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O interessante nunca é a maneira pela qual alguém começa ou termina. O interessante é o meio, o que se passa no meio. Não é por acaso que a maior velocidade está no meio. As pessoas sonham frequentemente em começar ou recomeçar do zero, e também têm medo do lugar aonde vão chegar, de seu ponto de queda. Pensam em termos de futuro ou de passado, mas o passado, e até mesmo o futuro, é história. O que conta, ao contrário, é o devir: devir-revolucionário, e não o futuro ou o passado da revolução. “Não chegarei a lugar nenhum, não quero chegar a lugar nenhum. Não há chegadas. Não me interessa aonde uma pessoa chega. Um homem pode também chegar à loucura. O que isto quer dizer? “É no meio que há o devir, o movimento, a velocidade, o turbilhão. O meio não é uma média, e sim, ao contrário, um excesso. É pelo meio que as coisas crescem. Era a ideia de Virginia Woolf. Ora, o meio não quer dizer abolutamente estar dentro de seu tempo, ser de seu tempo, ser histórico; ao contrário: é por meio do qual os tempos mais diferentes se comunicam. Não é nem o histórico nem o eterno, mas o intempestivo. E um autor menor é justamente isso: sem futuro nem passado, ele só tem um devir, um meio pelo qual se comunica com outros tempos, outros espaços. 

[Gilles Deleuze, Sobre o teatro]

Filmes

A serbian film – terror sem limites, Srdjan Spasojevic (2/5)

Desconhecido, Jaume Collet-Serra (2/5)

A falta que nos move*, Christiane Jatahy (3/5)

Quem tem medo de Virginia Woolf?*, Mike Nichols (4/5)

Homicídio*, David Mamet (3.5/5)

American buffalo, Michael Corrente (3/5)

A última sessão de cinema, Peter Bogdanovich (5/5)

O mágico de Oz*, Victor Fleming (3/5)

Raquel, Raquel, Paul Newman (2.5/5)

Annie Leibovitz – a vida através das lentes, Barbara Leibovitz (3/5)

O quarto poder*, Costa-Gavras (3/5)

Jesus no mundo maravilha, Newton Cannito (3/5)

Os inquilinos, Sérgio Bianchi (2.5/5)

Uma lição para não esquecer, Paul Newman (3/5)

O gerente, Paulo Cezar Saraceni (2.5/5)

Cão sem dono*, Beto Brant e Renato Ciasca (3/5)

Os residentes, Tiago Mata Machado (4/5)

Longa jornada noite adentro, Sidney Lumet (3/5)

The ward, John Carpenter (3/5)

Maratona da morte*, John Schlesinger (2.5/5)

X-men: primeira classe, Matthew Vaughn (2.5/5)

Turnê*, Mathieu Amalric (3/5)

Os trapaceiros*, Woody Allen (4/5)

O clube da luta*, David Fincher (2.5/5)

Os monstros, irmãos Pretti e primos Parente (3/5)

Sombras*, John Cassavetes (4/5)

O sucesso a qualquer preço, James Foley (3/5)

Faces*, John Cassavetes (5/5)

Daddy longlegs*, Josh e Benny Safdie (5/5)

Sem limites, Neil Burger (1/5)

The pleasure of being robbed*, Josh e Benny Safdie (3/5)

Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles, Chantal Akerman (5/5)

Melancolia, Lars von Trier (3.5/5)

O casamento do meu ex, Galt Niederhoffer (1.5/5)

A minha versão do amor, Richard J. Lewis (2/5)

Lenny, Bob Fosse (5/5)

Superbad*, Greg Mottola (3.5/5)

Super 8, J.J. Abrams (3/5)

Cidade de Deus*, Fernando Meirelles (3/5)

Rosetta*, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (4/5)

Hesher, Spencer Susser (2/5)

A árvore da vida, Terrence Malick (3.5/5)

Intriga internacional*, Alfred Hitchcock (4/5)

Um mundo perfeito*, Clint Eastwood (4/5)

Meeks cutoff, Kelly Reichardt (3.5/5)

Caminho da liberdade, Peter Weir (3/5)

A alegria, Felipe Bragança (2.5/5)

Iluminados, Cristina Leal (2/5)

Bróder*, Jeferson De (3/5)

A bittersweet life, Jee-woon Kim (4/5)

Win win, Thomas McCarthy (2/5)

A mocidade de Lincoln, John Ford (5/5)

Morro do céu, Gustavo Spolidoro (3/5)

Submarino, Richard Ayoade (3/5)

Fahrenheit 451, François Truffaut (3/5)

O homem do futuro, Cláudio Torres (1.5/5)

A garota da vitrine, Steve Martin (1.5/5)

Funny ha ha, Andrew Bujalski (3/5)

Admiração mútua, Andrew Bujalski (4/5)

Beeswax, Andrew Bujalski (4/5)

Daquele instante em diante, Rogério Velloso (3/5)

Ex isto, Cao Guimarães (3/5)

Medianeras, Gustavo Taretto (2/5)

Além da estrada, Charly Braun (1/5)

A condessa descalça, Joseph L. Mankiewicz (4/5)

Road to nowhere, Monte Hellman (4/5)

Riscado, Gustavo Pizzi (3/5)

Manhattan*, Woody Allen (5/5)

Pina, Wim Wenders (3/5)

Ninho familiar, Béla Tarr (3/5)

O cavalo de turim, Béla Tarr (5/5)

O homem de Londres, Béla Tarr (4/5)

Macbeth, Béla Tarr (3/5)

Claire Denis – a errante, Sébastien Lifshitz (3/5)

Curtas Claire Denis + O vestido à Cerceau + Nice, very nice, Claire Denis (2.5/5)

Sexta-feira à noite, Claire Denis (3.5/5)

O intruso, Claire Denis (5/5)

Dane-se a morte, Claire Denis (4/5)

Chocolate, Claire Denis (3.5/5)

Bom trabalho, Claire Denis (5/5)

U.S. go home, Claire Denis (3.5/5)

35 doses de rum, Claire Denis (4/5)

Nenette e Boni, Claire Denis (3/5)

Vers Mathilde, Claire Denis (4/5)

Minha terra, África*, Claire Denis (4/5)

Tio Kent, Joe Swanberg (2/5)

Chelsea on the rocks,  Abel Ferrara (3.5/5)

O moinho e a cruz, Lech Majewski (2.5/5)

Matador de aluguel*, Rowdy Herrington (3/5)

Drive, Nicolas Winding Refn (3.5/5)

Meia-noite em Paris*, Woody Allen (4/5)

O garoto da bicicleta, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (4/5)

Quero matar meu chefe, Seth Gordon (2/5)

Vivendo na corda bamba, Paul Schrader (3.5/5)

Red state, Kevin Smith (2.5/5)

Attack the block, Joe Cornish (3/5)

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios,  Beto Brant e Renato Ciasca (3/5)

O dia em que ele chegar, Hong Sang-soo (4/5)

Isto não é um filme, Jafar Panahi (3.5/5)

Oki’s movie, Hong Sang-soo (4/5)

Fora de Satã, Bruno Dumont (2.5/5)

Um pouco mais perto, Matthew Petock (1/5)

Periferic, Bogdan George Apetri (2/5)

Habemus papam, Nanni Moretti (4/5)

Irmãs jamais, Marco Bellocchio (4/5)

O desaparecimento do gato, Carlos Sorin (3/5)

Histórias da insônia, Jonas Mekas (3.5/5)

Las acacias, Pablo Giorgelli (3/5)

No lugar errado, irmãos Pretti e primos Parente (2.5/5)

Cisne, Teresa Villaverde (3/5)

O futuro, Miranda July (1/5)

Os 3, Nando Olival (0.5/5)

Sábado inocente, Alexander Mindadze (3/5)

Caverna dos sonhos esquecidos, Werner Herzog (2.5/5)

Low life, Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval (4/5)

Fausto, Aleksander Sokurov (5/5)

A rede social*, David Fincher (3/5)

Rei Lear*, Jean-Luc Godard (4/5)

Chantal Akerman, de cá*, Gustavo Beck e Leonardo Ferreira (3.5/5)

A pele que habito, Pedro Almodóvar (3.5/5)

Juízo final, Neil Marshall (3/5)

Robocop, o policial do futuro*, (3/5)

Dia e noite, Hong Sang-soo (5/5)

Margin call, J.C. Chandor (3/5)

Like crazy, Drake Doremus (1.5/5)

O céu sobre os ombros, Sérgio Borges (4/5)

Trabalhar cansa, Juliana Rojas e Marco Dutra (3/5)

Woody Allen: a documentary, Robert Weide (2/5)

Peças

45 minutos, Roberto Alvim (3/5)

Mantenha fora do alcance de crianças, Rodrigo Batista (0/5)

Gargólios, Gerald Thomas (1.5/5)

Fragmentos do desejo, Artur Ribeiro e André Curti (2.5/5)

Se uma janela se abrisse, Tiago Rodrigues (3.5/5)

A galinha degolada, Jefferson Bittencourt (1/5)

Jaguar cibernético (parte 1 e 2), Francisco Carlos (3/5)

Jaguar cibernético (parte 3 e 4), (3.5/5)

Édipo, Elias Andreato (2/5)

Ópera dos vivos, Sérgio de Carvalho (5/5)

Preferiria não?, Denise Stoklos (3/5)

Prêt-à-porter 10, CPT (2.5/5)

Lamartine babo*, Emerson Danesi (2.5/5)

Os órfãos, Karina Casiano (0/5)

Disney Killer, Darson Ribeiro (1/5)

Uma flauta mágica, Peter Brook (3/5)

A crônica da casa assassinada, Gabriel Villela (1.5/5)

Oxigênio, Marcio Abreu (4/5)

Os náufragos da louca esperança, Ariane Mnouchkine (5/5)

O casamento suspeitoso, Sérgio Ferrara (2/5)

O silêncio depois da chuva, Leonardo Moreira (2.5/5)

Tio Vânia, Yara de Novaes (3/5)

Livros

Retrato de um viciado quando jovem, Bill Cleg (3.5/5)

Alvo noturno, Ricardo Piglia (3/5)

Nêmesis, Philip Roth (3.5/5)

O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald (5/5)

Ao anoitecer, Michael Cunningham (3/5)

As coisas da vida, António Lobo Antunes (4/5)

Como funciona a ficção*, James Wood (4/5)

A paixão de A.,  Alessandro Baricco (3/5)

Um dia, David Nicholls (1/5)

História do cabelo, Alan Pauls (4/5)

Accidental genius: how John Cassavetes invented the american independent film, Marshall Fine (3/5)

O que é o contemporâneo? e outros ensaios, Giorgio Agamben (4/5)

A sangue frio, Truman Capote (3.5/5)

Monodrama, Carlito Azevedo (4/5)

* Revistos/relidos

[Meses anteriores: janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho]

O realismo, visto em termos amplos como veracidade em relação às coisas como são, não pode ser mera verossimilhança, não pode ser meramente parecido ou igual à vida; há de ser o que devo chamar de vida animada [lifeness]: a vida na página, a vida que ganha uma nova vida graças à mais elevada capacidade artística. E não pode ser um gênero; pelo contrário, ela faz com que as outras formas de ficção pareçam gêneros. Pois esse tipo de realismo – a vida animada – é a origem. É o mestre de todos os outros; ensina também os que cabulam suas aulas: é ele que permite existir o realismo mágico, o realismo histérico, a fantasia, a ficção científica, e mesmo o suspense. Nada tem daquela ingenuidade que lhe imputam os adversários; quase todos os grandes romances realistas do século XX também refletem sobre sua própria elaboração e estão repleto de artifícios. Todos os maiores realistas, de Austen a Alice Munro, são ao mesmo tempo grandes formalistas. Mas essa questão será sempre difícil: pois o escritor tem de agir como se os métodos literários disponíveis estivessem constantemente à beira de se transformar em meras convenções, e por isso ele precisa tentar vencer esse inevitável envelhecimento. O verdadeiro escritor, aquele livre servidor da vida, precisa sempre agir como se a vida fosse uma categoria mais além de qualquer coisa já captada pelo romance, como se a própria vida sempre estivesse à beira de se tornar convencional.  

[James Wood, Como funciona a ficção]

Hartke é uma body artist que tenta livrar-se do corpo –  pelo menos o dela. Tem um homem que se exibe numa galeria de arte enquanto um colega dá tiros em seu braço. Isso é arte. Tem outro, inteiramente coberto de tatuagens, que se faz cingir com uma coroa de espinhos. Isso é arte. Já o trabalho de Hartke não é exibicionista nem masoquista. Ela representa, sempre se tornando ou explorando alguma identidade básica. Tem uma mulher que faz pinturas com a vagina. Isso é arte. Tem o homem nu e a mulher nua que se jogam um no outro com uma velocidade cada vez maior. Isso é arte, sexo e agressividade. Tem o homem que, trajando uma lingerie ensanguentada, copula com um monte de carne moída. Isso é arte, sexo, agressividade, crítica cultural e verdade. Tem o homem que crava pregos no próprio pênis. Isso é só verdade.

[A artista do corpo, Don Delillo]