E, com tudo isso, os depressivos se tornam os mais raivosos convertidos à joie de vivre. A razão disso é que a joie de vivre e a depressão não são antagônicas, mas sim parentes, praticamente gêmeas. Quando vejo rituais da joie de vivre, sempre noto, como um fantasma na tela da televisão, a depressão bem ali ao lado. Conheço um homem, dominado por um pai poderoso, que achou que tinha saído de uma longa depressão ocasionada, em sua mente, pelo divórcio. Toda vez que eu o encontrava, ele dizia que a vida estava cada vez melhor. Agora ele conseguia correr longos percursos, estava introduzindo alimentação saudável em sua rotina, estava em melhor condição física aos 40 do que aos 25; agora tinha namoradas, estava saindo com três mulheres, tinha um bom terapeuta, não via a hora de alugar um chalé num bosque, melhor que o do verão anterior… Não sei se era por causa de seu tom de voz ao dizer isso, dos ombros caídos ou do quê, mas o fato é que eu sempre tinha vontade de cair no choro. Se pelo menos ele admitisse que estava arrasado, eu poderia consolá-lo ali, na hora, em vez de ficar constrangido ao notar a dor profunda que o afligia, como uma navalha que ele tivesse engolido e o cortasse por dentro. E o cheiro da dor ainda empesteava o recinto como nos velhos tempos, aquele fedor de repolho estragado estava em sua roupa de ginástica, mas ele não reconhecia, achava que o cheiro tinha ido embora. O terapeuta lhe disse para perdoar a si mesmo, e ele tinha mesmo feito isso, o pobre schnook (pessoa tola, estúpida). Mas me diga: por que alguém precisa de um regime tão estilizado e disciplinado de recreação se não estiver deprimido?
[Phillip Lopate, Serrote #8]