Posts marcados norte-americanos

Hartke é uma body artist que tenta livrar-se do corpo –  pelo menos o dela. Tem um homem que se exibe numa galeria de arte enquanto um colega dá tiros em seu braço. Isso é arte. Tem outro, inteiramente coberto de tatuagens, que se faz cingir com uma coroa de espinhos. Isso é arte. Já o trabalho de Hartke não é exibicionista nem masoquista. Ela representa, sempre se tornando ou explorando alguma identidade básica. Tem uma mulher que faz pinturas com a vagina. Isso é arte. Tem o homem nu e a mulher nua que se jogam um no outro com uma velocidade cada vez maior. Isso é arte, sexo e agressividade. Tem o homem que, trajando uma lingerie ensanguentada, copula com um monte de carne moída. Isso é arte, sexo, agressividade, crítica cultural e verdade. Tem o homem que crava pregos no próprio pênis. Isso é só verdade.

[A artista do corpo, Don Delillo]

Confesso: filmes familiares despertam meu interesse. A crise familiar me tira o sono. Sou pai, tenho uma filha, uma esposa, uma família. Estamos em crise?, pergunto à minha esposa, visivelmente abalado, e ela sorri, dá uma tapinha nas minhas costas e saca outro cigarro. A dúvida persiste.

Filmes familiares norte-americanos, fabricados para ganhar prêmios, aguçam meus instintos mais básicos. Fazer o quê? Sou carente, ora bolas. Ninguém consegue viver só de frutos do mar, não é mesmo, daí que às vezes um bife com arroz e feijão é necessário, como que para aplacar nossa saciedade natural pelas coisas simples da vida.

Minhas mães e meu pai (3/5) retrata o que se convencionou chamar, por falta de termo mais apropriado, a nova configuração familiar. Casais gays tendo filhos, constituindo família, assumindo direitos que antes só eram legados a casais héteros e tal, essas coisas. Aqui há um casal de lésbicas com dois filhos, cada um deles concebido por uma das mães via inseminação artificial. O garoto tem 15 anos, e quer conhecer o pai biológico. A garota tem 18, está prestes a ingressar na universidade, e não está a fim de conhecer pai algum. A família, antes da entrada desse pai, é perfeita, funcional, modelo. É tudo o que uma família deveria ser na teoria.

Na teoria. Na prática sabemos que uma família é antes de mais nada uma reunião de condomínio, e é disso que o filme parece fugir, nos momentos mais equivocados; embora, nos intervalos cômicos, sobretudo, mantenha um ceticismo invulgar com o modelo familiar padrão vendido em filmes que mais se parecem caixas de cereais feitas para atender paladares diversos.

Pensei em razões práticas para te convencer a ler Joshua Ferris. Pensei em entretenimento com substância. Pensei que poderia dizer que Joshua fez um primeiro romance que foi eleito pelo New York Times como um dos melhores romances da década. Pensei até mesmo em autoajuda, algo do tipo você sairá dessa leitura alguém melhor, mais humano, mais íntegro, mais preparado para viver em sociedade e ter algo a dizer nos elevadores e entender a lógica do trabalho no mundo contemporâneo etecétera, etecétera, etecétera. Mas não posso enganá-lo dessa maneira. Não quando falo de literatura. Não quando falo de Joshua Ferris. Não quando falo de E nós chegamos ao fim.

Daí que eu pensei em silêncio (papai diz que é a melhor forma de pensar) que é fácil convencer alguém a ler alguma coisa mesmo que esse alguém não queira ler alguma coisa. Algo que eu costumo chamar de técnicas de aproximação de seu interlocutor por vias alternativas. Ela (a técnica) se baseia num princípio único e fundamental: escreva um trecho da obra e deixe que o próprio interlocutor julgue adequado para qualquer fim que julgar adequado.

Por isso transcrevo um fragmento do romance E nós chegamos ao fim e deixo que você decida se vale ou não a pena trocar as suas redes sociais por algumas horas numa agência de publicidade com sujeitos bem parecidos com os sujeitos que você divide um terço considerável da sua vida. Ou, usando as palavras de Hank Neary (o escritor negro da agência): O fato de passarmos a maior parte de nossas vidas no trabalho, isso sim me interessa.

Marilynn desapareceu momentaneamente para Carl. Naquele instante, Janine Gorjanc atravessava a rua a caminho do trabalho. Janine lhe pareceu perfeitamente maternal. Não era bonita nem feia. Riponga, mas não gorda. Com rosto inchado, mas com uma beleza jovial e escondida em algum lugar que poderia ter feito alguém ficar louco para convidá-la ao baile de formatura do ginásio. “Um filho”, pensou Carl, “não é o único resultado do parto. Nasce uma mãe também”. Você as vê todos os dias – mulheres desinteressantes com um volume no ventre, com uma ligeira papada. Eternamente com quarenta anos. A mãe de alguém, você pensa. Em algum lugar há uma criança que transformou essa mulher em mãe e, por causa do filho, ela alterou sua própria aparência para desempenhar melhor o papel. Como estava oculto dentro do carro, Carl podia olhar Janine sem o impulso de fugir, e era a primeira vez que ele a via há meses, talvez anos.

- Carl? – disse Marilynn. – Carl?!

- Marilynn, está vendo aquela mulher? Aquela lá, com a blusa amassada. Parece uma mãe, não é? – Marilynn seguiu o olhar dele.

- Aquela é Janine Gorjanc, a mulher de quem eu lhe falei, que teve a filha assassinada, lembra? A menina foi sequestrada, eu lhe contei sobre ela. Eu fui ao enterro.

- Lembro – disse Marilynn.

- Ela fede.

- Ela fede?

- Exala um tipo de cheiro, não sei qual é. Não é sempre. Mas acho que tem dias que ela simplesmente não se cuida. Não toma banho ou algo assim.

Carl a observou entrar no edifício. Marilynn não olhava para Janine, mas para o marido. Ela o ouvia, tentando entendê-lo.

- Marilynn, odeio aquela mulher por causa do cheiro que tem.

- Já tentou conversar com ela sobre isso?

- Mas eu me odeio ainda mais por odiá-la – continuou ele, desabotoando a camisa social. – Você pode imaginar pelo que ela tem passado?

- Carl, o que você está fazendo?

- O sequestro, depois a espera, a terrível espera – continuou ele, distraído.

- O que você está fazendo? – exclamou ela.

- E logo depois encontrar o corpo… Imagine encontrar o corpo, Marilynn.

Carl estava nu até a cintura. Havia tirado a camisa social e puxado a camiseta por cima da cabeça.

- Não quero trabalhar hoje – anunciou, virando-se para a mulher. Inspirava e expirava com a pança exposta, um morro peludo, uma barriga pálida e fulgurante.

Quando Benny nos contou tudo isso, falou que Carl havia lhe dito depois que esperava que Lynn Mason o encontrasse naquele momento, visse aquela sua característica nada atraente e o mandasse andar na prancha em nome do senso estético.

- Vista a roupa! – exclamou Marilynn.

- Não quero ser a pessoa que odeia Janine Gorjanc – disse Carl.

- Se eu entrar, serei essa pessoa porque vou sentir o cheiro dela. Não quero sentir o cheiro dela. Se eu sentir, vou odiá-la, e não quero ser essa pessoa. Você tem que me levar para casa.

Li as críticas. Impressas e virtuais. Uma vergonha, dizia uma delas. Um fracasso total, dizia uma outra. Quando não atacavam diretamente o autor, ficavam nas preliminares. Adjetivos e mais adjetivos. Li o romance (novela) praticamente duas vezes. Procurei os defeitos, o fracasso, a vergonha. Não estão lá (a não ser que tomemos o personagem como exemplo).

Philip Roth mantém a excelência de sempre (isso até soa redundante). E se a densidade de Homem Comum ou os desdobramentos de Indignação (para ficarmos nos mais recentes) não fazem parte de A humilhação, é mais uma escolha do que uma incapacidade do autor.

Explico: Simon Axler é um ator respeitado, e sua biografia o coloca entre os maiores intérpretes de sua geração. Contudo, como num passe de mágica, perde a capacidade de atuar. Isso mesmo: o talento morreu. Ou: o talento nunca existiu.

Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia se comunicar com a platéia. Seu talento havia morrido.

Esse é o primeiro parágrafo. E, como num conto convencional, o início é uma isca (o livro é dividido em três partes, como os três sinais característicos antes do início de uma peça; como os três atos de outra). O que teria acontecido a Simom Axler? Quem é Simom Axler na verdade? Diante dessas indagações, Roth continua a dissecar a velhice sem complacência ou afago, mas vai além.

Nada é duradouro o bastante para nos fazer feliz e a qualquer momento podemos perder tudo. Não se engane, diz Roth: substituições não substituem nada, e quando alguma coisa acaba ela acaba, e só.

A onipotência do acaso, dirá Simon Axler adiante, como se tentasse explicar a si mesmo a razão dos pesares recentes. Poderia dizer, num exercício pobre de síntese, que A humilhação é a resposta ao mal-estar de existir. De existir sem certezas. O acaso é Deus. Daí o desespero, a angústia e o desamparo de Axler. Se nem mesmo o talento e a biografia  (as marcas que dizem quem fomos e somos) são construções sólidas, o que nos resta?

A humilhação. A humilhação de estar vivo.