Posts marcados literatura

Filmes

Boxing gym, Frederick Wiseman (4/5)

The invention of lying, Ricky Gervais (3/5)

Peixe grande*, Tim Burton (3.5/5)

Public speaking, Martin Scorsese (3/5)

Cemetery junction, Ricky Gervais (2.5/5)

Inside job, Charles Ferguson (2.5/5)

Two-lane blacktop, Monte Hellman (5/5)

Freakonomics, Heidi Ewing (1/5)

Old joy, Kelly Reichardt (4.5/5)

Tokyo, Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho (3.5/5)

Hobo with a shotgun, Jason Eisener (3/5)

A suprema felicidade, Arnaldo Jabor (1.5/5)

Attenberg, Athina Rachel Tsangari (3.5/5)

A falta que me faz, Marília Rocha (4/5)

Cildo, Gustavo Moura (3/5)

O veredito, Sidney Lumet (5/5)

Peças

estudohamlet.com, Cacá Carvalho (1/5)

A lua vem da Ásia, Moacir Chaves (3/5)

A casa amarela, Gero Camilo (3/5)

Fragmentos de O jardim**, Leonardo Moreira (SA)

Livros

Como funciona a ficção, James Wood (4/5)

Notas sobre o cinematógrafo*, Robert Bresson (3/5)

De veludo cotelê e jeans, David Sedaris (3/5)

Ravelstein, Saul Bellow (5/5)

* Revistos/relidos

** Sem avaliação

Primo Levi diz que em Auschwitz a morte começa pelos sapatos, e fico imaginando se ele estava se referindo apenas ao tempo no campo ou às décadas depois de calçar o par que conseguiu pegar naqueles cinco segundos decisivos. Primo Levi morreu aos sessenta e oito anos, em Turim, Itália, depois de ter escrito treze livros, boa parte sobre o Holocausto, e ter sido traduzido em várias línguas, e ter retomado sua carreira de químico, e casar e ter filhos, e receber prêmios e virar uma celebridade literária na Europa e no mundo, e fico imaginando se era nesta escolha, um número maior que o pé, um número menor, talvez o número exato por uma sorte rara e invejável entre o milhão e meio de prisioneiros que passaram pelo campo, que ele estava pensando quando abriu a porta do apartamento e caminhou até a escada e nela caiu numa ocorrência que quase nenhum de seus biógrafos julga ter sido acidental. 

[Michel Laub, Diário da queda]

Na cozinha ele disse: “Sei como foi o seu casamento. O tipo de casamento em que um conta tudo pro outro. Você contava tudo pra ela. Eu olho pra você e vejo isso no seu rosto. É a pior coisa que se pode fazer num casamento. Contar pra ela tudo o que você sente, contar pra ela tudo que você faz. É por isso que ela te acha maluco”.

No jantar, comendo mais uma fritada, ele brandiu o garfo e disse: “Você entende, não é uma questão de estratégia. Não estou falando em segredos, em mentiras. Estou falando em ser você mesmo. Se você revela tudo, cada sentimento, pedindo compreensão, você perde uma coisa crucial pra sua autoconsciência. Você tem que saber coisas que os outros não sabem. É o que ninguém sabe sobre você que permite que você se conheça”.

[Don Delillo, Ponto ômega]

Filmes

Paper man, Kieran Mulroney Michele Mulroney (2/5)

Another year, Mike Leigh (4/5)

The sunset limited, Tommy Lee Jones (2/5)

A loja da esquina, Ernest Lubitsch (5/5)

Barfly*, Barbet Schroeder (4/5)

Reencontrando a felicidade, John Cameron Mitchell (2/5)

Bellamy, Claude Chabrol (2.5/5)

A casa do diabo, Ti West (3.5/5)

O último tango em Paris*, Bernardo Bertolucci (5/5)

Noites brancas*, Luchino Visconti (4/5)

Esboços de Frank Gehry, Sydney Pollack (3/5)

Como você sabe, James L. Brooks (3/5)

Tuesday, after Christmas, Radu Muntean (4/5)

A lula e a baleia*, Noah Baumbach (5/5)

Essential killing, Jerzy Skolimowski (4/5)

O sonho de Cassandra*, Woody Allen (3.5/5)

Rota de colisão, Stuart Gordon (2.5/5)

Gata em teto de zinco quente, Richard Brooks (4/5)

Mãe e filho*, Aleksandr Sokúrov (4/5)

Conto de inverno, Eric Rohmer (4/5)

Notre jour viendra, Romain Gavras (3/5)

Andarilhos, Cao Guimarães (3/5)

Peças

Devassa, Nehle Franke (2.5/5)

Antes da coisa toda começar, Paulo de Moraes (2.5/5)

Pterodátilos, Felipe Hirsch (3.5/5)

Peças, Luiz Päetow (5/5)

Ex-máquinas**, Luiz Päetow (SA)

Lixo e purpurina, Chico Ribas (0/5)

Savana Glacial, Renato Carrera (3/5)

Livros

Eu falar bonito um dia, David Sedaris (3.5/5)

Invisível, Paul Auster (2.5/5)

Tempo passado (cultura da memória e guinada subjetiva), Beatriz Sarlo (4/5)

Pigmaleão, George Bernard Shaw (4/5)

Fama e anonimato, Gay Talese (5/5)

* Revistos/relidos

** Sem avaliação (isso não quer dizer que a coisa seja ruim; nem de longe)

Algumas pessoas me mandam perguntas. Algumas pessoas acreditam que eu tenha respostas para estas perguntas. A última pergunta era sucinta e trágica.

“Estou pra morrer. Já fiz de tudo e não aprendo nada em cursos de teatro. O que eu devo fazer?”

A minha resposta: “Morra”.

Não se aprende teatro em cursos de teatro. Menos ainda em oficinas de teatro. Esses lugares só nos ensinam o que não podemos (devemos) fazer. “Fazer teatro” não comporta transmissão. Nenhuma arte comporta. Se alguém disser o contrário está mentindo. Terrivelmente. Tenha vergonha na cara e não engane mais garotinhos rosados atrás de sonhos caramelados, seu safado teatral.

A verdade é que estamos irremediavelmente sós. Para aprender teatro é preciso estar nas trincheiras. Notar como as engrenagens não funcionam (cursos e oficinas só mostram como as coisas, aparentemente, funcionam). O defeito (a precariedade) é o que nos forma, o que nos faz ver mais e melhor. É no defeito (na imperfeição, no ruído dissonante) que encontramos o traço original, por assim dizer. Não há romantismo algum aqui, que fique bem claro.

Ver teatro é mais importante do que fazer. É preciso ver antes. E ver novamente. Ver pra valer. Não ver pra discutir em roda, em posição de lótus, mascando chiclete (fazendo bolinha) e dizendo que adorou o jeito como aquele ali, sabe, interrompia o fluxo discursivo. Ou como aquela lá, ó, sabia respirar corretamente mas movia-se como uma bailarina acima do peso e acometida por escoliose.

Ver teatro é ato individual, íntimo, pessoal. Ver teatro não é sair do teatro dizendo é bom ou ruim, ou qual a mensagem daquilo tudo, assim, de uma vez. Ver teatro silencia a gente de tal forma que o que fica conosco não fica aparente. Daí a impossibilidade de tornar o visto discurso e tal (num primeiro momento). A gente sabe que viu o que viu mas não sabe como tornar aquilo algo dizível. O teatro é isso. Ou não é nada.

Se você aí quer realmente aprender teatro, rapaz, esteja disposto a entrar nas trincheiras e por lá permanecer. Reflita mais sobre e fale menos (melhor: não fale). Encontre aqueles que o farão ver algo que nenhuma escola é capaz de mostrar. Eles estão aí.

A casa amarela (3/5) é um Gero Camilo ainda mais pessoal (como se isso fosse possível) do que de costume. Ele faz Van Gogh. Melhor seria dizer que Van Gogh faz Gero Camilo. Aí está, rapaz: o que Gero faz não há escola (ou professor) que ensine. Ele estudou teatro, você dirá pra mim. Sim, estudou. Mas: não foi isso que o moldou. Isso, atirando longe, o instrumentalizou (é isso que escolas fazem: instrumentalizam). Só. O resto (o essencial) só se aprende lá, sujando as botas, indo de encontro aos que fazem. Observar, observar, observar.

Ao observar Gero Camilo eu dizia baixinho, pra não quebrar o estado de graça e tal: aí está o que distingue o impulso verdadeiro da impostura. Alguém que faz o que faz porque precisa fazer. Repito: é um monólogo pessoal. Mais do que descrever ou acompanhar os passos de Van Gogh, o que importa a Gero é a cartografia dum artista. O que é que motiva alguém a optar (como se opção houvesse) por narrar ao invés de viver? O que faz com que alguém viva através do que faz e não do que vive? Em outras palavras: o que é um artista?

Na outra ponta, também um monólogo, Chico Diaz aparece com Campos de Carvalho (você ainda não leu Campos de Carvalho; leia) e seu A lua vem da Ásia (3/5). Poderia estender facilmente o que disse de Gero a Chico Diaz, com um acréscimo. A dramaturgia aqui é dinamite pura. De início, fogo pálido. Chico testa o canal. Testa os destinatários. Daí pra frente é solavanco. Declives. Aclives. Tudo a nos dizer, desesperadamente, que viver é ato contínuo de mutilação, desamparo, solidão. A lua vem da Ásia é o nosso Memórias do subsolo. E Chico Diaz (Campos de Carvalho) o nosso homem do subsolo.

Pois é, rapaz. Eles estão aí. Suje as botas.