Posts marcados Pulitzer

Filmes

Caça às bruxas, Dominic Sena (0/5)

It’s kind of a funny story, Anna Boden e Ryan Fleck (2.5/5)

Catfish, Henry Joost e Ariel Schulman (3/5)

Ervas daninhas*, Alain Resnais (5/5)

Filme socialismo, Jean-Luc Godard (5/5)

Histórias de amor duram apenas 90 minutos, Paulo Halm (2/5)

Stella, Sylvie Verheyde (2.5/5)

Badlands, Terrence Malick (4/5)

Days of heaven, Terrence Malick (4/5)

O mundo odeia-me, Ida Lupino (4/5)

Rede de intrigas, Sidney Lumet (5/5)

Quando você viu seu pai pela última vez, Anand Tucker (2/5)

Jack goes boating, Philip Seymour Hoffman (2/5)

O sentido da vida*, Terry Jones (3.5/5)

Breves entrevistas com homens hediondos, John Krasinski (0/5)

O discurso do rei, Tom Hooper (2.5/5)

Blue valentine*, Derek Cianfrance (4/5)

Directed by John Ford, Peter Bogdanovich (3/5)

Ricardo III – um ensaio*, Al Pacino (3/5)

Procedimento operacional padrão*, Errol Morris (2/5)

Bonequinha de luxo*, Blake Edwards (4/5)

127 horas, Danny Boyle (2/5)

O espantalho, Jerry Schatzberg (5/5)

Vengeance, Johnnie To (4/5)

A erva do rato*, Júlio Bressane (3/5)

Peças

Anticlássico, Alessandra Colasanti (3/5)

À meia-noite um solo de sax na minha cabeça, Mário Bortolotto (3/5)

Livros

Diálogos, Gilles Deleuze (4/5)

The zoo story, Edward Albee (5/5)

Cachalote, Daniel Galera e Rafael Coutinho (3/5)

* Revistos/relidos

Em 2006-2007 o Tommy Lee foi dirigido pelos Coen num filme baseado num livro do Cormac McCarthy (mestre supremo). Em 2008 o mundo conheceu o vovô Cormac (as pessoas, pobres pessoas, não lêem; as pessoas, pobres pessoas, vão ao cinema). Em 2008 as pessoas ficaram impressionadas com a estória do Chigurh e do xerife Bell (vivido por Tommy Lee) e falaram nossa o Javier Bardem é o novo Marlon Brando de peruca e tal. A estória, pessoas, foi baseada num livro menor do vovô Cormac e no entanto deu pra sacar qual é a do vovô, né. É: eu dizia que o mundo, as pessoas, passaram a falar do vovô como alguém mais próximo, com um tipo de intimidade quase promíscua, sabe, e num nível bem superficial, ao ponto de em filas de supermercado eu ouvir senhoras com a idade da minha mãe dizerem que o Cormac é um pão. Inclusive ele esteve no Oscar no ano em que o mundo, as pessoas, os animais e até mesmo as plantas passaram a pronunciar Cormac McCarthy. Enfim. Tommy Lee apaixonou-se por Cormac e peitou levar um de seus textos (uma peça teatral) pra tevê, numa tentativa, penso, de fazer com que as pessoas, as mesmas que não lêem mas vão ao cinema, e que amam os roteiros da Diablo Cody, pudessem finalmente ver atores interpretando um texto de um autor (maiúsculas) e não uma sequência infindável de joguinhos de palavra e filosofia pop destilada em ironia metafísica, metanarrativa, metalinguística, metabobagem.

O resultado desse telefilme, The sunset limited (2/5), pode ser visto na HBO em março (caça lá os horários). Adianto: o Tommy Lee é um ator e gosta de atores (se você ainda não viu Três enterros, filme dirigido por ele, veja), e talvez aí resida o problema. O texto tá todinho lá (adaptado pelo próprio Cormac), e é uma ousadia mesmo um texto desses ir prum canal de televisão (mesmo fechado), mas como eu tava dizendo: o Tommy Lee gosta sobremaneira dos seus atores e no cinema não dá pra gostar em demasia dos atores, a não ser que você seja o Cassavetes, do contrário fica parecendo teatro filmado, e o cinema pode ser várias coisas, mas nunca teatro filmado. E eu entendo que o Tommy Lee queria mesmo era que o texto (sua carga poética) desse conta da mise-en-scène, e por isso optou por ser o mais simples e direto, deixando portanto que os atores (dois) e o jogo (nada improvisado) seguisse uma suposta naturalidade, e que essa naturalidade, pois, revelasse a essencialidade do que está sendo dito ali, e embora haja momentos em que isso efetivamente ocorra (Tommy Lee em solilóquio derradeiro e pessimista), no geral é como participar de uma leitura dramática sem acepipes.

Beckett sabia que os imbecis são a regra, e como não queria depender das exceções, eis a rubrica como escritura dramatúrgica para além de sua função primeira, que alguns acreditam servir apenas como indício pantomímico.

Rubrica é dramaturgia, imbecis. Obliterar rubricas é o equivalente a cortar diálogos. Rubrica é poesia. Rubrica é literatura. Por essa razão Edward Albee (o maior dramaturgo vivo), em entrevista à Folha, insistiu que lê peças de teatro porque quer saber o que está acontecendo naquela história. E acrescenta: “Se vejo uma montagem sem antes ter lido o texto, não tenho a certeza de estar assistindo à peça que o dramaturgo imaginou. Há uma hierarquia que deve ser respeitada, que determina que o texto venha antes, e a sua interpretação, depois. Esse deve apenas reforçar o que o autor concebeu. Em duas ocasiões, senti que isso não estava acontecendo, e o resultado foi horrível. Mas não quero falar sobre isso. Você tem de ser forte para garantir que a sua visão é o que a platéia vai receber, porque às vezes tentam abrandá-la, facilitá-la, torná-la menos perturbadora, mais digestiva. Diretores às vezes fazem isso, seguindo comandos de quem está colocando dinheiro na produção”.

Leia novamente: “Você tem de ser forte para garantir que a sua visão é o que a platéia vai receber, porque às vezes tentam abrandá-la, facilitá-la, torná-la menos perturbadora, mais digestiva”.

Pobre Albee. Soubesse que seu texto, A senhora de Dubuque (1/5), está sofrendo às sextas, sábados e domingos do efeito digestivo, reivindicaria um impedimento sumário da montagem, alegando (1) que o diretor Leonardo Medeiros é alguém acometido por nanismo leitor, o que em outras palavras é o mesmo que dizer que determinado indivíduo lê (compreende) superficialmente, lê como um bebê engatinha, ou (2) ainda, e pior: que o diretor-ator Leonardo Medeiros (o ator fetiche de Selton Mello, segundo suas próprias palavras) acredita efetivamente que sua montagem dê conta de tatear (roçar) o mundo proposto por Albee, o que seria, no mínimo, risível.

Eu poderia comentar, mesmo que brevemente, acerca do plantel de atores e suas respectivas interpretações (por que, Gatti, por que se rendestes?), bem como a iluminação orgástica de Beto Bruel ou a cenografia extasiante de Mira Andrade, mas minha produção de bílis diária atingiu o cume.

Fiquemos com Albee: “O que a arte precisa é ser mobilizadora de nossa mente e de nossas emoções. Ela não tem de nos deixar felizes, mas sim mais conscientes de nossos valores. E deve nos levar a interrogar se estamos dando conta ou não de nossas responsabilidades. Não entendo como alguém pode querer ir ao teatro só para ver atores voando suspensos por fios [referência a Homem-Aranha]. Vá ao circo, então! O teatro deve mobilizar o intelecto e o olhar”.


Li as críticas. Impressas e virtuais. Uma vergonha, dizia uma delas. Um fracasso total, dizia uma outra. Quando não atacavam diretamente o autor, ficavam nas preliminares. Adjetivos e mais adjetivos. Li o romance (novela) praticamente duas vezes. Procurei os defeitos, o fracasso, a vergonha. Não estão lá (a não ser que tomemos o personagem como exemplo).

Philip Roth mantém a excelência de sempre (isso até soa redundante). E se a densidade de Homem Comum ou os desdobramentos de Indignação (para ficarmos nos mais recentes) não fazem parte de A humilhação, é mais uma escolha do que uma incapacidade do autor.

Explico: Simon Axler é um ator respeitado, e sua biografia o coloca entre os maiores intérpretes de sua geração. Contudo, como num passe de mágica, perde a capacidade de atuar. Isso mesmo: o talento morreu. Ou: o talento nunca existiu.

Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia se comunicar com a platéia. Seu talento havia morrido.

Esse é o primeiro parágrafo. E, como num conto convencional, o início é uma isca (o livro é dividido em três partes, como os três sinais característicos antes do início de uma peça; como os três atos de outra). O que teria acontecido a Simom Axler? Quem é Simom Axler na verdade? Diante dessas indagações, Roth continua a dissecar a velhice sem complacência ou afago, mas vai além.

Nada é duradouro o bastante para nos fazer feliz e a qualquer momento podemos perder tudo. Não se engane, diz Roth: substituições não substituem nada, e quando alguma coisa acaba ela acaba, e só.

A onipotência do acaso, dirá Simon Axler adiante, como se tentasse explicar a si mesmo a razão dos pesares recentes. Poderia dizer, num exercício pobre de síntese, que A humilhação é a resposta ao mal-estar de existir. De existir sem certezas. O acaso é Deus. Daí o desespero, a angústia e o desamparo de Axler. Se nem mesmo o talento e a biografia  (as marcas que dizem quem fomos e somos) são construções sólidas, o que nos resta?

A humilhação. A humilhação de estar vivo.