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breu apresenta um recorte temporal e um momento histórico precisos, a ditadura. Em períodos de exceção, o melhor é não dizer nada. Falar sobre a ditadura no Brasil por uma via ficcional nunca foi fácil. As pessoas fazem barulho, exigem elementos factuais, apontam imprecisões, cobram austeridade e rigidez ao relato e tal. Daí que a opção enviesada de Pedro Brício na construção da dramaturgia não poderia ser mais acertada.

Duas mulheres se encontram numa cozinha. Uma delas tem algo a esconder. A outra tem algo que não quer mostrar. Falta luz, literal e metaforicamente. Há coisas que jamais serão ditas. Há coisas que nunca podem ser ditas. Interrupção, supressão, intervalo. Não se trata apenas de uma dramaturgia de contenção e precisão admiráveis. Trata-se, sobretudo, de tensionar um espaço, de tensionar uma situação, de tensionar um conflito (o que soa redundante, embora não seja), de estabelecer e fixar desde o primeiro momento, desde a primeira enunciação, e até mesmo antes dela, um campo de incertezas e lacunas que não serão locupletadas durante o percurso dramático. Estamos, tal como a personagem cega, tateando no escuro atrás de respostas que não deixarão de ser perguntas.

Seria pouco dizer que a iluminação tem o mesmo peso que os demais elementos cênicos. Em breu a iluminação é um dispositivo de aproximação e detalhamento como poucas vezes eu pude experenciar no teatro. Fazendo uso de uma analogia rasteira, diria que a iluminação nessa peça ocupa um nível semelhante ao da decupagem de um filme, as escolhas dos planos, a consciência destes em relação ao conteúdo e a forma pretendida.

O teatro, em contraponto ao cinema, sempre foi um território de pequenos espaços. Reduzir tudo ao mínimo. Uma noite. Duas atrizes. Alguém fala. Alguém escuta. Pode ser que tenha acontecido dessa ou daquela maneira, não importa (só a imaginação importa, vale alguma coisa). Pode ser que aquela noite acabe muito mal. Pode ser. Quando o teatro toca a vida o mistério persiste.

Gosto dos musicais onde os atores não sabem cantar, mas cantam. Gosto do cinema de Roy Andersson, onde os rostos, singulares, nos dizem coisas para além dos próprios rostos. Gosto dos filmes do Abel Ferrara, sobretudo pela imprecisão, pelo erro, pela falta. A intensidade das coisas não se mede pela precisão delas. A intensidade das coisas se mede pela altura que elas atingem.

Máquina de dar certo é um espaço no qual atores dançam (o ruído da encenação reside, entre outras coisas, no fato de que eles não sabem dançar). É importante dizer que a peça é antes de mais nada um espaço (ocupar um espaço, um território). É antes um deslocamento que um acontecimento dramatúrgico. É pelo excesso, por aquilo que escapa, que transborda, que o movimento existe. Trata-se de esgotar todas as possibilidades de um corpo. Trata-se de esgotar um espaço. Trata-se de esgotar uma potência. Trata-se de ir ao limite. Embora a encenação parta de premissas teóricas bem claras, de experimentos “psi”, de linhas definidas e marcas acentuadas, a liberdade da cena vagueia e racha as formas, as linhas, as marcas, o centro. Ao invés do centro, as bordas. Em lugar de um sistema, conjunto, o fora. É por fora e pelo meio que as coisas crescem. É realmente instigante o modo como a todo instante se  instaura um campo de desestabilizações, buracos, fissuras. Quando algo vai ganhando corpo e estabilidade, fluxo apreensível, alguma coisa irrompe pra gerar uma outra coisa. É nesse processo de criação/destruição que Máquina de dar certo se efetiva, provoca e estimula os sentidos.

Estou me tornando um imbecil, um idiota, um filisteu. Notei isso ao olhar o caderninho de filmes, livros e peças, fora as atualizações por aqui e as circunvoluções ao redor de coisas findas (a média caiu muito; eu caí muito). Pode ser que pra você isso não passe de um interesse periférico e até vulgar, mas a verdade real e definitiva é que estou me tornando um perfeito idiota (no sentido intelectual e existencial; e nos demais sentidos). Antes eu tinha idéias, agora tudo que tenho não passa de uma ou outra impressão nanica e desprovida de autenticidade.

A sensação terrível é de que estão sulcando meu cérebro, essa máquina sensível e altamente desenvolvida. Papai me alertou muito cedo acerca dos riscos de um sistema neural limitado. “A raça humana é complexa e multifacetada, dizem por aí. Bobagem. Das grandes. A raça humana sempre foi disposta em duas categorias.” Quando papai tem uma frase de efeito, um pensamento que ele acredita ser original, ele costuma fazer pausas irritantes e prolongadas.

“Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes. O resto é alteridade solidária, convívio social e aceitação das diferenças. Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes, e nada mais. Arrume alguém interessante e tente viver alguma coisa interessante. A vida não é interessante, então arrume alguém interessante.” Por mais que eu insistisse numa definição mais rica e abrangente, papai era inflexível. Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes.

Eu entendo papai. Ele nunca gostou muito de gente. As pessoas interessantes, dentro da sua taxonomia particular, eram todas aquelas que o faziam rir. O restante não passava de seres insuportáveis, gente que ele dizia fazer ruído mesmo em silêncio.

“Se uma pessoa não te faz rir, não faz cócegas em sua caixa de ossos, o que resta a vocês dois? Não se engane, pequeno idiota: isso aí vai acabar, sempre acaba, e se você não puder rir, o que resta a vocês dois?”

Fico envergonhado e visivelmente ruborizado por estar muito mais próximo da categoria que papai sente aversão. Estou provocando ruídos em excesso. Estou altamente desinteressante. Não provoco riso em ninguém. Não rio de nada. Se eu sofresse de afetação, diria algo como eu preciso de alguma coisa urgentemente. Como afetação e disponibilidade irrestrita à vida nunca entraram na agenda, diria que o momento é de ficar ainda mais quieto. Sentado ao invés de pé. Deitado ao invés de sentado.

Tudo isso me faz pensar numa passagem de Deleuze (mais uma). Uma passagem realmente lúcida, necessária em tempos como os nossos, de expressão (excessiva) e ação (ininterrupta) inúteis. Transcrever essa passagem me acalma, me faz sorrir levemente.

Às vezes se age como se as pessoas não pudessem se exprimir. Mas de fato, elas não param de se exprimir. Os casais malditos são aqueles aqueles em que a mulher não pode estar distraída ou cansada sem que o homem diga: “O que você tem? Fala…”, e o homem sem que a mulher… etc. O rádio, a televisão, fizeram o casal transbordar, dispersaram-no por toda a parte, e estamos trespassados de palavras inúteis, de uma quantidade demente de falas e imagens. A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vácuos de solidão e de silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se exprimir, ao contrário, elas a forçam a se exprimir. Suavidade de não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer; pois é a condição para que se forme algo raro ou rarefeito, que merecesse um pouco ser dito. Do que se morre atualmente não é de interferências, mas de proposições que não têm o menor interesse. Ora, o que chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele equivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse… Por isso é tão difícil discutir, por isso não cabe discutir, nunca. Não se vai dizer a alguém: “o que você diz não tem o menor interesse”. Pode-se dizer: “está errado”. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. As noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo. Mesmo em matemática: Poincaré dizia que muitas teorias matemáticas não têm importância alguma, não interessam. Não dizia que eram falsas, era pior.

A coisa é muito simples. Eu fiz trinta anos, e ao invés da crise, da sensação de desolação, do vácuo existencial à Schopenhauer, adquiri um nível de consciência mais largo sobre o modo como devo encarar a outra metade da minha vida. Não se engane: depois dos sessenta é só sofrimento. Antes é só desespero, mas estamos tão preocupados em viver e dar um sentido à vida que acabamos nos esquecendo disso.

Do que se trata essa consciência adquirida, afinal. Essa consciência que parece surgir depois dos trinta. Depois que a maior parte das ilusões acerca das verdades primárias enfim nos força a fazer escolhas. E escolher não é se posicionar diante da vida e inventar uma existência singular, apenas. Escolher é um ato inalienável e que nos corta a todos, sem exceção. A consciência dessas escolhas é o problema.

Parece que depois dos trinta, depois de perder pessoas, depois de perder coisas, depois de perder um tipo muito subjetivo de inocência, parece que de alguma forma as escolhas pesam mais do que antes. A consciência das escolhas.

É como eu disse a uma amiga que não acredita em vida adulta. A vida adulta é um amontoado de perdas e fracassos. A vida adulta é foda.

O palhaço é inegavelmente um filme bonito (sobretudo por ser melancólico de uma forma silenciosa) e engraçado, repleto de gags visuais articuladas em torno de planos simétricos e tal, o que faz com que o filme aparente certa imobilidade quando na verdade nada lá é estático. Diferentemente de Feliz natal, O palhaço não sofre de “afetação da influência”.

O dia em que ele chegar, Hong Sang-soo (4/5)

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios,  Beto Brant e Renato Ciasca (3/5)

O garoto da bicicleta, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (4/5)

Isto não é um filme, Jafar Panahi (3.5/5)

O desaparecimento do gato, Carlos Sorin (3/5)

Irmãs jamais, Marco Bellocchio (4/5)

Habemus papam, Nanni Moretti (4/5)

Periferic, Bogdan George Apetri (2/5)

Fora de Satã, Bruno Dumont (2.5/5)

Um pouco mais perto, Matthew Petock (1/5)

Mentiras sinceras, Pedro Asbeg (0/5)