Posts marcados o cinema de Pedro Costa

Num comentário de Pedro Costa acerca do trabalho de Chaplin, sobretudo, ele diz que os grandes artistas, em seus trabalhos derradeiros, alcançam uma linha pura, muito clara, muito japonesa. E sentencia: “Esses filmes (seus últimos trabalhos) falam sobre uma única coisa: a vida”.

Mike Leigh está longe do ocaso da vida (assim espero), não obstante Another year é um desses filmes que Pedro Costa toma como filmes essenciais. Filmes puros, por assim dizer. Filmes em que os efeitos, a sedução ou as alusões engenhosas ficam à margem.

Another year (4/5) é um filme cíclico sem ciclo. Explico: o filme toma como estrutura temporal (e por que não temática) as quatro estações do ano (não se engane: Mike Leigh é argumentista notável, portanto esqueça o paradigma circular aprazível), mas ao invés de voltar ao ponto de origem, no caso a primavera, acaba por fechar o círculo no inverno mesmo, estação nada afeita a bons sentimentos e enganadoramente propícia a bolinhos de chuva.

Furto-me de descrever os pormenores da estória e tudo mais, mas acrescento: é possivelmente o melhor roteiro do ano; o plantel de atores é sóbrio, e as personagens são do tipo em que a gente pode realmente tocar e dizer elas respiram; Lesley Manville é maior, mais viva, mais grave e tocante que Melissa Leo ou que qualquer uma das concorrentes ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, mas ela sequer foi mencionada para a honraria; desde Segredos e mentiras Leigh não era tão preciso e íntimo e verdadeiro quanto agora, em Another year.

O filme abre com uma pergunta para a personagem de Imelda Staunton (pergunta essa estendida a nós): “Você se recorda de algum momento feliz? De algum momento de felicidade?” “Não”, ela diz. De alguma forma Mike Leigh, com Another year, responde a essa pergunta de diferentes maneiras. Nenhuma das respostas esconde (ou encerra) a verdade aterradora da pergunta, o que torna o filme ainda mais agudo.

|Onde jaz o teu sorriso?| São coincidências: um quarto, uma sala, pequenos gestos, uma pequena insistência em tornar grandioso o quarto. É um bocado como a Vanda: ao princípio, certezas absolutas; no fim do confronto, seja entre os dois, seja entre a Vanda e os outros, aquilo tudo vacila. Isso ocorre na cena em que a Danièle diz que o ator tem um sorriso nos olhos. No fim, durante toda a discussão, de frente para trás, é a própria Danièle que diz que não há nada nos olhos, não há sorriso nenhum, há talvez qualquer coisa…

(Comentário de Pedro Costa)

|No quarto da Vanda| Durante as filmagens de Ossos, Vanda não queria falar, ela se recusava a dizer os diálogos que eu tinha escrito. Ela não estava concentrada da maneira que é preciso estar em uma filmagem clássica. Não é esse o tipo de concentração que eu quero hoje em uma filmagem, mas na gravação de Ossos, essa atitude me parecia assustadora. Em vez de dizer “bom dia”, ela dizia “boa noite”. Ao invés de rir, ela chorava. Em vez de entrar em um ambiente, ela não entrava. Ela fazia muitas perguntas e não tinha vontade de dizer a frase certa no momento solicitado. Não era nem que ela achasse o roteiro bobo, ela simplesmente não tinha vontade. Ela dizia: “como não sou atriz, não posso mentir”. Então, era um problema para mim e para a equipe. Eu sempre tive problemas em forçar as pessoas a fazerem o que elas não querem. Contaram-me que um dia Rossellini teve uma crise de riso enquanto dirigia uma cena de um de seus últimos clássicos – tipo Viagem à Itália – em que dois atores deveriam dizer “eu te amo”, ele teve esse acesso louco de riso. É preciso ser muito forte e, no fundo, um pouco idiota, como dizia Truffaut, para acreditar em tudo isso. Eu não posso fazer oito semanas de “eu te amo, eu não te amo”. Ossos tinha a ver com isso. Desses problemas, dessa confrontação com Vanda, nasceu No quarto da Vanda.

(Comentário de Pedro Costa)

|Ossos| É como na Idade Média, tudo se torna uma espécie de território que não começa pelo centro, mas pelo exterior, e começa a avançar por contágio. No filme, há qualquer coisa de muito doente que começa a invadir tudo (…); não há muita diferença entre os negros do bairro e os brancos da média burguesia, é a mesma coisa: os mesmos gostos, as mesmas ambições.

(Comentário de Pedro Costa)

Para além da questão socio-antropológica a perpassar Ossos, há os rostos. Aqui, como em Cassavetes (mas não de maneira análoga, evidente), há o estatuto do corpo, da face, do gesto. Nada é dito que não pela ação desses seres (não mais personagens tão-somente) em suas deambulações (circulares, circulares). A palavra é acessório enquanto o corpo verbo. As coisas começam e ter por fim um devir em suspensão, que só acena, que nos enclausura, que nos fecha a porta e nos deixa assim, a tatear o invisível.

|Casa de Lava| Ligar as cruzes do cemitério do Tarrafal à cama do hospital em Lisboa e perceber a cadeia que leva da morte do campo de concentração à morte dos cabo-verdianos nos andaimes, esse é o trabalho de qualquer cineasta; além de tentar ser o mais exaustivo nessa cadeia de morte política sucessiva. Esse era, para mim, a maneira mais correta de ver Portugal. Penso que a política é um subterrrâneo de prisões, campos de concentração, algemas. É quase mise-en-scène: como é que pomos uma atriz a tatear entre o Tarrafal e um operário de hoje?

(Comentário de Pedro Costa)