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No geral, por assim dizer, a alma é algo insondável mesmo. Eu não canso de me surpreender com a capacidade polimórfica de algumas pessoas. Com a variedade que alternam disso para aquilo e desse para aquele.

A minha esposa, noites atrás, lia Dostoiévski com a empolgação de uma adolescente num show do The Killers. Sei que a comparação parece um tanto absurda, descabida até, mas pude observar, olhos marejados, que a estória de Noites brancas foi capaz de deixá-la imersa num tipo de experiência estética, ou orgástica, se preferirem, sem precedentes. Engano meu: algo semelhante ocorre quando ela escuta palavras como Lemmy ou Motörhead. Não estou aqui cotejando Motörhead com Doistoiévski, nada disso. Estou simplesmente afirmando que não há como investigar a alma humana apoiando-se em um ou mais dados. É preciso observar de maneira mais detida. É preciso uma certa constância. É preciso conviver com essa alma instável para traçar uma linha coerente.

Há dez anos eu acompanho a alma desnorteada e temperamental da minha esposa. Há dez anos eu conservo dúvidas. Há dez anos eu procuro rascunhar um perfil dela. Sem sucesso. Repito: noites atrás ela lia Dostoiévski. Noites anteriores ela me sacudia, fazendo com que acordasse e fosse até à sala para formar uma palavra num desses jogos televisivos apresentados por loiras anoréxicas que fizeram aula de canto parcialmente e ficaram restritas aos agudos.

Insistia de maneira violenta: “Acerta essa daí, ó. Vai, acerta, quero vê!”, e sorria diabolicamente. “Eu realmente não sei, Jaq”, disse ainda não refeito do susto de ser acordado no meio da noite e, mais, de ser levado a participar de algo que eu, dotado das minhas faculdades mentais, não participaria.

“A palavra é beija-flor, tonto. Vai dormir, vai.”

Eu pensei em dizer alguma coisa antes de voltar pra cama, mas ela estava num nível de felicidade inatingível para alguém como eu. Um dos segredos da Jaq é saber rir disso tudo. E talvez aí é que resida a graça de estar vivo.

Dizem que na tevê brasileira as novelas, as minisséries, os programas de auditório e quetais são naturalistas. Isso quer dizer, penso, que há um estilo verista de interpretação (apresentação), do tipo que mimetiza a vida como ela é. Posso rir? Não há naturalismo na tevê. Minto: quando erram, ao vivo, há (às vezes, às vezes). Do contrário é vaudeville (vaudeville da pior qualidade, que fique claro).

Digo isso apoiado em fatos. Digo isso porque assisto tevê. Digo isso porque fico cada vez mais triste com a tevê. Digo isso, sobretudo, porque acompanho novelas (randomicamente), nas mais variadas emissoras, e porque ao acompanhá-las, e se deter nos atores, noto, entristecidamente, que o histrionismo venceu.

Não há acústica capaz de amortecer os gritos dos atores. Não existem babadores para tantas lágrimas. Estão em busca do “sentimento verdadeiro”, dizem, e daí vale tudo: o exagero é consequência, o grito verdade e o choro evidência.

Enganam-se, enganam a nós, pobres mortais, presos a uma só vida. Os atores da tevê podem ser muitos, viver várias vidas. Nós, por outro lado, temos apenas uma. E monótona. Tediosa. Repleta de tempos mortos. Mas real. Plena de naturalismo e desesperança, digamos.

Semana passada, por razões ainda ocultas até mesmo para mim, acompanhei todos os capítulos de Insensato Coração. Não me julguem. Já me sinto culpado. Embora tenha algo em minha defesa: queria verificar, empiricamente, os rumores a respeito do personagem de Lázaro Ramos. Estarrecido, ao final do capítulo, entendi os rumores. Verti duas lágrimas breves e calei-me.

O público tem razão. Lázaro foi cooptado pela tevê. De ator visceral a galã negro global e pegador de ocasião. E o problema não reside em termos um negro pegador e bem-sucedido na novela das oito, nada disso. Isso é bom, na verdade (subverte o padrão). O que acontece é que o personagem de Lázaro “não convence”. E isso não tem nada a ver com ele ser negro e galã e pegador e bem-sucedido. Há personagens que cabem e personagens que não cabem. Atores não aceitam esse truísmo. Preparadores de elenco (sim, eles existem) repudiam essa verdade inequívoca.

Nem todos os atores são talhados para esse ou aquele personagem. Lázaro poderia usar o estereótipo a seu favor, e fazer de um personagem tipificado um ser de tintas mais precisas, humanas. Mas ele escolheu adequar-se ao papel que lhe foi encomendado, pois.

E se alguém ainda insistir em repetir que a tevê brasileira é naturalista, realista, “fátimatolediana”, exija provas. A única escola naturalista atualmente tem sede na Romênia. Ao invés de atores e diretores solicitarem a dama do cachorrinho, deveriam fazer um intensivo de cinema romeno, e compreender de uma vez por todas que naturalismo nada tem a ver com pedir um café sem demonstrar que está pedindo um café.

Insisto em ver programas na tevê aberta. Aos domingos. Isso quer dizer que ando perdendo parte considerável da minha sensibilidade e discernimento do mundo que nos rodeia (vovô adorava dizer o mundo que nos rodeia antes de explanar acerca do sentido da vida). Ainda há pouco, vendo Entrelinhas, na Cultura, a apresentadora algo loirinha e articulada e irritante (e atriz; e versátil; e loira) indagava atores.

Qual a relação dos atores com a literatura. Qual o sentido desta na vida destes. No geral,  digamos que as respostas iam da boçalidade à banalidade, o que necessariamente não atenta contra a nossa saúde mental já habituada com a superficialidade presente em programas desse tipo. Mas aí algo inusitado acontece. Os atores questionados (atores de proeminência e currículo uspiano) dizem que, bem, ah, sabe, é meio difícil ler uma peça de maneira solitária. E que a peça só tem vida quando lida em grupo ou encenada (atentar para o fato de que uma das atrizes disse que uma peça tem de ser lida em voz alta). E que uma peça é tal qual um roteiro cinematográfico, e por isso um rascunho daquilo que terá corpo e sentido no palco, e que por mais que Shakespeare ou Tchecov tenham algo a dizer, textualmente uma peça não se sustenta como literatura. E um deles (dos atores, dos atores) ainda fez questão de ressaltar que não lia qualquer livro não, que é isso!, nada disso, apenas livros que tinham relação direta com a vida do próprio, afinal livros têm de falar apenas de coisas passíveis no meu mundo, sabe.

Sei não. Sei não.