Semanas atrás reli A construção. Reli porque soube que Roberto Alvim e Caco Ciocler levariam o texto à cena. Reli sobretudo porque queria lembrar, antes de mais nada. Ao reler, lembrei. Fiz associações diversas (o ocaso de Kafka, mas não só), tracei linhas das mais variadas (criação, destruição, a falibilidade da vida, a falta de sentido dela, o fim, o início e principalmente o meio), esbocei temas, metáforas, e todas as operações mentais que a leitura de um texto como o de A construção exige e fornece. Por fim acreditei estar relativamente pronto (essa não é a melhor palavra, mas fica assim) para a encenação, para os modos de ver (uma expressão mais adequada à proposta) que Alvim e Ciocler propõem. Embora o texto seja aberto, não há muitas formas de desenhá-lo em cena, pensei após a leitura. E mantenho essa impressão. Há poucas variáveis, sendas. A que Alvim e Ciocler optaram é de uma justeza (e potência) exemplar. É a obra mais sofisticada de Alvim porque nela sua estética da subtração restitui ao texto literário sua singularidade textual. O teatro de Alvim não é um teatro da palavra, mas do som. Que as palavras deixem de fazer texto, como escreveu Deleuze em relação ao trabalho de Carmelo Bene. E que elas deixem de fazer texto e façam som, que é uma outra forma de fazer texto.
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não chegarei a lugar nenhum, não quero chegar a lugar nenhum.
O interessante nunca é a maneira pela qual alguém começa ou termina. O interessante é o meio, o que se passa no meio. Não é por acaso que a maior velocidade está no meio. As pessoas sonham frequentemente em começar ou recomeçar do zero, e também têm medo do lugar aonde vão chegar, de seu ponto de queda. Pensam em termos de futuro ou de passado, mas o passado, e até mesmo o futuro, é história. O que conta, ao contrário, é o devir: devir-revolucionário, e não o futuro ou o passado da revolução. “Não chegarei a lugar nenhum, não quero chegar a lugar nenhum. Não há chegadas. Não me interessa aonde uma pessoa chega. Um homem pode também chegar à loucura. O que isto quer dizer? “É no meio que há o devir, o movimento, a velocidade, o turbilhão. O meio não é uma média, e sim, ao contrário, um excesso. É pelo meio que as coisas crescem. Era a ideia de Virginia Woolf. Ora, o meio não quer dizer abolutamente estar dentro de seu tempo, ser de seu tempo, ser histórico; ao contrário: é por meio do qual os tempos mais diferentes se comunicam. Não é nem o histórico nem o eterno, mas o intempestivo. E um autor menor é justamente isso: sem futuro nem passado, ele só tem um devir, um meio pelo qual se comunica com outros tempos, outros espaços.
[Gilles Deleuze, Sobre o teatro]
acho que a gente não pode ensinar nada pra ele.
No filme Win win, Stephen Vigman, um dos treinadores de wrestling de uma escola norte-americana, logo após ver Kyle (o novo aluno e nosso protagonista) imobilizar um de seus treinandos, diz naturalmente: “Acho que a gente não pode ensinar nada pra ele”.
Eu conservo essa constatação comigo há alguns anos. As pessoas aprendem coisas o tempo todo, não há dúvidas quanto a isso. Eu e você aprendemos um bocado de coisas com os outros. A questão aqui é de outra ordem. Qualquer área apresenta um conjunto de habilidades básicas que você deve dominar se quiser fazer parte dela. Se quiser ser professor, por exemplo, domine o currículo e fale bem alto (e jamais use calças apertadas). Se quiser ser músico, aprenda a ler partituras (mentira) ou fique próximo à caixa de som nas festas (verdade). Se quiser ser um atleta basta conhecer outros atletas. Acredite em mim, não é preciso muito esforço se aquilo realmente faz algum sentido pra você. As pessoas costumam dizer que aquilo precisa “estar em você”. Em parte isso é verdade. A parte verdadeira desse aparente lugar-comum reside no fato de que se você não sentir qualquer tipo de interesse atávico por isso ou aquilo, todo o resto fica mais difícil. Eu diria, abertamente, que fica insuportável. Portanto, pergunte-se: é isso mesmo que eu quero pra mim? Se você fez essa pergunta assim, com cara de neurastênico, desista o quanto antes. Se você fez essa pergunta sinceramente, desista agora mesmo. Se isso está em você isso está em você e as perguntas estão todas aí, mas não essa pergunta.
Pois bem. Duas garotas (desconhecidas pra mim) conversavam animadamente numa fila de teatro enquanto eu as escutava conversar. O bom de se ir sozinho ao teatro é que você pode participar da conversa dos outros sem ter de participar da conversa dos outros. Essas duas garotas, avidamente curiosas pelo “fazer teatral”, notei rapidamente, afinal ambas tinham olhinhos que brilhavam sem parar enquanto elencavam o sem-número de “vivências teatrais” a que foram submetidas nos últimos meses, semanas, dias, horas, minutos. Enfim. Uma delas, a mais baixinha e opinativa, disse que no teatro os atores vivem a personagem e na tevê os atores interpretam. Ela fez questão de dar um contorno prosódico à palavra vivem em contraste à palavra interpretam. A outra, mais calada, disse o seguinte: “Eu notei que a gente já tá pronta pra fazer teatro. Nos últimos dois anos só o que a gente fez foi curso, um atrás do outro. Faz três anos já que a gente fez cênicas. Sinto que eu já tenho tudo aqui, em mim, só falta colocar em prática”. A mais opinativa foi dura com a colega e disse que não, que ainda faltava muito, que elas precisavam de mais ferramentas antes de fazer qualquer coisa. Ela usou expressões do tipo “salto artístico” e “impulso criativo”. Eu acho que lá no fundo eu sei o que ela queria dizer com isso. Lá no fundo. Insisto: o bacana de participar da conversa dos outros é que você não precisa participar da conversa. Ouvir basta. Pensar basta. Falar é ruim. Falar limita a gente de tal forma. A gente sempre acaba dizendo bobagem. Eu, ultimamente, quando sou instado a falar, fico só na expressão labial. Biquinho de estudante de línguas. As pessoas que não me conhecem acabam estranhando, acreditam que eu tenho algum tipo raro de paralisia facial. Nada disso. É só uma forma mais sofisticada de dizer as coisas com o mínimo de recursos.
A verdade é que eu senti uma vontadezinha (nelsonrodriguiana) de dizer algumas coisas, cuspir no pastel delas. Não disse nada, claro. Digo agora: uma boa formação é algo incontornável. Estar com os que fazem é importante, te dá confiança. Participar de cursos e oficinas e tal abre umas portas pra você, faz com que você note que não há nada de muito genial por aí, além de fornecer material técnico. E só, tá. O que a garota disse é verdade: “Sinto que eu já tenho tudo aqui, em mim, só falta colocar em prática” é uma outra maneira de dizer às pessoas que elas devem parar com essa bobagem de acreditar que falta algo, e que esse algo vai ser locupletado por essa ou aquela oficina, por essa ou aquela pessoa, por esse ou aquele evento imersivo. Em algum momento você precisa começar a agir como se não houvesse mais nada que alguém possa te ensinar que você não possa aprender sozinho. Há coisas que você só encontra por si mesmo.
Estar pronto não é estar completo. Ninguém, em momento algum de sua reduzida vidinha, estará completo (fico ruborizado por ter de dizer algo tão aparente). Estar pronto é tomar consciência de que o momento é esse, e é com essas fichas que você vai apostar.
La omisión de la familia Coleman Ou segunda carta aberta para uma moradora de Londres
Não estranhe o motivo de mais uma carta. Janet Malcolm costuma dizer que “cartas são fósseis dos sentimentos”. É por aí. Embora não tenha qualquer intenção de travar um diálogo virtual com você, eis que estou de volta, saltitante.
Você conhece bem minhas idiossincrasias, e uma carta aberta é algo um tanto afetado, quase um choro infantil (prestem atenção em mim!), uma birra qualquer. Mas o motivo é nobre. Nos conhecemos através do teatro. Ficamos amigos por conta dele. Toda vez que nos encontramos, o assunto gira em torno da mesma obsessão, o teatro, sempre ele. Há uma razão aparente e outra subterrânea pra nossa amizade. A aparente é o teatro e as cadeias todas de afinidades. A subterrânea é que tanto eu quanto você descobrimos o segredo por trás da cortina. O teatro não nos modificou ou melhorou como pessoas. Continuamos sem saber o que fazer das nossas vidas. O teatro simplesmente aliviou (e alivia) o peso da nossa existência. Ele nos fornece algum sentido para além da banalidade que é estar vivo. Ambos acreditamos que o teatro, quando acontece (essa é uma palavra muito importante pra nós) pra valer, restitui um pouco, ao menos um pouco, da nossa humanidade (quando foi que a perdemos?). É como se através dele pudéssemos nos sentir mais vivos, menos anestesiados. Eu não diria que é o nosso estimulante porque estimulantes têm uma ação imediata e uma sensação momentânea. O teatro é mais cancerígeno e longevo que qualquer vício.
Não sei a quantas anda a sua vida teatral por aí. Sei que por aí há peças aos borbotões (corre pra ver o Ricardo III com o Kevin Spacey, taí do seu ladinho, menina). “Atores ingleses são os melhores do mundo”, segundo o João e a Nádia (ok, o Kevin não é inglês, apesar do plantel todo ser). Eu discordo deles com todas as forças, mas deixe estar.
Imagino que você esteja indo pouco ao teatro. Não sei o motivo. Penso que você ainda esteja presa geograficamente nesse fim de mundo aqui. Toca pra frente que a vida é ridiculamente pequena e aborrecida pra ficar estagnada num lugar em que a gente não está. Você deve ter visto Meia-noite em Paris, que fala disso à sua maneira. Se não viu, vai ver logo, né. Não gostando, já sabe o que fazer (tá lembrada do recadinho em Opening night? Pois é). O mutismo seletivo deveria ser um tipo de religião, com direito a um livro sagrado particular. Sei que divago. Sei.
A Rafa cresceu alguns bons centímetros. Cresceu também a sua verve e seu estojo de maquiagem. Dia desses ela perguntou da moça da casa espanhola. Minto, obviamente. A verdade é que ela não se recorda mais de você (não estou mentindo dessa vez). Um ano na vida de uma criança equivale a, no mínimo, quinze anos da vida de um adulto feliz, obeso de satisfação. O bom de se ter a idade da Rafa é que tudo o que existe é o agora. O passado pra eles é ontem e o futuro amanhã. Se a gente pudesse, ao menos de vez em quando, agir dessa maneira, o que não faríamos de nós, não é mesmo?
A Jaq se mantém incrivelmente bêbada e linda. Ela insiste em me fazer crer que tudo está nos genes, e que os meus sofrem espasmos frequentes de melancolia e tédio, e que isso, a longo prazo, fará com que eu me torne um suicida em potencial e um fracassado em tempo integral. Há como discordar de alguém tão otimista? Acredito que não. Pra Jaq a vida deve ser encarada em duas frentes. Álcool e amor. “O amor nunca antes do álcool, e o álcool nunca antes do amor”, ela cantarola, e me faz sorrir.
O motivo da carta, volto a dizer, é nobre. Vi La omisión de la familia Coleman e fiquei preso ao assento. A estória fala de uma família que dissolve seu mobiliário afetivo. A estória, em suma, é simples. A forma com que a estória nos é contada é a coisa. Tipo Sarah Kane. Tipo Jon Fosse. Tipo Michel Vinaver. Tipo o cinema romeno contemporâneo. Tipo “As chaves”, sabe. Sei que sabe. Você melhor do que ninguém sabe do que eu estou falando.
Sei que as duas melhores montagens que vi nesse primeiro semestre são argentinas. Sei também que é uma idiotice comparar o teatro de lá com o de cá sem ter em conta um conjunto maior de encenações. O intercâmbio, sabemos, é feito diante dos melhores resultados. Essas duas peças – Espía una mujer que se mata e La omisión de la familia Coleman – são de um despojamento que dificilmente eu noto por aqui. É um teatro pobre em sua estrutura, mas que foca o ator, sua autoralidade, sua personalidade, seu impulso criativo. É daquelas montagens que eu sei que você gostaria de estar como atriz, viver a experiência, enfim, ser um pouco o que você não é e muito do que você é.
Taí o porquê da carta. Taí a necessidade do relato e tal. Taí a sentimentalidade toda de algodão-doce sem palito, que fica lambuzando a gente, pedindo pra gente comer escondido, longe de todo mundo, longe das outras crianças que deixaram de brincar faz tempo porque o tempo de brincar passou e elas não querem mostrar que um dia brincaram disso também, assim, tipo inocentes, tipo pequenas, tipo por brincar, tipo como se a vida fosse um pique-esconde contra os adultos.
Crescer é como passar do banco do passageiro pro do motorista sem saber como trocar as marchas. Parece que a gente tá sempre dando ré. Às vezes eu me pergunto, baixinho, quando foi que deixamos de fazer o que queríamos fazer e nos tornamos o que todos os outros esperavam que nos tornássemos.
Devemos querer pouco. Devemos querer menos. Devemos viver a vida que planejamos, e só. Viver é tão frágil que não suporta esperar. É pra já. É agora. Foi. É.
Fica bem, baby.
é o Hamlet fazendo um ator que faz o Hamlet.
Filmes, peças e livros de abril
Filmes
Boxing gym, Frederick Wiseman (4/5)
The invention of lying, Ricky Gervais (3/5)
Peixe grande*, Tim Burton (3.5/5)
Public speaking, Martin Scorsese (3/5)
Cemetery junction, Ricky Gervais (2.5/5)
Inside job, Charles Ferguson (2.5/5)
Two-lane blacktop, Monte Hellman (5/5)
Freakonomics, Heidi Ewing (1/5)
Old joy, Kelly Reichardt (4.5/5)
Tokyo, Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho (3.5/5)
Hobo with a shotgun, Jason Eisener (3/5)
A suprema felicidade, Arnaldo Jabor (1.5/5)
Attenberg, Athina Rachel Tsangari (3.5/5)
A falta que me faz, Marília Rocha (4/5)
Cildo, Gustavo Moura (3/5)
O veredito, Sidney Lumet (5/5)
Peças
estudohamlet.com, Cacá Carvalho (1/5)
A lua vem da Ásia, Moacir Chaves (3/5)
A casa amarela, Gero Camilo (3/5)
Fragmentos de O jardim**, Leonardo Moreira (SA)
Livros
Como funciona a ficção, James Wood (4/5)
Notas sobre o cinematógrafo*, Robert Bresson (3/5)
De veludo cotelê e jeans, David Sedaris (3/5)
Ravelstein, Saul Bellow (5/5)
* Revistos/relidos
** Sem avaliação
Espía a una mujer que se mata Ou carta aberta para uma moradora de Londres
Antes de mais nada:
Tchékhov não oferece nenhuma tese. É uma das coisas que tornam os seus personagens insatisfeitos com as suas vidas. Ele não detém uma visão do mundo que se possa discutir à saída do teatro. (…) Tchékhov não sentia nenhuma obrigação de teorizar sobre a vida, mas apenas de registrá-la fielmente como a percebia. Foi capaz de ver o que haviam visto, mas sem que o entendessem, outros escritores antes dele. Escreveu tudo isso para que o mundo entendesse: o funcionamento do ser humano, enquanto indivíduo, com o seu sofrimento íntimo. Tchékhov parou de fazer pregações em idade precoce e tornou-se observador. A sua compreensão da vida revelava a empatia que ele sentia pelas pessoas. (…) A compaixão que Tchékhov revela, universalmente, é o motivo para ele ser muito mais encenado do que outros autores.
Perceba: “Escreveu tudo isso para que o mundo entendesse: o funcionamento do ser humano, enquanto indivíduo, com o seu sofrimento íntimo”.
O trecho (retirado daqui) aí, de Stella Adler, é primoroso. Porque óbvio e sobretudo preciso. É simples: Tchékhov persiste porque não sabemos absolutamente nada acerca de nós. E ao descobrirmos algo acabamos não sabendo o que fazer com esse algo.
Tchékhov mora aqui, na estante de casa, não em razão de ter revolucionado o teatro moderno, ou por ser canônico, ou por ser dos maiores contistas que eu já passei os olhos, ou por ser russo. Nada disso. Tchékhov mora aqui porque eu continuo existindo, apesar de tudo. Tchékhov me ensinou que no final, indiferente a nós, a vida insiste (e nem mesmo o suicídio dá conta de resolver os impasses de uma vida sem respiros).
Insisto eu, também, em ver montagens sucessivas dos seus textos. Chego antes. Saio depois. Carrego lenços, que faço questão de oferecer aos demais, em gesto solidário, e choramos todos, desconsolados. Choramos porque sabemos que mais uma vez Tchékhov rodopia no túmulo a sentenciar: “O que estão fazendo de mim? Eu nunca escrevi tragédias gregas!”.
Pois sim: ele nunca escreveu tragédias gregas. Todavia, os encenadores do lado de cá pensam diferente. A reverência pesa e os intérpretes sofrem (de tédio). E sofremos todos (de tédio, mas não só) ao escutar Tchékhov como se escutássemos uma cantilena eclesiástica.
Eis a confusão: certamente Tchékhov atinge a plenitude do tédio em seus escritos, o que não quer dizer que as montagens tenham de ser tediosas e o tom pesado. A melancolia deve ser servida em fatias generosas de comicidade, e o patético é mais profundo (e revelador) que a austeridade.
Espía a una mujer que se mata (5/5) entendeu isso na prática. Daniel Veronese encena essa versão de Tio Vânia em espaço diminuto, intimista, sem iluminação, sem trilha, praticamente sem mobiliário. Veronese, em entrevista recente, disse que o espaço exíguo aprisiona os atores (e a ele interessa os atores), e os sentimentos tendem a ser mais verdadeiros. Ele não disse com essas palavras, certamente, mas com essa intenção. Eu posso dizer, sem qualquer exagero ou impressão passageira, que o resultado interpretativo (e cênico) beira a perfeição. Há um descontrole real e uma consciência técnica natural (vivida, experimentada) por parte do atores, o que nos coloca em estado constante de deslumbramento, êxtase, encontro.
É como se observássemos ali a vida sendo vida e sendo arte, e como se entre elas não houvesse divisão possível, a não ser pelo fato de ambas ocuparem a cena, em atrito permanente.
Por isso escrevo essa carta aberta, moradora de Londres. Eu não acho que você deva voltar. Eu não voltaria se estivesse no seu lugar. Na verdade, eu não iria (imobilidade é meu primeiro nome). Mas você foi. Faça alguma coisa da sua vida (viver já seria uma grande coisa). Eu não desisti, ainda. E sei que você não desistirá tão cedo.
Desde o dia em que foi, nunca senti tanto a sua falta quanto no último sábado. Não por que quisesse dialogar sobre o que acabara de ver (prefiro seu silêncio), ou que lembrasse de outras peças, ou que, ainda, manifestasse aprovação balançando a cabeça e sorrindo discretamente. Queria que estivesse ali, simplesmente. Já disse a você uma vez que há coisas que são tão íntimas (filmes, livros, peças, músicas e quetais) que não queremos que ninguém mais encontre. Essa é uma delas. Essa peça representa uma súmula de coisas que discutimos diversas vezes, em diversos lugares. Está tudo ali, naqueles atores, naquele espaço cênico. Sem adornos. Só o necessário. Só o que realmente precisa estar ali.
Eu pensei em te falar dos atores, de cada um deles, e de como a vida interior deles é vida interior, sabe (eles existem antes do personagem e o personagem só existe por conta deles). Mas: eu não conseguiria. É como descrever um filme do Cassavetes pra alguém que nunca viu Cassavetes. Os filmes do Cassevetes têm de ser vividos. Descrevê-los suprime o interesse e não corresponde ao que são.
Ao sair da peça fui direto à bilheteria. Comprei dois ingressos para o próximo sábado. Foi um ato automático, admito. É como se eu estivesse dizendo que aquilo me pertencia, os assentos inclusive, aqueles sentimentos todos, aquele estado de ânimo, aquelas vidas. Comprei dois ingressos (repito). Um deles é seu, moradora de Londres. Se tiver de voltar, que seja agora.




