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Filmes

A serbian film – terror sem limites, Srdjan Spasojevic (2/5)

Desconhecido, Jaume Collet-Serra (2/5)

A falta que nos move*, Christiane Jatahy (3/5)

Quem tem medo de Virginia Woolf?*, Mike Nichols (4/5)

Homicídio*, David Mamet (3.5/5)

American buffalo, Michael Corrente (3/5)

A última sessão de cinema, Peter Bogdanovich (5/5)

O mágico de Oz*, Victor Fleming (3/5)

Raquel, Raquel, Paul Newman (2.5/5)

Annie Leibovitz – a vida através das lentes, Barbara Leibovitz (3/5)

O quarto poder*, Costa-Gavras (3/5)

Jesus no mundo maravilha, Newton Cannito (3/5)

Os inquilinos, Sérgio Bianchi (2.5/5)

Uma lição para não esquecer, Paul Newman (3/5)

O gerente, Paulo Cezar Saraceni (2.5/5)

Cão sem dono*, Beto Brant e Renato Ciasca (3/5)

Os residentes, Tiago Mata Machado (4/5)

Longa jornada noite adentro, Sidney Lumet (3/5)

The ward, John Carpenter (3/5)

Maratona da morte*, John Schlesinger (2.5/5)

X-men: primeira classe, Matthew Vaughn (2.5/5)

Turnê*, Mathieu Amalric (3/5)

Os trapaceiros*, Woody Allen (4/5)

O clube da luta*, David Fincher (2.5/5)

Os monstros, irmãos Pretti e primos Parente (3/5)

Sombras*, John Cassavetes (4/5)

O sucesso a qualquer preço, James Foley (3/5)

Faces*, John Cassavetes (5/5)

Daddy longlegs*, Josh e Benny Safdie (5/5)

Sem limites, Neil Burger (1/5)

The pleasure of being robbed*, Josh e Benny Safdie (3/5)

Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles, Chantal Akerman (5/5)

Melancolia, Lars von Trier (3.5/5)

O casamento do meu ex, Galt Niederhoffer (1.5/5)

A minha versão do amor, Richard J. Lewis (2/5)

Lenny, Bob Fosse (5/5)

Superbad*, Greg Mottola (3.5/5)

Super 8, J.J. Abrams (3/5)

Cidade de Deus*, Fernando Meirelles (3/5)

Rosetta*, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (4/5)

Hesher, Spencer Susser (2/5)

A árvore da vida, Terrence Malick (3.5/5)

Intriga internacional*, Alfred Hitchcock (4/5)

Um mundo perfeito*, Clint Eastwood (4/5)

Meeks cutoff, Kelly Reichardt (3.5/5)

Caminho da liberdade, Peter Weir (3/5)

A alegria, Felipe Bragança (2.5/5)

Iluminados, Cristina Leal (2/5)

Bróder*, Jeferson De (3/5)

A bittersweet life, Jee-woon Kim (4/5)

Win win, Thomas McCarthy (2/5)

A mocidade de Lincoln, John Ford (5/5)

Morro do céu, Gustavo Spolidoro (3/5)

Submarino, Richard Ayoade (3/5)

Fahrenheit 451, François Truffaut (3/5)

O homem do futuro, Cláudio Torres (1.5/5)

A garota da vitrine, Steve Martin (1.5/5)

Funny ha ha, Andrew Bujalski (3/5)

Admiração mútua, Andrew Bujalski (4/5)

Beeswax, Andrew Bujalski (4/5)

Daquele instante em diante, Rogério Velloso (3/5)

Ex isto, Cao Guimarães (3/5)

Medianeras, Gustavo Taretto (2/5)

Além da estrada, Charly Braun (1/5)

A condessa descalça, Joseph L. Mankiewicz (4/5)

Road to nowhere, Monte Hellman (4/5)

Riscado, Gustavo Pizzi (3/5)

Manhattan*, Woody Allen (5/5)

Pina, Wim Wenders (3/5)

Ninho familiar, Béla Tarr (3/5)

O cavalo de turim, Béla Tarr (5/5)

O homem de Londres, Béla Tarr (4/5)

Macbeth, Béla Tarr (3/5)

Claire Denis – a errante, Sébastien Lifshitz (3/5)

Curtas Claire Denis + O vestido à Cerceau + Nice, very nice, Claire Denis (2.5/5)

Sexta-feira à noite, Claire Denis (3.5/5)

O intruso, Claire Denis (5/5)

Dane-se a morte, Claire Denis (4/5)

Chocolate, Claire Denis (3.5/5)

Bom trabalho, Claire Denis (5/5)

U.S. go home, Claire Denis (3.5/5)

35 doses de rum, Claire Denis (4/5)

Nenette e Boni, Claire Denis (3/5)

Vers Mathilde, Claire Denis (4/5)

Minha terra, África*, Claire Denis (4/5)

Tio Kent, Joe Swanberg (2/5)

Chelsea on the rocks,  Abel Ferrara (3.5/5)

O moinho e a cruz, Lech Majewski (2.5/5)

Matador de aluguel*, Rowdy Herrington (3/5)

Drive, Nicolas Winding Refn (3.5/5)

Meia-noite em Paris*, Woody Allen (4/5)

O garoto da bicicleta, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (4/5)

Quero matar meu chefe, Seth Gordon (2/5)

Vivendo na corda bamba, Paul Schrader (3.5/5)

Red state, Kevin Smith (2.5/5)

Attack the block, Joe Cornish (3/5)

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios,  Beto Brant e Renato Ciasca (3/5)

O dia em que ele chegar, Hong Sang-soo (4/5)

Isto não é um filme, Jafar Panahi (3.5/5)

Oki’s movie, Hong Sang-soo (4/5)

Fora de Satã, Bruno Dumont (2.5/5)

Um pouco mais perto, Matthew Petock (1/5)

Periferic, Bogdan George Apetri (2/5)

Habemus papam, Nanni Moretti (4/5)

Irmãs jamais, Marco Bellocchio (4/5)

O desaparecimento do gato, Carlos Sorin (3/5)

Histórias da insônia, Jonas Mekas (3.5/5)

Las acacias, Pablo Giorgelli (3/5)

No lugar errado, irmãos Pretti e primos Parente (2.5/5)

Cisne, Teresa Villaverde (3/5)

O futuro, Miranda July (1/5)

Os 3, Nando Olival (0.5/5)

Sábado inocente, Alexander Mindadze (3/5)

Caverna dos sonhos esquecidos, Werner Herzog (2.5/5)

Low life, Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval (4/5)

Fausto, Aleksander Sokurov (5/5)

A rede social*, David Fincher (3/5)

Rei Lear*, Jean-Luc Godard (4/5)

Chantal Akerman, de cá*, Gustavo Beck e Leonardo Ferreira (3.5/5)

A pele que habito, Pedro Almodóvar (3.5/5)

Juízo final, Neil Marshall (3/5)

Robocop, o policial do futuro*, (3/5)

Dia e noite, Hong Sang-soo (5/5)

Margin call, J.C. Chandor (3/5)

Like crazy, Drake Doremus (1.5/5)

O céu sobre os ombros, Sérgio Borges (4/5)

Trabalhar cansa, Juliana Rojas e Marco Dutra (3/5)

Woody Allen: a documentary, Robert Weide (2/5)

Peças

45 minutos, Roberto Alvim (3/5)

Mantenha fora do alcance de crianças, Rodrigo Batista (0/5)

Gargólios, Gerald Thomas (1.5/5)

Fragmentos do desejo, Artur Ribeiro e André Curti (2.5/5)

Se uma janela se abrisse, Tiago Rodrigues (3.5/5)

A galinha degolada, Jefferson Bittencourt (1/5)

Jaguar cibernético (parte 1 e 2), Francisco Carlos (3/5)

Jaguar cibernético (parte 3 e 4), (3.5/5)

Édipo, Elias Andreato (2/5)

Ópera dos vivos, Sérgio de Carvalho (5/5)

Preferiria não?, Denise Stoklos (3/5)

Prêt-à-porter 10, CPT (2.5/5)

Lamartine babo*, Emerson Danesi (2.5/5)

Os órfãos, Karina Casiano (0/5)

Disney Killer, Darson Ribeiro (1/5)

Uma flauta mágica, Peter Brook (3/5)

A crônica da casa assassinada, Gabriel Villela (1.5/5)

Oxigênio, Marcio Abreu (4/5)

Os náufragos da louca esperança, Ariane Mnouchkine (5/5)

O casamento suspeitoso, Sérgio Ferrara (2/5)

O silêncio depois da chuva, Leonardo Moreira (2.5/5)

Tio Vânia, Yara de Novaes (3/5)

Livros

Retrato de um viciado quando jovem, Bill Cleg (3.5/5)

Alvo noturno, Ricardo Piglia (3/5)

Nêmesis, Philip Roth (3.5/5)

O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald (5/5)

Ao anoitecer, Michael Cunningham (3/5)

As coisas da vida, António Lobo Antunes (4/5)

Como funciona a ficção*, James Wood (4/5)

A paixão de A.,  Alessandro Baricco (3/5)

Um dia, David Nicholls (1/5)

História do cabelo, Alan Pauls (4/5)

Accidental genius: how John Cassavetes invented the american independent film, Marshall Fine (3/5)

O que é o contemporâneo? e outros ensaios, Giorgio Agamben (4/5)

A sangue frio, Truman Capote (3.5/5)

Monodrama, Carlito Azevedo (4/5)

* Revistos/relidos

[Meses anteriores: janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho]

Assim: eu me apaixonei verdadeiramente uma única vez, de maneira irreversível. Há paixões aqui e ali, pra lá e pra cá, mas nada comparado a essa vez, que foi algo do tipo terminal. Não houve luzes piscando e nem sinos tocando, asseguro. Foi normal, como toda paixão costuma ser. Eu a conheci por intermédio de uma amiga em comum. Ela, a amiga, disse que a garota era nova (muito nova) e bonitinha, e que estava interessada em mim.

Era um período nebuloso da minha vida (sempre é). Eu fazia faculdade. Eu trabalhava numa locadora. Eu via filmes sem parar. Eu lia um bocado também. Eu queria ser aceito. Eu ia a matinês e cuidava da aparência. Eu queria ser alguém desejável. Eu queria que todos me vissem como alguém interessante. Eu queria, de alguma forma, ser notado. Entendam: eu tinha dezoito anos. A gente não tinha internet. A gente não tinha as redes sociais. A gente não podia simplesmente dar um “curtir” e todo mundo ficava sabendo sua cadeia de interesses, se valia ou não a pena manter contato com esse ou com aquele. A gente tinha o futebol no sábado e a matinê no domingo. E só.

Aí apareceu essa garota. “Ela tá interessada em você, disse que você é bonitinho.”

Eu topei um encontro, no prédio dela, sob a luz do luar e tal.

“Então, e aí?”

“E aí?”

“Você tem certeza que sou eu mesmo?”

“É, acho que sim.”

“Acho que sim?”

“É claro que é você, né.”

E aí a gente se beijou. E o resto é história.

Deu pra notar que eu não me sentia alguém desejável. Eu nem mesmo acreditava que alguém do sexo oposto pudesse se interessar por mim apenas pela minha aparência (continuo não acreditando nisso). Mas deu certo. Continua dando, aliás. Talvez hoje a aparência tenha sido colocada pra escanteio, em troca da vida em comum, compartilhada, das coisas todas que fazem barulho e não nos deixam ver que lá no fundo os tremores da paixão ainda permanecem com seus sinais vitais intactos, sobretudo quando nos lembramos, quase sem querer, como foi que tudo começou.

Trilhas sonoras de amor perdidas (3/5) fala de um começo (e de um fim). De um cara que conhece uma garota. De um cara que conhece uma garota e se apaixona por ela. Em diversos momentos o cara habitava um pedaço de mim, sabe. Ele dizia e pensava as coisas como eu dizia e pensava (e ainda penso). Eu não consigo falar dos trabalhos do Hirsch de maneira objetiva. O Hirsch sempre me pega pela emoção. O Hirsch é o nosso Wes Anderson sem slow motion. O coração é um músculo elástico, e o meu sempre se dobra diante das investidas da Sutil. Dessa vez não foi diferente. Segurei as lágrimas. Duas vezes. Mas, indiferente aos meus esforços, as lágrimas todas foram surgindo tal como rugazinhas incipientes. Eu me via ali, no palco. Minha vida ali, toda ela, de fio a pavio.

É uma peça íntima. A mais íntima e passional da Sutil, sem dúvida (mesmo A vida é cheia de som e fúria não era tão descaradamente próxima, confessional e autobiográfica quanto essa última). A mais aberta a críticas também, já que o material parece um tanto afetado e aberto e disperso.

Nem de longe. Da mesma forma que não dá pra ver uma montagem do Bortolotto e exigir dele algo que não é dele, não dá pra ver essa última montagem da Sutil e exigir que o material seja mais fechado e direto e coeso.

É o que é, e pronto. Minto: é o que somos, e pronto.

Guilherme Weber é de uma fragilidade cortante, e eu só o vi tão pleno e irrepreensível em cena em Thom pain – Lady grey (a saber: não esquecer da cena do cinema em Educação sentimental do vampiro). Natália Lage é de uma altivez cativante, mesmo quando o registro parece sofrer de certo artificialismo. Os elementos da cena não poderiam ser mais simples e eficazes. Fazer com que o drama seja “contado” (discurso indireto), mais do que “mostrado” (discurso direto), possibilita à narrativa, à dramaturgia, uma fluidez e dinâmica notáveis no que se refere aos espaços e tempos distintos. Enfim.

Eu não saberia dizer se “a função da música é fazer com que pessoas emocionalmente deformadas se comuniquem umas com as outras”. Sei não, sei não. Sei que a peça se comunicou diretamente e irrevogavelmente comigo. Sei também que em algum lugar aqui dentro, ela fica, a tocar, a tocar, a tocar.

Filmes

Paper man, Kieran Mulroney Michele Mulroney (2/5)

Another year, Mike Leigh (4/5)

The sunset limited, Tommy Lee Jones (2/5)

A loja da esquina, Ernest Lubitsch (5/5)

Barfly*, Barbet Schroeder (4/5)

Reencontrando a felicidade, John Cameron Mitchell (2/5)

Bellamy, Claude Chabrol (2.5/5)

A casa do diabo, Ti West (3.5/5)

O último tango em Paris*, Bernardo Bertolucci (5/5)

Noites brancas*, Luchino Visconti (4/5)

Esboços de Frank Gehry, Sydney Pollack (3/5)

Como você sabe, James L. Brooks (3/5)

Tuesday, after Christmas, Radu Muntean (4/5)

A lula e a baleia*, Noah Baumbach (5/5)

Essential killing, Jerzy Skolimowski (4/5)

O sonho de Cassandra*, Woody Allen (3.5/5)

Rota de colisão, Stuart Gordon (2.5/5)

Gata em teto de zinco quente, Richard Brooks (4/5)

Mãe e filho*, Aleksandr Sokúrov (4/5)

Conto de inverno, Eric Rohmer (4/5)

Notre jour viendra, Romain Gavras (3/5)

Andarilhos, Cao Guimarães (3/5)

Peças

Devassa, Nehle Franke (2.5/5)

Antes da coisa toda começar, Paulo de Moraes (2.5/5)

Pterodátilos, Felipe Hirsch (3.5/5)

Peças, Luiz Päetow (5/5)

Ex-máquinas**, Luiz Päetow (SA)

Lixo e purpurina, Chico Ribas (0/5)

Savana Glacial, Renato Carrera (3/5)

Livros

Eu falar bonito um dia, David Sedaris (3.5/5)

Invisível, Paul Auster (2.5/5)

Tempo passado (cultura da memória e guinada subjetiva), Beatriz Sarlo (4/5)

Pigmaleão, George Bernard Shaw (4/5)

Fama e anonimato, Gay Talese (5/5)

* Revistos/relidos

** Sem avaliação (isso não quer dizer que a coisa seja ruim; nem de longe)

Beckett sabia que os imbecis são a regra, e como não queria depender das exceções, eis a rubrica como escritura dramatúrgica para além de sua função primeira, que alguns acreditam servir apenas como indício pantomímico.

Rubrica é dramaturgia, imbecis. Obliterar rubricas é o equivalente a cortar diálogos. Rubrica é poesia. Rubrica é literatura. Por essa razão Edward Albee (o maior dramaturgo vivo), em entrevista à Folha, insistiu que lê peças de teatro porque quer saber o que está acontecendo naquela história. E acrescenta: “Se vejo uma montagem sem antes ter lido o texto, não tenho a certeza de estar assistindo à peça que o dramaturgo imaginou. Há uma hierarquia que deve ser respeitada, que determina que o texto venha antes, e a sua interpretação, depois. Esse deve apenas reforçar o que o autor concebeu. Em duas ocasiões, senti que isso não estava acontecendo, e o resultado foi horrível. Mas não quero falar sobre isso. Você tem de ser forte para garantir que a sua visão é o que a platéia vai receber, porque às vezes tentam abrandá-la, facilitá-la, torná-la menos perturbadora, mais digestiva. Diretores às vezes fazem isso, seguindo comandos de quem está colocando dinheiro na produção”.

Leia novamente: “Você tem de ser forte para garantir que a sua visão é o que a platéia vai receber, porque às vezes tentam abrandá-la, facilitá-la, torná-la menos perturbadora, mais digestiva”.

Pobre Albee. Soubesse que seu texto, A senhora de Dubuque (1/5), está sofrendo às sextas, sábados e domingos do efeito digestivo, reivindicaria um impedimento sumário da montagem, alegando (1) que o diretor Leonardo Medeiros é alguém acometido por nanismo leitor, o que em outras palavras é o mesmo que dizer que determinado indivíduo lê (compreende) superficialmente, lê como um bebê engatinha, ou (2) ainda, e pior: que o diretor-ator Leonardo Medeiros (o ator fetiche de Selton Mello, segundo suas próprias palavras) acredita efetivamente que sua montagem dê conta de tatear (roçar) o mundo proposto por Albee, o que seria, no mínimo, risível.

Eu poderia comentar, mesmo que brevemente, acerca do plantel de atores e suas respectivas interpretações (por que, Gatti, por que se rendestes?), bem como a iluminação orgástica de Beto Bruel ou a cenografia extasiante de Mira Andrade, mas minha produção de bílis diária atingiu o cume.

Fiquemos com Albee: “O que a arte precisa é ser mobilizadora de nossa mente e de nossas emoções. Ela não tem de nos deixar felizes, mas sim mais conscientes de nossos valores. E deve nos levar a interrogar se estamos dando conta ou não de nossas responsabilidades. Não entendo como alguém pode querer ir ao teatro só para ver atores voando suspensos por fios [referência a Homem-Aranha]. Vá ao circo, então! O teatro deve mobilizar o intelecto e o olhar”.


Meia garrafa de whisky, dois filmes do Cassavetes, dois shows do Van Morrison. Existe um tipo de felicidade subterrânea que você não vai conseguir entender no seu dialeto. Você sequer faz idéia de quantas sílabas ela tem, Breno. Tenta pronunciar e sua vaidade de sujeito que aplica multas nos condôminos vai te fazer acreditar que você tem problemas de dicção.

Li as críticas. Impressas e virtuais. Uma vergonha, dizia uma delas. Um fracasso total, dizia uma outra. Quando não atacavam diretamente o autor, ficavam nas preliminares. Adjetivos e mais adjetivos. Li o romance (novela) praticamente duas vezes. Procurei os defeitos, o fracasso, a vergonha. Não estão lá (a não ser que tomemos o personagem como exemplo).

Philip Roth mantém a excelência de sempre (isso até soa redundante). E se a densidade de Homem Comum ou os desdobramentos de Indignação (para ficarmos nos mais recentes) não fazem parte de A humilhação, é mais uma escolha do que uma incapacidade do autor.

Explico: Simon Axler é um ator respeitado, e sua biografia o coloca entre os maiores intérpretes de sua geração. Contudo, como num passe de mágica, perde a capacidade de atuar. Isso mesmo: o talento morreu. Ou: o talento nunca existiu.

Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia se comunicar com a platéia. Seu talento havia morrido.

Esse é o primeiro parágrafo. E, como num conto convencional, o início é uma isca (o livro é dividido em três partes, como os três sinais característicos antes do início de uma peça; como os três atos de outra). O que teria acontecido a Simom Axler? Quem é Simom Axler na verdade? Diante dessas indagações, Roth continua a dissecar a velhice sem complacência ou afago, mas vai além.

Nada é duradouro o bastante para nos fazer feliz e a qualquer momento podemos perder tudo. Não se engane, diz Roth: substituições não substituem nada, e quando alguma coisa acaba ela acaba, e só.

A onipotência do acaso, dirá Simon Axler adiante, como se tentasse explicar a si mesmo a razão dos pesares recentes. Poderia dizer, num exercício pobre de síntese, que A humilhação é a resposta ao mal-estar de existir. De existir sem certezas. O acaso é Deus. Daí o desespero, a angústia e o desamparo de Axler. Se nem mesmo o talento e a biografia  (as marcas que dizem quem fomos e somos) são construções sólidas, o que nos resta?

A humilhação. A humilhação de estar vivo.