Dizem que na tevê brasileira as novelas, as minisséries, os programas de auditório e quetais são naturalistas. Isso quer dizer, penso, que há um estilo verista de interpretação (apresentação), do tipo que mimetiza a vida como ela é. Posso rir? Não há naturalismo na tevê. Minto: quando erram, ao vivo, há (às vezes, às vezes). Do contrário é vaudeville (vaudeville da pior qualidade, que fique claro).
Digo isso apoiado em fatos. Digo isso porque assisto tevê. Digo isso porque fico cada vez mais triste com a tevê. Digo isso, sobretudo, porque acompanho novelas (randomicamente), nas mais variadas emissoras, e porque ao acompanhá-las, e se deter nos atores, noto, entristecidamente, que o histrionismo venceu.
Não há acústica capaz de amortecer os gritos dos atores. Não existem babadores para tantas lágrimas. Estão em busca do “sentimento verdadeiro”, dizem, e daí vale tudo: o exagero é consequência, o grito verdade e o choro evidência.
Enganam-se, enganam a nós, pobres mortais, presos a uma só vida. Os atores da tevê podem ser muitos, viver várias vidas. Nós, por outro lado, temos apenas uma. E monótona. Tediosa. Repleta de tempos mortos. Mas real. Plena de naturalismo e desesperança, digamos.
Semana passada, por razões ainda ocultas até mesmo para mim, acompanhei todos os capítulos de Insensato Coração. Não me julguem. Já me sinto culpado. Embora tenha algo em minha defesa: queria verificar, empiricamente, os rumores a respeito do personagem de Lázaro Ramos. Estarrecido, ao final do capítulo, entendi os rumores. Verti duas lágrimas breves e calei-me.
O público tem razão. Lázaro foi cooptado pela tevê. De ator visceral a galã negro global e pegador de ocasião. E o problema não reside em termos um negro pegador e bem-sucedido na novela das oito, nada disso. Isso é bom, na verdade (subverte o padrão). O que acontece é que o personagem de Lázaro “não convence”. E isso não tem nada a ver com ele ser negro e galã e pegador e bem-sucedido. Há personagens que cabem e personagens que não cabem. Atores não aceitam esse truísmo. Preparadores de elenco (sim, eles existem) repudiam essa verdade inequívoca.
Nem todos os atores são talhados para esse ou aquele personagem. Lázaro poderia usar o estereótipo a seu favor, e fazer de um personagem tipificado um ser de tintas mais precisas, humanas. Mas ele escolheu adequar-se ao papel que lhe foi encomendado, pois.
E se alguém ainda insistir em repetir que a tevê brasileira é naturalista, realista, “fátimatolediana”, exija provas. A única escola naturalista atualmente tem sede na Romênia. Ao invés de atores e diretores solicitarem a dama do cachorrinho, deveriam fazer um intensivo de cinema romeno, e compreender de uma vez por todas que naturalismo nada tem a ver com pedir um café sem demonstrar que está pedindo um café.