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Escolher outra tag?

Estou me tornando um imbecil, um idiota, um filisteu. Notei isso ao olhar o caderninho de filmes, livros e peças, fora as atualizações por aqui e as circunvoluções ao redor de coisas findas (a média caiu muito; eu caí muito). Pode ser que pra você isso não passe de um interesse periférico e até vulgar, mas a verdade real e definitiva é que estou me tornando um perfeito idiota (no sentido intelectual e existencial; e nos demais sentidos). Antes eu tinha idéias, agora tudo que tenho não passa de uma ou outra impressão nanica e desprovida de autenticidade.

A sensação terrível é de que estão sulcando meu cérebro, essa máquina sensível e altamente desenvolvida. Papai me alertou muito cedo acerca dos riscos de um sistema neural limitado. “A raça humana é complexa e multifacetada, dizem por aí. Bobagem. Das grandes. A raça humana sempre foi disposta em duas categorias.” Quando papai tem uma frase de efeito, um pensamento que ele acredita ser original, ele costuma fazer pausas irritantes e prolongadas.

“Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes. O resto é alteridade solidária, convívio social e aceitação das diferenças. Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes, e nada mais. Arrume alguém interessante e tente viver alguma coisa interessante. A vida não é interessante, então arrume alguém interessante.” Por mais que eu insistisse numa definição mais rica e abrangente, papai era inflexível. Pessoas interessantes. Pessoas desinteressantes.

Eu entendo papai. Ele nunca gostou muito de gente. As pessoas interessantes, dentro da sua taxonomia particular, eram todas aquelas que o faziam rir. O restante não passava de seres insuportáveis, gente que ele dizia fazer ruído mesmo em silêncio.

“Se uma pessoa não te faz rir, não faz cócegas em sua caixa de ossos, o que resta a vocês dois? Não se engane, pequeno idiota: isso aí vai acabar, sempre acaba, e se você não puder rir, o que resta a vocês dois?”

Fico envergonhado e visivelmente ruborizado por estar muito mais próximo da categoria que papai sente aversão. Estou provocando ruídos em excesso. Estou altamente desinteressante. Não provoco riso em ninguém. Não rio de nada. Se eu sofresse de afetação, diria algo como eu preciso de alguma coisa urgentemente. Como afetação e disponibilidade irrestrita à vida nunca entraram na agenda, diria que o momento é de ficar ainda mais quieto. Sentado ao invés de pé. Deitado ao invés de sentado.

Tudo isso me faz pensar numa passagem de Deleuze (mais uma). Uma passagem realmente lúcida, necessária em tempos como os nossos, de expressão (excessiva) e ação (ininterrupta) inúteis. Transcrever essa passagem me acalma, me faz sorrir levemente.

Às vezes se age como se as pessoas não pudessem se exprimir. Mas de fato, elas não param de se exprimir. Os casais malditos são aqueles aqueles em que a mulher não pode estar distraída ou cansada sem que o homem diga: “O que você tem? Fala…”, e o homem sem que a mulher… etc. O rádio, a televisão, fizeram o casal transbordar, dispersaram-no por toda a parte, e estamos trespassados de palavras inúteis, de uma quantidade demente de falas e imagens. A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vácuos de solidão e de silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se exprimir, ao contrário, elas a forçam a se exprimir. Suavidade de não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer; pois é a condição para que se forme algo raro ou rarefeito, que merecesse um pouco ser dito. Do que se morre atualmente não é de interferências, mas de proposições que não têm o menor interesse. Ora, o que chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele equivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse… Por isso é tão difícil discutir, por isso não cabe discutir, nunca. Não se vai dizer a alguém: “o que você diz não tem o menor interesse”. Pode-se dizer: “está errado”. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. As noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo. Mesmo em matemática: Poincaré dizia que muitas teorias matemáticas não têm importância alguma, não interessam. Não dizia que eram falsas, era pior.

A coisa é muito simples. Eu fiz trinta anos, e ao invés da crise, da sensação de desolação, do vácuo existencial à Schopenhauer, adquiri um nível de consciência mais largo sobre o modo como devo encarar a outra metade da minha vida. Não se engane: depois dos sessenta é só sofrimento. Antes é só desespero, mas estamos tão preocupados em viver e dar um sentido à vida que acabamos nos esquecendo disso.

Do que se trata essa consciência adquirida, afinal. Essa consciência que parece surgir depois dos trinta. Depois que a maior parte das ilusões acerca das verdades primárias enfim nos força a fazer escolhas. E escolher não é se posicionar diante da vida e inventar uma existência singular, apenas. Escolher é um ato inalienável e que nos corta a todos, sem exceção. A consciência dessas escolhas é o problema.

Parece que depois dos trinta, depois de perder pessoas, depois de perder coisas, depois de perder um tipo muito subjetivo de inocência, parece que de alguma forma as escolhas pesam mais do que antes. A consciência das escolhas.

É como eu disse a uma amiga que não acredita em vida adulta. A vida adulta é um amontoado de perdas e fracassos. A vida adulta é foda.

Algumas coisas me fazem rir. Me deixam alegre. Me fazem dar saltinhos (literalmente) de felicidade. Charlie Brown é uma dessas coisas. Acredito que se as crianças fossem levadas a ver a turma do Charlie Brown em idade precoce o mundo seria menos idiota.

Ainda há pouco assisti A felicidade é um cobertor quente (há título mais preciso? Não há), e só não verti lágrimas pela casa toda porque queria que minha filha mantivesse a atenção em Linus a soliloquiar sobriamente (lindamente) acerca dos fracassos todos e de como a vida é feita deles e por eles, e que todos nós, em menor ou maior grau, precisamos de coisas nas quais nos apoiar, e que por isso ele precisava do seu cobertor azul, assim como eles precisavam disso ou daquilo pra que a vida seguisse sem tantos sobressaltos. Dá vontade de abraçar o Linus bem forte, sabe. Minha filha manifestou interesse em abraçar o Linus e o Charlie Brown. Ela disse que os dois pareciam muito tristes e daí precisavam de um abraço.

Noite passada ela rezou e pediu por todos. Pediu sobretudo pela vovó. Pediu que ela voltasse não como estava mas como era. Pediu que ela voltasse mais jovem. Por um momento eu senti vontade de pedir junto. Por um momento eu voltei a acreditar. Por um instante eu senti vontade de rezar.

Disse que as crianças devem ser levadas a ver Charlie Brown em idade precoce. Repito: as crianças precisam de Charlie Brown assim como os adultos precisam de Dorothy Parker. Charlie Brown sempre me faz pensar em Dorothy Parker.

Résumé

Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.

Résumé (tradução livre, tá; agradeça)

Láminas causam dor;
Rios são úmidos;
Ácidos mancham você;
E drogas causam cãibra.
Armas são ilegais;
Forcas cedem;
Gás tem um cheiro horrível;
É melhor viver.

Numa das cartas a Mário de Andrade, assegurava-lhe Drummond que suas maiores emoções ele as vivera com uma caneta na mão. Comentando isso com um jovem aluno, entrevi sua expressão de piedade pelo triste poeta de gabinete, que não se atirou à vida. Não tive como lhe dizer que, entre as tantas formas de se atirar à vida, uma é se valer de uma caneta para perseguir e achar as falas humanas mais urgentes e precisas, essenciais para quem as diz e indispensáveis para quem as ouve.

[Alcides Villaça, Sabático]

Repare. Toda vez que estiver no cinema e as luzes se acenderem, indicando que é o momento de ir pra casa, que o filme acabou, que você voltou a existir, repare nas pessoas que ficam, que não aceitam levantar e sair dali. Adianto: é uma visão triste. É uma visão funesta e das mais desagradáveis. Eu mesmo, certa feita, fiquei. Recusei sair. Recusei voltar à vida. A recusa nada tinha a ver com minha indisposição natural ao excesso de realidade que nos aguarda do lado de cá. A recusa, em linhas gerais, recaía sobre uma passagem de um dos escritos de Foucault, no qual ele insiste em nos fazer ver que “a única maneira de evitar a morte e a loucura é fazermos da existência um modo de viver, uma arte”. Eu, àquela época, acreditava que ficando ali conseguiria preservar a minha existência e fazer dela alguma coisa, algo em que as pessoas poderiam se inspirar futuramente (não ria, você já fez coisas piores). Eu sei que depositar a existência na tentativa de ser uma instalação viva e restrita a um assento de uma sala de cinema é um ato absurdo, irrelevante, ingênuo, banal, que seja. Eu não dispunha de recursos intelectuais pra fazer algo além disso. E ainda que tivesse não faria muito mais do que fiz. Sei, afinal, que Foucault está certo. A única forma de viver é fazendo da existência um processo de subjetivação.

A subjetividade não é de modo algum uma formação de saber ou uma função de poder que Foucault não teria visto anteriormente; a subjetivação é uma operação artista que se distingue do saber e do poder, e não tem lugar no interior deles. A esse respeito Foucault é nietzschiano, e descobre um querer-artista sobre a linha última. Não se deve acreditar que a subjetivação, isto é, a operação que consiste em dobrar a linha do fora, seja simplesmente uma maneira de se proteger, de se abrigar. Ao contrário, é a única maneira de enfrentar a linha e de cavalgá-la: talvez se vá à morte, ao suicídio, mas, como diz Foucault numa estranha conversa com Schroeter, o suicídio tornou-se então uma arte que toma toda a vida.

Procrastinar é uma virtude. Eu observo procrastinadores profissionais com um tipo de inveja indecente, e salivo. Eu tentei ser um. Eu tentei pra valer. Não é pra todo mundo. É um clube restrito, e eles não aceitam mais inscrições.

Disse que procrastinar é uma virtude? Menti. Procrastinar é uma arte. Procrastinadores são instalações vivas. Eles permitem que você circule por entre eles, que você os veja, que você os toque. É como se dissessem a você: “É assim que eu vivo. Vá embora. Isso aqui não é pra você”.

Um procrastinador iniciado cria seu próprio tempo-espaço. Eles não estão no mundo; eles são o próprio mundo. Procrastinar é deixar a configuração padrão cumulatória de lado. Os maiores procrastinadores concebem um campo moral particular, isento de julgamentos. Procrastinar não é deixar de fazer, adiar. Procrastinar é fingir estar fazendo enquanto os outros fazem. Já disse: não é pra todo mundo. Você precisa estar à frente de todo mundo pra não fazer nada. É assim que as coisas funcionam. Você precisa ler as entrelinhas das embalagens da vida padrão antes dos outros pra que os outros sejam os outros e você o procrastinador.

Eu tentei, repito. Eu tento, insisto. Algo em mim faz com que eu faça as coisas ao invés de fingir estar fazendo as coisas. Papai foi um grande procrastinador. Ele costumava me aconselhar. “Começar algo não é bom. Terminar é bom. Começar, não.”

Além de papai, alguém. Alguém próximo. Ela dorme ao meu lado todas as noites. Ela, mais do que papai e os procrastinadores profissionais, desenvolveu um método. Coisa fina mesmo. Coisa de quem estuda o sistema e conhece suas falhas, desvãos. Ela conhece todos os intervalos. Pra ser um procrastinador na vida real e não só no campo filosófico (assim como eu) é preciso conhecer os intervalos. Um procrastinador sabe muito bem que um intervalo é aquela camada de tempo livre, ocioso. O que um procrastinador faz é trabalhar com essas fissuras de tempo de maneira que elas ganhem um corpo mais espesso, um caldo mais grosso. Em outras palavras, um procrastinador faz com que o intervalo não seja somente um intervalo mas uma cadeia deles, em sucessões vertiginosas. Fazer isso sem que todos notem é não só a comprovação de genialidade assombrosa como também um atestado de proficiência no que diz respeito aos modos de vida e existência.

A mim resta observar, sorrateiramente. Ela elevou a procrastinação a patamares nunca antes alcançados. Ela concedeu à procrastinação valor de mercado e prestígio social. Ela faz capital sem capital. Ela viu antes. Ela viu além. Ela viu mais. Ela viu o quadro todo, de trás pra frente e de cima pra baixo.

Um procrastinador habitual arrisca uma fatia da sua vida útil. Ela, não. Ela arrisca tudo. Ela não tá nem aí. Ela tá cagando. Ela diz que “procrastinar não é algo que se faz impunemente”. E continua: “Procrastinar não é uma maneira de dizer ao mundo que você não está de acordo com ele. Não. Procrastinar não tem nada a ver com ser rebelde, contra o sistema. Procrastinar não tem nada a ver com atitude política. Procrastinar é só mais uma forma refinada de dizer aos outros que você prefere ficar de fora. Procrastinar foi o jeito que eu encontrei pra fazer alguma coisa sem que eu precise fazer alguma coisa”.

E ainda existem pessoas que me perguntam a razão de eu ter escolhido essa mulher. Essa mulher, amigos, me escolheu. Simples assim.

Assisti Meia-noite em Paris (4/5) ao lado de duas senhoras praticamente cegas, que mascavam pipoca (imagine alguém mascando fumo) e faziam a sucção dos seus refrigerantes intermináveis. Perceba: eu fiquei entre as duas (não ria). As duas trocavam impressões num tom elevado (eufemisticamente falando, porque na verdade elas eram evidentemente surdas) durante o correr do filme (todo ele). Findo o filme, ainda mascando pipoca, ambas tinham comentários a fazer.

“Eu não entendi nada. Não gostei, não.”

“Eu entendi tudo, mas não gostei de nada.”

É mais ou menos assim que se divide o público dos filmes do Woody. Quando entendem, não gostam. Quando não entendem, gostam menos. Quando entendem e, aparentemente, gostam, dizem que ele se repete, que o bom Woody pertence ao passado.

Esse filme é uma resposta para essas pessoas. O passado só é bom quando não estamos nele, porque do contrário ele é o presente, e o presente é sempre ruim e tedioso. O presente nos lembra do que somos feitos. Nos lembra que fracassamos, que estamos fracassando miseravelmente.

Portanto: não digam que o melhor Woody pertence ao passado. Voltem aos filmes e notem o seguinte: eles não são necessariamente melhores, ou piores do que os da nova safra (isso só fará sentido se você realmente, verdadeiramente, sentou para ver a filmografia completa; eu duvido muito). São filmes do Woody, simplesmente. Pequenas e vibrantes variações. Todos os seus filmes se parecem porque ele habita um mundo particular. O seu mundo, pois. Há uma assinatura em cada um dos seus filmes. Os imbecis, apressados, não notam essa assinatura. Os tolos fazem comparações. Os idiotas insistem: mais do mesmo. E há ainda os outros, que preferem nem ver. Eles sempre dizem: “Eu pulo esse novo Woody; talvez numa próxima vez”.

Espero que não haja uma próxima vez. Espero que vocês continuem vendo os filmes de sempre. Há tempos eu cansei de convencer os demais do quanto Woody é singular e agudo. Do quanto é trágico e cômico, por vezes numa única frase, situação. Expliquei, em diversas ocasiões, a depuração elíptica dos seus roteiros. De nada adiantou. As pessoas riem. De mim, claro. Elas acham engraçado minha devoção e fé no homenzinho de tweed. Eu tendo a recorrer, em meu socorro,  a uma resposta do Auden. O entrevistador pergunta ao Auden se no início dos anos 30 ele escrevia para certos leitores, a fim de dar uma chacoalhada neles. Auden, como sempre, é espirituoso:

Não, apenas tento me expressar e espero que alguém vá ler o que escrevo. Me perguntam: “Para quem o senhor escreve?”. Respondo: “Você é meu leitor?”. Se dizem que sim, emendo: “E gosta do que escrevo?”. Se respondem que não, então digo: “Não escrevo para leitores como você”.

E dessa mesma maneira passei a responder aos que não conseguem ver nada nos filmes do Woody. Certamente ele não faz filmes para você, meu caro.

Daqui a alguns anos esses filmes tidos como “menores” serão “maiores”. Daqui a alguns anos não teremos mais os filmes do Woody, nem suas trilhas, nem suas idiossincrasias, nem sua melancolia, nem o seu mundo inimitável e titubeante e mágico. Decerto o cinema será mais triste. Indubitavelmente eu também serei. Mas: terei os filmes. Terei o passado. A nostalgia é um mal necessário para podermos seguir em frente.