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E, com tudo isso, os depressivos se tornam os mais raivosos convertidos à joie de vivre. A razão disso é que a joie de vivre e a depressão não são antagônicas, mas sim parentes, praticamente gêmeas. Quando vejo rituais da joie de vivre, sempre noto, como um fantasma na tela da televisão, a depressão bem ali ao lado. Conheço um homem, dominado por um pai poderoso, que achou que tinha saído de uma longa depressão ocasionada, em sua mente, pelo divórcio. Toda vez que eu o encontrava, ele dizia que a vida estava cada vez melhor. Agora ele conseguia  correr longos percursos, estava introduzindo alimentação saudável em sua rotina, estava em melhor condição física aos 40 do que aos 25; agora tinha namoradas, estava saindo com três mulheres, tinha um bom terapeuta, não via a hora de alugar um chalé num bosque, melhor que o do verão anterior… Não sei se era por causa de seu tom de voz ao dizer isso, dos ombros caídos ou do quê, mas o fato é que eu sempre tinha vontade de cair no choro. Se pelo menos ele admitisse que estava arrasado, eu poderia consolá-lo ali, na hora, em vez de ficar constrangido ao notar a dor profunda que o afligia, como uma navalha que ele tivesse engolido e o cortasse por dentro. E o cheiro da dor ainda empesteava o recinto como nos velhos tempos, aquele fedor de repolho estragado estava em sua roupa de ginástica, mas ele não reconhecia, achava que o cheiro tinha ido embora. O terapeuta lhe disse para perdoar a si mesmo, e ele tinha mesmo feito isso, o pobre schnook (pessoa tola, estúpida). Mas me diga: por que alguém precisa de um regime tão estilizado e disciplinado de recreação se não estiver deprimido?

[Phillip Lopate, Serrote #8]

Nunca tive um projeto literário ou um plano. Não pretendo pintar um painel do meu tempo ou coisa parecida, nem quero renovar o gênero. Nem mesmo estou preocupado em ser original. Tentar ser original é muito perigoso. Quando alguém diz que vai tentar revolucionar a literatura, quase sempre o resultado é ridículo. Talvez eu escreva por ser um modo de pensamento sem paralelo. Pensa-se mais claramente quando se tem de colocar algo em palavras. Mesmo pessoas que não são escritores profissionais clareiam a mente escrevendo cartas ou mantendo um diário. 

Já se disse que escrever é um jeito único de conhecer, mas é mais um jeito único de reconhecer. Acontece com frequência em Proust, em particular. A gente lê uma coisa e diz: “Sim, é verdade, já passei por isso, já vi isso, já senti isso, mas não seria capaz de expressá-lo como ele fez. Agora é que sei realmente o que é”. É o que o romance faz melhor do que qualquer outro gênero ou arte, na minha opinião. Não diria que penso melhor quando escrevo. Mas penso diferente.

[Javier Marías, As entrevistas da Paris Review, vol. 1]

He said, ‘Listen, Jasper. Pride is the first thing you need to do away with in life. It’s there to make you feel good about yourself. It’s like putting a suit on a shrivelled carrot and taking it out to the theatre and pretending it’s someone important. The first step in self-liberation is to be free of self-respect. I understand why it’s useful for some. When people have nothing, they can still have their pride. That’s why the poor were given the myth of nobility, because the cupboards were bare. Are you listening to me? This is important, Jasper. I don’t want you to have anything to do with nobility, pride, or self-respect. They’re tools to help you bronze your own head.’

[Steve Toltz, A fraction of the whole]

Primo Levi diz que em Auschwitz a morte começa pelos sapatos, e fico imaginando se ele estava se referindo apenas ao tempo no campo ou às décadas depois de calçar o par que conseguiu pegar naqueles cinco segundos decisivos. Primo Levi morreu aos sessenta e oito anos, em Turim, Itália, depois de ter escrito treze livros, boa parte sobre o Holocausto, e ter sido traduzido em várias línguas, e ter retomado sua carreira de químico, e casar e ter filhos, e receber prêmios e virar uma celebridade literária na Europa e no mundo, e fico imaginando se era nesta escolha, um número maior que o pé, um número menor, talvez o número exato por uma sorte rara e invejável entre o milhão e meio de prisioneiros que passaram pelo campo, que ele estava pensando quando abriu a porta do apartamento e caminhou até a escada e nela caiu numa ocorrência que quase nenhum de seus biógrafos julga ter sido acidental. 

[Michel Laub, Diário da queda]

Na cozinha ele disse: “Sei como foi o seu casamento. O tipo de casamento em que um conta tudo pro outro. Você contava tudo pra ela. Eu olho pra você e vejo isso no seu rosto. É a pior coisa que se pode fazer num casamento. Contar pra ela tudo o que você sente, contar pra ela tudo que você faz. É por isso que ela te acha maluco”.

No jantar, comendo mais uma fritada, ele brandiu o garfo e disse: “Você entende, não é uma questão de estratégia. Não estou falando em segredos, em mentiras. Estou falando em ser você mesmo. Se você revela tudo, cada sentimento, pedindo compreensão, você perde uma coisa crucial pra sua autoconsciência. Você tem que saber coisas que os outros não sabem. É o que ninguém sabe sobre você que permite que você se conheça”.

[Don Delillo, Ponto ômega]

“James Tyrone é um monte de falas que a gente tem de dizer, e eu não sei mais fazer isso. James Tyrone é um personagem que a gente tem que ser, e eu não posso mais ser ninguém. Não tem como eu interpretar o James Tyrone. Não sei interpretar nenhum papel.”

“Ora, você se deu mal lá em Washington. Isso acontece com praticamente todo mundo mais cedo ou mais tarde. Nenhuma arte dá garantia absoluta. As pessoas esbarram em obstáculos por motivos que ninguém entende. Mas o obstáculo é só temporário. Ele desaparece e você segue em frente. Não existe nenhum ator de primeira que nunca tenha se sentido desanimado, no fim da linha, incapaz de sair do buraco em que se enfiou. Não existe nenhum ator que nunca tenha parado no meio de uma fala sem saber onde estava. Mas cada vez que você sobe no palco tem uma nova oportunidade. Os atores conseguem recuperar o talento. Você não perde a sua arte depois de quarenta anos de trabalho. Você ainda sabe como entrar e sentar numa cadeira. O John Gielgud dizia que às vezes ele tinha vontade de ser pintor ou escritor. Aí ele podia pegar o desempenho ruim  de uma determinada noite e trabalhar nele até tarde e consertar. Mas isso era impossível. A coisa tinha que ser feita na hora. O Gielgud passou por um período muito ruim, em que nada que ele fazia dava certo. O Oliver também. O Oliver teve uma fase horrorosa. Um problema horroroso. Não conseguia encarar os outros atores, olhos nos olhos. Ele dizia aos outros atores: ‘Por favor, não olhe pra mim, senão eu desabo’. Passou um tempo sem conseguir ficar sozinho no palco. Ele dizia aos outros atores: ‘Não me deixem sozinho’.”

[A humilhação, Philip Roth]