)

Jack goes boating, Philip Seymour Hoffman (2/5)

O sentido da vida*, Terry Jones (3.5/5)

Breves entrevistas com homens hediondos, John Krasinski (0/5)

O discurso do rei, Tom Hooper (2.5/5)

Blue valentine*, Derek Cianfrance (4/5)

Directed by John Ford, Peter Bogdanovich (3/5)

Ricardo III – um ensaio*, Al Pacino (3/5)

Procedimento operacional padrão*, Errol Morris (2/5)

Bonequinha de luxo*, Blake Edwards (4/5)

127 horas, Danny Boyle (2/5)

O espantalho, Jerry Schatzberg (5/5)

Vengeance, Johnnie To (4/5)

A erva do rato*, Júlio Bressane (3/5)

Peças

Anticlássico, Alessandra Colasanti (3/5)

À meia-noite um solo de sax na minha cabeça, Mário Bortolotto (3/5)

Livros

Diálogos, Gilles Deleuze (4/5)

The zoo story, Edward Albee (5/5)

Cachalote, Daniel Galera e Rafael Coutinho (3/5)

* Revistos/relidos

É difícil “se explicar” – uma entrevista, um diálogo, uma conversa. A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que ela me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não tem muito o que dizer. A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução. Nada disso acontece em uma entrevista, em uma conversa, em uma discussão. Nem mesmo a reflexão de uma, duas ou mais pessoas basta. E muito menos a reflexão. Com as objeções é ainda pior. Cada vez que me fazem uma objeção, tenho vontade de dizer: “Está certo, está certo, passemos a outra coisa.” As objeções nunca levaram a nada. O mesmo acontece quando me colocam uma questão geral. O objetivo não é responder a questões, é sair delas.
(Gilles Deleuze)

No mais recente e mesmerizante filme de JLC (pessoas monótonas acharam o filme monótono), antes de subirem os créditos, lemos No Comment em letras brancas num fundo negro. Esse comentário não-comentário resume um estado de coisas que ando sentindo quando, de frente para o espelho, noto que não há muito mais a dizer. No meu mundo ideal as pessoas só abririam a boca para comer e bocejar, quando muito para dizer obrigado e adeus.

Aos íntimos, recomendo: falem menos. Falem pouco. Falem o essencial. Melhor: não falem. Eu sei da dificuldade que é pra manter isso num nível aceitável e ainda assim ter pessoas à sua volta, querendo partilhar da sua companhia, sobretudo porque ninguém quer alguém a tiracolo que desistiu de expressar o que sente diante dessa belezura que é o mundo, vasto e amplo e tão colorido, mas o esforço vale a pena.

E vejam por outro lado: as pessoas opinam o tempo todo, e gostam disso (amam isso), afinal opinar é o equivalente a estar vivo (pensam), então faça o oposto por um dia: não fale. Simplesmente observe. Escute mais. Ou finja que está escutando (isso requer prática). Pense: todos mudos (ou monossilábicos) por um dia. Apenas expressões faciais e ruídos ininteligíveis. Seria como atingir o nirvana.

Imagine que você está participando daqueles virais abrace alguém hoje, sorria pra alguém hoje, beije alguém hoje. Talvez dessa forma você consiga, enfim, encontrar o silêncio. Atitudes coletivas te fazem bem, não é mesmo? Pois então: fique em silêncio hoje.

No meu mundo ideal nós leríamos Deleuze e veríamos Caetano Veloso apenas como compositor acima da média; aliás: é o que ele é. Como esse mundo ideal não existe, racionei minha competência verbal e estou atingindo efeitos fisionômicos invejáveis. Todavia o cinema mudo tenha morrido, o mercado de modelo vivo permanece em expansão, o que só contribui para o meu estado atual.

Leio e releio Deleuze. No breve trecho que segue, Deleuze, ao comentar a obra de Foucault, faz uma distinção entre saber, poder e uma via alternativa, a da subjetivação.

Não se trata mais de formas determinadas, como no saber, nem de regras coercitivas, como no poder: trata-se de regras facultativas que produzem a existência como obra de arte, regras ao mesmo tempo éticas e estéticas que constituem modos de existência ou estilos de vida (mesmo o suicídio faz parte delas).

[Conversações, Gilles Deleuze]

Retorno às aulas na próxima semana. Isso quer dizer que as férias estão no fim (já acabaram, na verdade, pois as reuniões intermináveis começaram). Algumas vezes, poucas, penso ter escolhido a profissão errada. Outras, penso que fiz a única escolha possível. E outras, mais otimistas, imagino que era o caminho natural, um tipo de vocação arbitrária, intrusa.

Gilles Deleuze, no Abecedário de Gilles Deleuze, diz algo importante acerca dos professores. Algo que esquecemos (eu, inclusive).

Claire Parnet: Então, P é de Professor. Hoje, você tem 64 anos e, durante quase 40 anos, você foi professor, primeiro do ensino médio, depois, na universidade. Este ano é o primeiro sem aulas. Você sente falta das aulas? Você disse que dava aula com paixão. Você sente falta de dar aula hoje?

Gilles Deleuze: Não, absolutamente. É verdade que foi a minha vida, que foi uma parte muito importante da minha vida. Eu gostava muito de dar aula, mas, quando me aposentei, foi uma alegria porque eu já não tinha tanta vontade de dar aula. A questão das aulas é muito simples. Acho que as aulas têm equivalentes em outras áreas. Uma aula é algo que é muito preparado. Parece muito com outras atividades. Se você quer 5 minutos, 10 minutos de inspiração, tem de fazer uma longa preparação. Para ter esse momento de… Se não temos… Eu vi que, quanto mais fazia isso… Sempre fiz isso, eu gostava. Eu me preparava muito para ter esses momentos de inspiração. Com o passar do tempo, percebi que precisava de uma preparação crescentemente maior para obter uma inspiração cada vez menor. Então, estava na hora… Não me sinto privado porque gostei de dar aula, mas era algo de que eu precisava menos. Resta-me escrever, o que comporta outros problemas. Não me arrependo. Mas gostei profundamente de dar aulas.

Claire Parnet: Preparar muito significava quanto tempo de preparação?

Gilles Deleuze: Tenho de refletir. Como tudo, são ensaios. Uma aula é ensaiada. É como no teatro e nas cançonetas, há ensaios. Se não tivermos ensaiado o bastante, não estaremos inspirados. Uma aula quer dizer momentos de inspiração, senão não quer dizer nada.

Claire Parnet: Você não ensaiava diante do espelho, não é?

Gilles Deleuze: Não, cada atividade tem seus modos de inspiração. Mas não há outra palavra a não ser pôr algo na cabeça e conseguir achar interessante o que é dito. Se o orador não acha interessante o que está dizendo… Nem sempre achamos interessante o que dizemos. E não é vaidade, não é se achar interessante ou fascinante. É preciso achar a matéria da qual tratamos, a matéria que abraçamos, fascinante. Às vezes, temos de nos açoitar. Não que seja desinteressante, a questão não é essa. É necessário chegar ao ponto de falar de algo com entusiasmo. O ensaio é isso. Eu precisava menos disso. E as aulas são algo muito especial. Uma aula é um cubo, ou seja, um espaço-tempo. Muitas coisas acontecem numa aula. Nunca gostei de conferências porque se trata de um espaço-tempo pequeno demais. Uma aula é algo que se estende de uma semana a outra. É um espaço e uma temporalidade muito especiais. Há uma seqüência. Não podemos recuperar o que não conseguimos fazer. Mas há um desenvolvimento interior numa aula. E as pessoas mudam entre uma semana e outra. O público de uma aula é algo fascinante.