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A personagem do último romance de Ricardo Lísias manda todo mundo tomar no cu, se foder. Por isso, mas não só, é uma personagem agradável de se conviver. Digo: leia O céu dos suicidas. Acredite em mim. Dentre a variada fauna de escritores brasileiros contemporâneos, Ricardo Lísias é um dos que merece ser lido (saiba: poucos merecem). Negritei algumas partes, o que não diz muito, já que é um livro nada aforismático. Ainda: o último naco do bicho, as duas últimas páginas, é tudo aquilo que você precisaria aprender, mas nunca irá aprender, numa dessas oficinas de escrita criativa.

Ela passa o tempo vagando com um grupo liderado por um monge que se diz a reencarnação do espírito que controla o lado afetivo dos seres vivos. Não apenas os humanos. Nesse momento, minha irmã quase cuspiu o que estava mastigando, engasgada com a piada. Eu tinha acabado de estragar o almoço de Páscoa.

Choro porque falei que na minha frente ele não iria se cortar. Na minha casa, não. Estou chorando nesse hospício chique porque só fico nervoso. Nesse hospício chique. Fico nervoso e ao mesmo tempo me sinto um fraco. E choro porque não entendi nada. Comecei a chorar no meio de todos eles porque coloquei um apelido no André. A gente ria muito. Chorei porque a gente ria muito, porque o coloquei para fora de casa e uma sema depois me ligaram para dizer que ele tinha se enforcado. O meu amigo estava muito sozinho. O meu amigo se enforcou. Não paro de chorar porque o André tinha se enforcado, porque só fico nervoso e porque todo mundo diz que quem se mata não vai para o céu.

Não consigo parar de chorar agora.

Quando um sujeito disse que os suicidas são frouxos, meti a mão nele. Acordei num hospital. Não sei quantos espíritas me surraram. Pelo tamanho do estrago, não foram poucos. Notei que minha mãe e minha irmã estavam sentadas perto da cama e por isso resolvi fingir que continuava dormindo. Havia uma bolsa de soro no meu braço esquerdo. O direito estava imobilizado.

Eu percebo, enquanto olho, que a mesa está muito além do meu controle. Até este momento, quer dizer, eu achava que a mesa era minha. Agora, olhando para ela a céu aberto, eu sei que não. Sei pela primeira vez que talvez nada seja meu.

Se chover hoje à noite a madeira não vai empenar imediatamente. Mas se a gente deixar a mesa ali fora a céu aberto muito tempo, vai rachar. Vai rasgar. Vai manchar. Vai ficar cheia de pequenos rastos nos pontos onde as vespas e outros bichos roeram para pegar material para os ninhos. As pernas da mesa vão afundar na grama, a grama vai subir e se enroscar nas pernas. As trepadeiras vão encontrar a mesa. O calor e o frio vão acabar com ela. O verde vai engoli-la, vai morrer e brotar de novo em volta dela, deixá-la velha, estragada, ressequida. 

Eu não sei o que eu vou achar amanhã ou depois de amanhã, mas é isso que eu acho agora.

É a melhor coisa que podia acontecer com qualquer coisa que um dia eu pude imaginar que fosse minha.

[Ali Smith, A primeira pessoa]

Pedi ao médico que me deixasse a sós com meu pai, ou tão a sós quanto era possível em meio à azáfama da sala de emergência. Sentado ali e observando o seu combate para continuar a viver, tentei me concentrar no que o tumor já lhe causara. Isso não era difícil, porque naquela maca ele parecia ter lutado cem assaltos com Joe Luis. Pensei nos horrores que inevitavelmente viriam pela frente, mesmo supondo que ele pudesse ser mantido vivo num pulmão de aço. Vi tudo, tudo, e mesmo assim tive de continuar sentado lá por um longo tempo antes de chegar o mais perto dele que pude e, com os lábios quase tocando seu rosto encovado e arruinado, finalmente encontrar forças para sussurrar: “Papai, vou ter que deixar você ir embora”. Ele já estava inconsciente havia horas e era incapaz de me ouvir, mas, em choque, aturdido, chorando, repeti aquilo muitas e muitas vezes até eu mesmo acreditar no que eu dizia. 

Depois disso, só me restou seguir sua maca até o quarto onde o puseram e me sentar ao lado da cama. Morrer dá trabalho, e ele era um trabalhador. Morrer é pavoroso, e papai estava morrendo. Peguei sua mão, que ao menos eu ainda sentia como sendo sua mão, afaguei sua testa, que ao menos ainda parecia ser sua testa, e lhe disse todo o tipo de coisas que ele não podia mais registrar. Por sorte, de tudo que eu lhe disse nessa manhã, nada havia que ele já não soubesse. 

[Philip Roth, Patrimônio]

Sullivan é a ideia de liberdade, é alguém sempre em movimento, em fuga… Na verdade, é uma personagem que reenvia a outras personagens masculinas dos meus filmes anteriores… Há uma parte dele que nos escapa, que me escapa – mais facilmente domino Camille. Mas como argumentista e cineasta não tento conseguir no cinema aquilo que não consegui na vida real. Não tento ser omnisciente: aquilo que me escapa na vida quero que me continue a escapar no cinema. Não faço um filme para dominar o que me escapou na vida. Quero restituir esse sentimento [do que escapa]. De outra forma seria desonesto, mentiroso.

[Mia Hansen-Løve]

«Eles têm inveja do nosso casamento». Ouvi-os garantir isto e não disse nada, não sei quem «eles» são, tenho uma vaga ideia acerca do casamento em causa, e desconheço se há motivos plausíveis de inveja. Parece-me, aliás, que «invejar um casamento» é, como quase toda a inveja, um caso de informação deficiente. Inveja-se uma imagem que temos, e que até tornamos mais gloriosa só para a podermos querer para nós, e não para os outros, obviamente indignos dela. Além de que, com franqueza, quantos casamentos invejáveis há no mundo? Posso invejar a alguém o facto de estar casado com determinada pessoa, na medida em que a quisesse para mim; mas será que invejo o casamento deles? Saberei o suficiente para invejar aquele específico estado de coisas? Conheço bem, acho eu, cinco ou seis «bons casamentos», mas não invejo nenhum deles, não apenas porque não desejo as mulheres em causa mas porque todos esses casamentos assentam em bases que eu não quereria para mim, porque somos pessoas diferentes, e o que agrada a uns não convém a outros. Na vida civil, a inveja é quase sempre dirigida a situações, mais do que as pessoas; mas na vida amorosa, desejar o cônjuge alheio não significa invejar uma situação, porque uma situação é relacional, não-copiável. Seria tão estranho dizer «invejo o teu casamento» como dizer «invejo o amor que ele tem por ti», como se o amor dele fosse comparável com o meu, ou o meu com o dele.

[Pedro Mexia]

Antes de me dar conta de que ela estava com mal de Alzheimer eu me irritava com minha mãe todas as noites por todas as noites me perguntar se meu pai já havia voltado para casa, e me obrigar assim a, todas as noites, durante não sei quantos meses, lhe explicar que ele já tinha morrido havia dez anos. E todas as vezes era como se recebesse a notícia pela primeira vez. Umas cem vezes lhe dei, ao anoitecer, com um contrafeito beijo de boa-noite, a notícia de que seu marido tinha morrido. Cem vezes viúva. Seu marido morreu cem vezes, mas só para ressuscitar no dia seguinte, quando, ao deitar-se, me perguntava se ele já havia voltado para casa.  Cinco anos depois de diagnosticado o caso, eu já estava completamente acostumado com isso e não estranhei quando passei a ser chamado primeiro de irmão, depois de marido, e, nos últimos tempos, pai. Pouco antes da crise que a levou para o hospital, Helena lhe perguntou quantos anos tinha: quinze anos, respondeu. Apesar de morar há cinquenta anos nesta casa da Ilha do Governador, ultimamente acordava de madrugada pedindo para ser levada para sua casa de verdade, no Méier, onde morou quando adolescente. Coloco Quatuor pour la fin du temps, de Olivier Messiaen, e passo a esperar o toque do telefone.*

* O telefone tocou às 11h30.

[Carlito Azevedo, Monodrama]