Pensei em razões práticas para te convencer a ler Joshua Ferris. Pensei em entretenimento com substância. Pensei que poderia dizer que Joshua fez um primeiro romance que foi eleito pelo New York Times como um dos melhores romances da década. Pensei até mesmo em autoajuda, algo do tipo você sairá dessa leitura alguém melhor, mais humano, mais íntegro, mais preparado para viver em sociedade e ter algo a dizer nos elevadores e entender a lógica do trabalho no mundo contemporâneo etecétera, etecétera, etecétera. Mas não posso enganá-lo dessa maneira. Não quando falo de literatura. Não quando falo de Joshua Ferris. Não quando falo de E nós chegamos ao fim.
Daí que eu pensei em silêncio (papai diz que é a melhor forma de pensar) que é fácil convencer alguém a ler alguma coisa mesmo que esse alguém não queira ler alguma coisa. Algo que eu costumo chamar de técnicas de aproximação de seu interlocutor por vias alternativas. Ela (a técnica) se baseia num princípio único e fundamental: escreva um trecho da obra e deixe que o próprio interlocutor julgue adequado para qualquer fim que julgar adequado.
Por isso transcrevo um fragmento do romance E nós chegamos ao fim e deixo que você decida se vale ou não a pena trocar as suas redes sociais por algumas horas numa agência de publicidade com sujeitos bem parecidos com os sujeitos que você divide um terço considerável da sua vida. Ou, usando as palavras de Hank Neary (o escritor negro da agência): O fato de passarmos a maior parte de nossas vidas no trabalho, isso sim me interessa.
Marilynn desapareceu momentaneamente para Carl. Naquele instante, Janine Gorjanc atravessava a rua a caminho do trabalho. Janine lhe pareceu perfeitamente maternal. Não era bonita nem feia. Riponga, mas não gorda. Com rosto inchado, mas com uma beleza jovial e escondida em algum lugar que poderia ter feito alguém ficar louco para convidá-la ao baile de formatura do ginásio. “Um filho”, pensou Carl, “não é o único resultado do parto. Nasce uma mãe também”. Você as vê todos os dias – mulheres desinteressantes com um volume no ventre, com uma ligeira papada. Eternamente com quarenta anos. A mãe de alguém, você pensa. Em algum lugar há uma criança que transformou essa mulher em mãe e, por causa do filho, ela alterou sua própria aparência para desempenhar melhor o papel. Como estava oculto dentro do carro, Carl podia olhar Janine sem o impulso de fugir, e era a primeira vez que ele a via há meses, talvez anos.
- Carl? – disse Marilynn. – Carl?!
- Marilynn, está vendo aquela mulher? Aquela lá, com a blusa amassada. Parece uma mãe, não é? – Marilynn seguiu o olhar dele.
- Aquela é Janine Gorjanc, a mulher de quem eu lhe falei, que teve a filha assassinada, lembra? A menina foi sequestrada, eu lhe contei sobre ela. Eu fui ao enterro.
- Lembro – disse Marilynn.
- Ela fede.
- Ela fede?
- Exala um tipo de cheiro, não sei qual é. Não é sempre. Mas acho que tem dias que ela simplesmente não se cuida. Não toma banho ou algo assim.
Carl a observou entrar no edifício. Marilynn não olhava para Janine, mas para o marido. Ela o ouvia, tentando entendê-lo.
- Marilynn, odeio aquela mulher por causa do cheiro que tem.
- Já tentou conversar com ela sobre isso?
- Mas eu me odeio ainda mais por odiá-la – continuou ele, desabotoando a camisa social. – Você pode imaginar pelo que ela tem passado?
- Carl, o que você está fazendo?
- O sequestro, depois a espera, a terrível espera – continuou ele, distraído.
- O que você está fazendo? – exclamou ela.
- E logo depois encontrar o corpo… Imagine encontrar o corpo, Marilynn.
Carl estava nu até a cintura. Havia tirado a camisa social e puxado a camiseta por cima da cabeça.
- Não quero trabalhar hoje – anunciou, virando-se para a mulher. Inspirava e expirava com a pança exposta, um morro peludo, uma barriga pálida e fulgurante.
Quando Benny nos contou tudo isso, falou que Carl havia lhe dito depois que esperava que Lynn Mason o encontrasse naquele momento, visse aquela sua característica nada atraente e o mandasse andar na prancha em nome do senso estético.
- Vista a roupa! – exclamou Marilynn.
- Não quero ser a pessoa que odeia Janine Gorjanc – disse Carl.
- Se eu entrar, serei essa pessoa porque vou sentir o cheiro dela. Não quero sentir o cheiro dela. Se eu sentir, vou odiá-la, e não quero ser essa pessoa. Você tem que me levar para casa.