Aceitem. O maior acontecimento do ano.
Posts marcados mostra
Escolher outra tag?
mostra internacional de cinema (sp) #2
Um Lugar Qualquer (4/5) é uma variação de Encontros e Desencontros. Antes do filme, uma rápida digressão: depois de emprestar Encontros e Desencontros a um amigo (há cerca de 5 anos), e de ter recomendado a ele o filme com certa ânsia infantil (é lindo, cara!), aguardando aflitivamente que ele assistisse ao filme e, assim como eu, achasse ao menos um belo filme acerca do que não sabemos de nós e nunca, talvez, saberemos, eis que ele (o amigo) retorna do mesmo jeito que recebeu o filme. Tudo o que um amigo espera de outro amigo ao emprestar algo que o tocou sobremaneira é que esse amigo tenha o mínimo de cuidado ao comentar, afinal você compartilhou com esse sujeito algo íntimo.
- É bonitinho, viu.
Ele disse isso sem sorrir. Subjetividades particulares, claro. Eu vejo as coisas à minha maneira e ele vê à maneira dele, ok, tudo certo, sem problema. Minto. Tem um problema, sim. Quando você compartilha algo com alguém (insisto nisso: compartilhar coisas que para você fazem todo o sentido é como dizer que essa pessoa é importante e merece aquilo) você espera algo em troca. Você espera uma reação. Uma reação parecida com a que você teve quando viu o filme (um ato egoísta, admito). Você sente inveja porque o seu amigo está vendo aquilo pela primeira vez, e você gostaria de ter essa mesma oportunidade. Então é natural que ao rever seu amigo pós-filme você espere detalhes, impressões, elogios diversos aos atores, à trilha, aos planos, à historia, enfim, você espera que seu amigo, um dos únicos que você ainda é capaz de chamar de amigo, seja um tipo de interlocutor à altura das suas expectativas. Mas ele não é. Suas expectativas nele, e não no filme, são excessivas. E tudo que resta a dizer ao seu amigo, em resposta ao é bonitinho, viu é algo como sim, é bonitinho, né.
Um Lugar Qualquer é a história de um ator sem biografia, digamos. De um ator que tem uma filha e que tem uma ex-mulher e que não sabe muito bem quem é, o que será ou o que foi até agora. Os idiotas dirão que se trata de uma repetição, de um Encontros e Desencontros 2. É o que dizem quando Woody aparece em cartaz. Variação é diferente de repetição, obsessão monotemática é diferente de emulação.
Ao propor o plano inicial Sofia diz a que veio. É um filme circular, rarefeito, letárgico, contemplativo. Georges Braque afirma que jamais soube distinguir um começo de um fim. Sofia, filme a filme, reafirma a posição de Braque.
Machete (3.5/5) saciou a todos meus instintos assassinos, sexuais, escatológicos, bestiais, adolescentes, e ademais provocou a catarse devida, aguardada e alimentada há tempos. Danny Trejo finalmente tem um papel de destaque, e é a primeira vez que o elenco de apoio num filme de Rodriguez acerta o tom. O fato é que Machete tem os melhores bordões do ano, nunca é politicamente correto, e se antes Rodriguez parecia o único a se divertir, agora ele resolveu compartilhar.
mostra internacional de cinema (sp) #1
Turnê (3.5/5) é irmão caçula de A morte de um bookmaker chinês (há duas ou três piscadelas de Amalric nesse sentido). Isso não quer dizer que Mathieu Amalric seja mais um genérico (entre tantos) de Cassavetes. É do diálogo com esse, e de uma abertura ao “acaso”, sobretudo no que diz respeito a forma que as personagens desestabilizam os espaços que ocupam, transformando-os, numa atitude performática que parece dominar mesmo os momentos mais íntimos, e que avançam, aos trancos, para uma estado de torpor, de vazio, de inércia mesmo. Mais: é um filme de ator; e não qualquer demérito nisso.
Poesia (3.5/5) se apresenta, num primeiro momento, como o típico filme de mostra. As peças preenchem agradavelmente o quebra-cabeça das ações minimais de uma avó e seu neto. Só até certo momento. Subitamente somos lançados a um terreno semelhante ao de Mother, e o que antes parecia mais um filme simpático vindo do lado de lá acaba se mostrando um conto de moralidade quase absurdo, quase inverossímil, quase sublime. Decerto memorável.
O cinema de Pedro Costa #5
|Onde jaz o teu sorriso?| São coincidências: um quarto, uma sala, pequenos gestos, uma pequena insistência em tornar grandioso o quarto. É um bocado como a Vanda: ao princípio, certezas absolutas; no fim do confronto, seja entre os dois, seja entre a Vanda e os outros, aquilo tudo vacila. Isso ocorre na cena em que a Danièle diz que o ator tem um sorriso nos olhos. No fim, durante toda a discussão, de frente para trás, é a própria Danièle que diz que não há nada nos olhos, não há sorriso nenhum, há talvez qualquer coisa…
(Comentário de Pedro Costa)
O cinema de Pedro Costa #1
Há uma linearidade narrativa mais formatada (vá lá, clássica) em O Sangue que se perderia nos futuros trabalhos de Pedro Costa. Aqui é como se estivéssemos diante de um filme italiano à Visconti (entre aspas, entre aspas), mas com uma temporalidade que vai se espraiando, soçobrando o filme e tragando uma a uma as personagens e mesmo o enredo, afinal a razão de existir nos filmes de Costa é mais relevante que a sucessão de conflitos (praticamente inexistentes; ao menos nos moldes convencionais) ou a revelação conclusiva ao término da projeção. E embora guarde certa distância de suas demais obras, O Sangue é de uma beleza tensionada que nos arrebata já no primeiro plano. Furto-me de descrever o desfecho, mas adianto: é de se ajoelhar e entoar São Pedro! São Pedro!





